Por que ela ficou tanto tempo em uma relação ruim? Por que ela não tomou uma atitude antes? Por que se submeteu a um companheiro abusivo? Por que não pensou nos filhos? Questionamentos feitos, ao longo do tempo, às mulheres que buscaram auxílio, nas mais diversas instituições. Públicas. Privadas. Nos serviços de saúde. Nas Delegacias. Nos Fóruns. Equívocos cometidos – inclusive – por todos nós, que trabalhamos com violência doméstica e familiar contra as mulheres. Custamos (todos) a compreender a complexidade do fenômeno. Demoramos a divisar o ciclo da violência em sua sutil inteireza.
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A pergunta é outra. O que a impediu de sair dessa relação é o que realmente devemos buscar. Diversas são as razões. Normalização de controle e posse do masculino sobre o feminino, apre(e)ndida em casa, observando o tratamento que o pai dava à mãe, é das mais comuns. Aquilo que testemunhamos em nossos lares originários molda as estruturas futuras de nossos relacionamentos. Não se trata de uma inevitável prisão. Dela podemos escapar com a maturidade. Fuga acelerada por acompanhamento psi (recomendado a todas e todos). Mas são imagens e filmes que estarão, sempre, registrados em nossas retinas. Que nos forjam. Dependência emocional é outra explicação. Um vínculo profundo, adoecido, mantem relações disfuncionais por anos. Décadas. Grilhões símiles à dependência financeira. Nunca existirá liberdade plena de qualquer pessoa sem independência financeira. Por isso insistimos que mulheres trabalhem e construam rendas próprias. Não raro, os mesmos homens que impedem suas companheiras de trabalharem são os que negam alimentos, quando do fim dos vínculos. Igualdade plena dentro da relação não convive harmonicamente com dependência econômica.
Outra justificativa usual para a permanência em relações que machucam são os filhos. Buscam preservar a prole da dor da separação. A motivação é nobre. O preço pago, no entanto, é caro demais. A par de, sabemos, trazer mais mal aos filhos serem criados em um lar desarmônico que em casas separadas. Filhos não são desculpa para a infelicidade de ninguém, costumo repetir, à exaustão, em audiência. E mulher alguma perderá a guarda dos filhos se pedir separação. Não importa quantas vezes essa mentira haja sido repetida. Há anos não mais existe o instituto do “abandono do lar”. Juiz algum se sensibilizará porque a mulher tomou a iniciativa de judicializar o fim do amor. A vergonha é outra circunstância relevante. Muitas conhecidas dirão, sem empatia, “eu avisei”. Outras simplesmente não a apoiarão porque consideram que ter qualquer um a seu lado basta (tolamente ... nunca a máxima “melhor sozinha que mal acompanhada” fora tão verdadeira). Uma rede de apoio forte é fundamental para que se rompam vínculos que trazem só infelicidade. A experiência demonstra que uma das estratégias mais comuns de domínio feminino é exatamente a fragilização das amizades e dos contatos com a família. Isolar a mulher não é coincidência. É técnica de controle. Por isso, redes de apoio são fundamentais. Ainda, o medo. Medo de não ser ouvida. Medo de ser novamente agredida. Medo de ser morta...
As razões que impedem as mulheres de deixarem relações adoecidas não são facilmente contabilizáveis. Todas, entretanto, são relevantes. Romper com a violência é um processo. Árduo. Custoso. Sempre doloroso. Não ocorre de um dia para o outro. Demanda, fundamentalmente, apoio. Consideração. Respeito. E apoio. Sem julgamentos. Porque, quando a nosso exame aportam situações de violência doméstica, julgados são os réus. Vítimas nunca são objeto de julgamento. Não são julgadas juridicamente. Nem moralmente. Vítimas, dentro do ecossistema protetivo inaugurado pela Lei Maria da Penha, são acolhidas. Compreendidas. Protegidas. Essa é a nossa função. Obrigação de quem compõe a rede. Compromisso de toda Sociedade. Para a proteção de seus direitos aqui estamos. Acolher sem julgar. Nossa missão.