Quem passa pelas mesas da Banca de Revistas do Trevi Center ou caminha pelos corredores do Shopping Santa Maria e do Shopping Praça Nova nos fins de semana encontra o mesmo cenário clássico: uma vibrante e barulhenta concentração de pessoas de todas as idades, carregando blocos de papel, listas rabiscadas e caixas de madeira. Ali, o tradicional ritual de trocar cromos repetidos resiste ao tempo. No entanto, no meio da multidão, o mercado de figurinhas da Copa do Mundo de 2026 ganhou contornos de alta estratégia financeira e conexões internacionais que cruzam fronteiras a partir do coração do Rio Grande do Sul.
O grande símbolo dessa profissionalização atende pelo nome de Lucas. Acadêmico de Educação Física na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ele transformou o que muitos ainda enxergam como "coisa de criança" em uma operação comercial altamente lucrativa. E o seu primeiro diferencial já se nota no desenho da mesa: ao contrário da maioria dos revendedores e colecionadores, que utilizam caixas separadoras de madeira para organizar o estoque, Lucas abomina o formato compacto.
Ele carrega suas figurinhas meticulosamente separadas por blocos transparentes e plastificadas de acordo com os grupos da Copa do Mundo. Ao chegar nos pontos de troca, retira-as dos plásticos e espalha os montes diretamente na mesa, organizados por seleções e níveis de raridade.
Logística de gigante: 30 mil figurinhas na mesa
Para sustentar um negócio que atrai desde crianças da cidade até colecionadores do outro lado do planeta, a escala de trabalho precisa ser estratégica. Somente nesta edição da Copa, Lucas abriu, sozinho, cerca de 4.500 pacotinhos de figurinhas, o que se traduz na impressionante marca de mais de 30 mil cromos em estoque.
Por trás do dinamismo das vendas nos finais de semana, existe uma rotina invisível e extenuante. Nas segundas e quintas-feiras, o estudante chega a passar 12 horas seguidas trancado em casa apenas organizando, contando e atualizando os seus blocos plastificados.
– Na segunda-feira, eu me preparo para o movimento do meio da semana. Na quinta, organizo o estoque para o verdadeiro turbilhão, que começa na sexta-feira à tarde e vai até domingo à noite, das 9h da manhã até o fechamento dos shoppings – relata Lucas.
O acervo é dividido com precisão. Os escudos brilhantes de todas as 48 seleções que disputam o megaevento mundial de 2026 ficam em um lote transparente separado. Outro bloco especial é dedicado exclusivamente às cobiçadas "FWCs" (Fifa World Cups), as brilhantes especiais que abrem e fecham o livro ilustrado, englobando os mascotes oficiais, as duas partes do troféu da Copa, as seleções históricas e a cobiçada bola Trionda.
Essa organização garante o que Lucas chama de "tato de mercado", a grande diferença entre ele e o que apelidou de "semi-vendedores".
– Muita gente acha que o lucro é comprar o pacote na banca, abrir e tentar vender. Não funciona. O cliente compra comigo porque, enquanto o rapaz ao lado tem duas figurinhas que ele precisa, eu tenho na mesa as 20 que faltam para ele fechar o álbum de uma vez só. O segredo está na variedade e na escassez – explica.
O fenômeno das "Legends" e a "máfia da balança"
O coração financeiro do mercado avulso atende por outro nome: as figurinhas Extras, que fazem parte da badalada série Legends (Lendas). O álbum de 2026 selecionou apenas 20 jogadores de elite de todo o planeta para receberem essas versões especiais, que não são coladas no álbum e trazem quatro níveis de raridade: lilás, bronze, prata e dourada. O único atleta brasileiro a integrar este panteão é o atacante Vinicius Júnior.
Como as Legends vêm como um cromo a mais dentro do envelope, o oitavo cromo, que vem de brinde, elas representam lucro puro. No entanto, a febre em torno dessas raridades desencadeou um bastidor polêmico na cadeia de suprimentos nacional. Como os pacotinhos que contêm uma figurinha Extra são miligramas mais pesados que os comuns, o mercado paralelo descobriu o esquema.
Terceiros passaram a utilizar balanças de precisão para "filtrar" e desviar os pacotes premiados ainda dentro dos caminhões de entrega, em distribuidoras, mercados e farmácias, fazendo com que caixas inteiras cheguem violadas ou completamente sem Legends nos pontos tradicionais.
Lucas consegue escapar desse filtro de duas formas. A primeira é sua rede de fornecedores, recebendo caixas lacradas direto da distribuidora oficial da Panini em Barueri (SP). A segunda é usando as figurinhas comuns como moeda de troca.
– Às vezes chega um guri dizendo que faltam 40 figurinhas normais para ele completar o álbum e me oferece uma Legend em troca. Eu entrego o que ele precisa e fico com a especial para vender depois – conta.
E os valores dessas joias impressionam. Enquanto uma Legend lilás de um jogador de menor mídia sai na faixa de R$ 25, os astros Lionel Messi e Cristiano Ronaldo operam em uma economia própria. A versão lilás da dupla não é comercializada por menos de R$ 100 em Santa Maria, enquanto a versão dourada (gold) pode atingir a expressiva marca de R$ 350 a R$ 500 a unidade na mão de Lucas.
