
Foto: Charles Guerra (Diário)
Projeto leva policiais a palestrar sobre bullying e drogas com estudantes
A imagem de uma polícia violenta e impositiva, que aparece para estabelecer a ordem, não guardava nenhuma semelhança com a chegada de dois policiais civis na Escola Estadual Santa Marta, no Bairro Nova Santa Marta, na noite de quarta-feira da semana passada.
Eles chegavam para mais uma edição do Papo de Responsa, um projeto de prevenção da Polícia Civil que nasceu no Rio de Janeiro e foi implantado pela 3ª Delegacia Regional, com sede em Santa Maria, há cerca de um mês. O objetivo da iniciativa é promover um diálogo com o público jovem, especialmente em escolas, para tratar de temas como a violência, drogas, bullying e o papel na polícia na sociedade.
Menina de 1 ano e 5 meses morre atropelada em Santa Maria
Naquela noite, os escrivães Lenon Goulart de Vargas e Andreia Gularte usaram o rótulo de polícia truculenta para acessar o imaginário de cerca de 20 alunos da Educação para Jovens e Adultos (EJA), com idades entre 15 a 23 anos, e desconstruir essa ideia. O grupo de cinco voluntários já encampou o projeto em oito instituições de quatro cidades da região: Santa Maria, Nova Palma, Itaara e São Sepé.
- Não viemos passar sermão, dar lição de moral ou dizer o que é certo ou errado. O desafio, hoje, é pensar na nossa vida, nossos sonhos, nossos caminhos. Vamos abrir os corações, beleza? - introduziu Andreia, policial civil há seis anos, atualmente lotada na Delegacia de Agudo.
Há um ano e meio na polícia, Lenon contou um pouco da experiência dele na Delegacia de Homicídios da zona norte de Porto Alegre, cuja área de abrangência fazia limite com a Região Metropolitana, onde uma onda de decapitações motivadas por brigas entre facções assustou a população. Em Santa Maria, a intimidade com a violência já era um ponto em comum entre o escrivão e os moradores do Bairro Nova Santa Marta, um dos que mais registram homicídios em Santa Maria.

Foto: Charles Guerra (Diário)
A jovem Sthefany Maria, 15 anos, aprovou a conversa com os policiais civis: A gente vê que a violência não leva a nada
- Começamos com uma provocação e os levamos a pensar no que importa para eles, algo que faça a diferença na vida deles. Falamos de temas importantes sem nomear que estamos falando de bullying, drogas - conta Lenon.
Importante aprendizado para jovens que vivem um cotidiano de medo
A estudante Sthefany Maria Vieira dos Santos, 15 anos, chegou a ter medo de estudar na Escola Estadual Santa Marta. Ela era amiga de Gabriel Silveira Medeiros, 14 anos, morto a facadas em frente à escola, em abril do ano passado. Até hoje, a estudante vai com o irmão mais velho para a aula e confessa que ainda teme que algo aconteça a ela. Sthefany Maria aprovou a presença da polícia na escola.
Suspeito de três homicídios em Santa Maria é preso em Santa Catarina
- Não esperava que a conversa fosse desse jeito. No começo, fiquei assustada porque ele começou a falar sobre assassinato, mas, depois da conversa, a gente vê que violência não leva a nada. Eles nos disseram para cuidar de quem a gente ama, dar valor, que a gente não deve fazer mal para o outro e deve ir atrás dos nossos sonhos - contou Sthefany.
Segundo o policial civil Lenon Goulart de Vargas, o projeto voltará à escola para a versão do Papo de Responsa com os professores e para acompanhar as mudanças de comportamento dos alunos. Cada instituição abraçada pelo projeto continua em monitoramento por, no mínimo, um mês.
A diretora Gleide Vargas já nutre expectativas sobre a conversa. Ela espera que os policiais ajudem a equipe a lidar com os episódios de agressões entre alunos, indisciplina e depredação da escola.
- Eles trabalham na segurança, sabem como reagir a situações de violência. Aqui, muitas vezes, os professores ficam até intimidados de chamar a atenção dos alunos - relata a diretora Gleide.
Para pedir uma intervenção do projeto, as escolas devem enviar e-mail para [email protected].