Curta produzido por estudantes da UFSM retrata memórias e afetos perdidos nas enchentes de 2024 no RS

Curta produzido por estudantes da UFSM retrata memórias e afetos perdidos nas enchentes de 2024 no RS

Foto: Beto Albert (Diário/Arquivo)

No Caixa de Lembranças, os objetos perdidos se tornam ponto de partida para contar histórias de dor. Na foto, em Faxinal do Soturno, em maio de 2024, mostra o cenário pós-desastre.

A vida de muitas pessoas nunca mais foi a mesma após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Além das casas destruídas, lavouras perdidas e estradas interrompidas, existe a perda daquilo que não pode ser recuperado: as memórias, guardadas em fotografias, cartas, objetos herdados e brinquedos de infância. É a partir desse vazio que nasceu o curta documental Caixa de Lembranças, produzido por estudantes do Curso de Extensão em Produção de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

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Com cerca de 18 minutos de duração, o foco está nas histórias íntimas, nas perdas afetivas e naquilo que permanece mesmo quando algo tão importante desaparece. Em fase de produção, o documentário conta com a participação de 20 alunos e, para dar continuidade às gravações e concluir o projeto, conta com uma vaquinha aberta e a busca por apoiadores e patrocinadores.


Da escuta clínica ao cinema

Daiana é uma das diretoras do projeto.Foto:Vinicius Becker (Diário)

A origem do projeto está diretamente ligada à vivência da psicóloga Daiana Schneider Vieira, 40 anos, uma das diretoras do curta. Em 2024, ela atendia em municípios da Quarta Colônia, área muito afetada pela chuva. Foi nesse contato direto com as vítimas que surgiram os relatos.

– Ouvi sobre essas questões que as pessoas traziam, que iam para além da casa, da lavoura, para além daqueles objetos grandes. Falava-se, por exemplo, de fotos de pessoas que já não estão mais aqui e lembranças da infância que traziam afetos. Coisas que ganharam, por exemplo, de alguém que já se foi, e que não têm como recuperar. Por mais que tivesse uma casa nova, com móveis novos, aquelas coisas não voltavam. São coisas que estão muito ligadas ao afeto, à memória e à lembrança, coisas que o dinheiro não compra – explica.

A partir dessa experiência, a ideia foi levada para o curso de extensão da UFSM. Após as aulas teóricas, os estudantes apresentaram propostas de roteiro, que foram submetidas a uma votação coletiva com os professores. Caixa de Lembranças foi o projeto escolhido para ser desenvolvido pela turma, reunindo estudantes em diferentes funções técnicas e criativas.

– O curso nos deu base teórica e prática, acesso a equipamentos e, principalmente, um espaço coletivo para transformar essa ideia em filme – explica a diretora.

O professor que virou personagem

Historiador de formação, Gilvan é professor, coordenador do curso de extensão e um dos entrevistados do documentário.Foto: Vinicius Becker (Diário)

Um dos depoimentos que compõem o filme é o do professor Gilvan Dokhorn, 52 anos, coordenador do curso de extensão e também vítima das enchentes. Morador de Silveira Martins à época, ele perdeu a casa onde vivia com a família. A história de Gilvan foi, inclusive, a primeira a ser registrada pelo grupo: a diária foi feita em 22 de novembro, em Santa Maria, e as imagens captadas deram origem ao teaser do documentário, apresentado durante a formatura da turma.

– O filme aborda um tema que é muito sensível, muito difícil de elaborar, e permite que as pessoas façam isso. O silêncio é uma forma de lidar, mas poder falar é outra. E eu acho importante. No meu caso, foi – conta.

O professor destaca que o documentário cria um espaço raro para que esse tipo de vivência possa ser expressa sem julgamento. 

– Dentre as várias perdas que uma tragédia traz, talvez a menos exposta seja essa que é intangível. Frente a perdas terríveis de vidas, pessoas que ainda vivem em abrigo, falar em perder coisas ligadas à memória parece muito pequeno. Quem tem esse tipo de perda, muito mais imaterial do que material, muitas vezes não se sente à vontade para falar. Vai dizer que perdeu uma carta do teu pai, as fotos da infância dos teus filhos? Parece pequeno, mas não é.

Além da experiência pessoal, o professor acompanha de perto a dedicação dos alunos responsáveis pelo documentário.

– Eles estão fazendo um trabalho primoroso, de excelência, demonstrando a viabilidade de a universidade se preocupar com a área da cultura, com a formação nessa área. Ver uma turma inteira trabalhando coletivamente em um projeto como esse me enche de orgulho pela função que eu ocupo, pela universidade em que trabalho e por ainda existirem pessoas assim, num mundo cada vez mais complexo de viver e de se relacionar. É uma lufada de esperança em meio a um deserto de desgraceiras que vivemos.