A conexão gringa: exportando em dólar
Se o comércio nas mesas dos shoppings de Santa Maria garante o giro rápido, é no mercado internacional que o faturamento de Lucas decola. Utilizando plataformas digitais, o estudante montou uma rede de exportação robusta e envia relíquias colecionáveis para países como Estados Unidos, Canadá, Peru, Itália, Espanha e até Taiwan.
O grande trunfo da exportação está em identificar o que há de exclusivo no território brasileiro que os colecionadores estrangeiros não conseguem encontrar em seus países. É o caso das figurinhas da Coca-Cola (que vêm nos rótulos de garrafas), onde jogadores como o equatoriano Enner Valencia e o goleiro argentino Emiliano Martínez saíram exclusivamente nos encartes do Brasil.
O maior fenômeno, contudo, foram as figurinhas perfiladas douradas do McDonald's. No início da campanha, a rede de fast-food distribuiu pacotes especiais com bordas perfiladas em ouro de algumas das principais seleções da competição. Enquanto o público local subestimou o item por "mudar o padrão de cores do álbum", Lucas teve a visão de negócios de comprar caixas e caixas lacradas utilizando cupons de desconto, estocando o material.
Hoje, com o item completamente extinto e esgotado nos balcões do país, os colecionadores estrangeiros ficaram obstinados pelo cromo. Um kit completo com as 28 perfiladas douradas do McDonald's é vendido por Lucas para o exterior pela impressionante cifra de 400 dólares. Enquanto no mercado interno brasileiro, o mesmo lote não sai por menos de R$ 500.
A economia do álbum e a herança da velha guarda
A guinada de Lucas para o mercado avulso e para a exportação também foi uma resposta direta à inflação que atingiu o colecionismo em 2026. Ele coloca a matemática na ponta do lápis: na Copa de 2022, o pacote custava R$ 4,00 e o custo estimado para encher o álbum girava em torno de R$ 540,00. Em 2026, com o preço do envelope tabelado a R$ 7,00, a melhor das hipóteses exige um desembolso mínimo de quase R$ 1.000,00.
Esse encarecimento fez o público local recuar na montagem de álbuns cheios. Percebendo a mudança de comportamento, Lucas adaptou a estratégia. Se em 2022 ele comercializou 23 álbuns completamente preenchidos, em 2026 ele fechou apenas 8, concentrando suas forças na venda de unidades avulsas de alta procura, como as figurinhas FWC (mascotes e a bola da Copa), cujos preços flutuam de R$ 5,00 a R$ 20,00 a unidade devido à escassez nos lotes.
Para viabilizar margens de lucro competitivas, o estudante precisou construir uma sólida rede de contatos. No início de sua trajetória, contou com o apoio do Seu Ferraz, figura icônica do colecionismo de Santa Maria, para conseguir lotes com valores acessíveis.
Depois, firmou parceria com o Mundo Rock, que garantia 10% de desconto nos volumes, até finalmente abrir os canais diretos com o intermediário da Panini em Barueri, conseguindo comprar pacotes na faixa de R$ 5,50 a R$ 5,60.
– Sem o desconto no custo inicial, a margem fica muito baixa e o negócio se torna impossível – revela.
Apesar do sucesso financeiro e do faro comercial apurado, Lucas mantém os pés no chão e faz questão de saudar as suas origens. Sua paixão começou na Copa de 2010, quando tinha apenas 8 anos de idade e frequentava a praça para trocar cromos com os pioneiros. Ele atribui todo o seu conhecimento de mercado ao Darlan, considerado o grande mestre do colecionismo digital na região, e a figura conhecida Seu Ferraz.
– O Seu Ferraz é a grande alma do colecionismo em Santa Maria. Ele está de pé desde a Copa de 2006. É o cara que não quer saber de lucro, que senta na banca do Trevi Center para ajudar as crianças, os pais e manter o hobby vivo pelo puro amor à tradição. Tive a honra de conhecer toda a velha guarda, e tudo o que a nossa cidade é hoje nesse meio devemos a eles – destaca, com respeito.
A maturidade de Lucas também se reflete no destino do dinheiro. O faturamento da Copa de 2022 custeou a sua primeira viagem internacional da vida: três semanas conhecendo a Europa. Em 2026, a estratégia mudou. Em apenas 45 dias de foco absoluto no auge do lançamento do álbum, ele conseguiu dobrar o seu faturamento em relação à edição passada. Dessa vez, além de comprar bens pessoais como um celular de última geração, o universitário decidiu segurar o montante para consolidar uma reserva financeira de longo prazo.
Enquanto o senso comum insiste em olhar para as mesas repletas de papéis brilhantes como uma mera distração infanto-juvenil, o mercado paralelo prova o contrário. A partir de uma mesa de shopping em Santa Maria, mentes estratégicas estão movimentando o comércio global em dólares, provando que a Copa do Mundo se joga de muitas formas.