O processo coletivo do documentário

A pré-produção do curta começou em outubro de 2025, com reuniões semanais. Em novembro, a equipe realizou uma oficina interna voltada para a troca de experiências e para a aproximação com o tema do filme. Realizada na Antiga Reitoria da UFSM, os participantes foram convidados a desenhar objetos pessoais carregados de valor afetivo. 

A atividade, segundo Igor Trindade da Silva, 24, que atua na produção, no roteiro e no departamento de arte do curta, foi acompanhada por uma roda de conversa, criando um espaço de troca. Os desenhos produzidos ajudaram a compor a identidade visual do documentário e foram compartilhados nas redes sociais.

– Não dava para tratar um tema tão delicado sem se envolver de verdade. É um assunto muito pessoal, então, precisavamos abraçar isso com responsabilidade – explica.

Igor atua principalmente na produção, além de colaborar com a direção de arte e o roteiro do filme.Foto: Vinicius Becker (Diário)


Luize Kauani de Souza, 22 anos, trabalha na pré-produção, assistência de produção e também na comunicação do projeto.  Para ela, o curso de extensão representou um momento de descobertas pessoal e profissional. 

– Até então, eu não tinha tido a oportunidade de vivenciar e praticar o audiovisual, de estar ali e entender um pouco mais sobre isso. Entrei no curso de extensão pensando também em me descobrir profissionalmente, e ele me deu essa oportunidade. Consequentemente, o documentário tem sido, para mim, uma forma de colocar em prática o que aprendemos no curso e também de explorar esse mundo. Está sendo uma experiência inovadora e desafiadora, porque mexe um pouco com o desconforto do não saber e do não entender. Mas, à medida que vamos tentando, vamos descobrindo e aprendendo. Ter pessoas ao lado que já entendem, têm mais experiência e fazer essa troca é sensacional.

Luize atua na pré-produção, produção, assistência de produção e na comunicação do projeto, incluindo a construção da identidade visual e das estratégias de divulgação.Foto: Vinicius Becker (Diário)


Quando o tema também é pessoal

Paulo é responsável pela direção de fotografia do curta.Foto: Vinicius Becker (Diário)

Gilvan não é o único que vive essa experiência de uma forma mais intensa. A direção de fotografia do curta é assinada por Paulo Henrique Baraúna da Silva, 26 anos, fotógrafo natural de São Paulo que mora em Santa Maria desde 2017 e que também foi atingido pelas enchentes. No projeto, ele é responsável por transmitir visualmente as emoções presentes nos relatos.

 Meu trabalho é fazer com que as ideias que imaginamos sejam vistas em cena. É montar tudo de uma maneira emocional, sensitiva, usando luz e sombra, criando uma imagem para que, quando as pessoas assistirem, elas sintam exatamente o que queremos transmitir. O tema em si já exige muita sensibilidade, e saber que eu também passei por isso, pelas perdas das enchentes, torna tudo ainda mais pessoal. 

Durante as enchentes, ele atuou como voluntário e precisou se afastar do próprio trabalho. A importância do projeto é destacada por Silva:

– O trabalho de fotógrafo, muitas vezes, é solitário. Aqui, poder fazer isso com outras pessoas, construir um trabalho coletivo, é algo surreal. O projeto ganha forma a partir da visão de muita gente envolvida. Isso é um desafio, mas também é muito recompensador. Depois de passar meses mais recluso por causa das enchentes, com pouco contato, estar agora com uma equipe, com amigos, e não só no trabalho, mas também fora dele, faz muita diferença. É algo que deixa o coração bem quentinho.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Ajude a tirar o curta do papel

O documentário Caixa de Lembranças segue em fase de produção e busca apoio por meio de vaquinha e parcerias para a continuidade das gravações e finalização do projeto.Foto: Júlia Gomes (Divulgação)

Agora, o projeto segue em fase de produção. Recentemente, a equipe fez a segunda diária de gravação em Silveira Martins. Outros casos já estão selecionados, mas o grupo segue em busca de novas histórias. 

As gravações fora da cidade exigem deslocamento, logística e recursos, e a equipe segue na busca por apoio financeiro para dar continuidade ao trabalho, que conta com a parceria da produtora Toca Audiovisual, responsável por viabilizar o empréstimo de equipamentos para as filmagens.

Para viabilizar os gastos, o grupo criou uma vaquinha online, disponível nesse link

Além de doações individuais, a equipe também busca parcerias e apoios institucionais. Empresas interessadas podem contribuir de outras formas e ter sua marca associada ao documentário.

Registro da turma do Curso de Extensão em Produção de Cinema e Audiovisual da UFSM durante a formatura, realizada em 10 de dezembro, no Cineclube da Boca, com a apresentação do teaser do documentário.Foto: Júlia Gomes (Divulgação)


Siga nas redes

No perfil do projeto no Instagram @caixadelembrancas, são compartilhados bastidores, atualizações e trechos do processo criativo.

Veja o teaser



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