Foto: Vinicius Becker (Diário)
Para quem costumava viajar de avião entre Santa Maria e São Paulo, 2025 marcou uma virada na rotina e no mapa aéreo da cidade. Ao longo do ano, o município perdeu a última conexão aérea direta com o centro do país, encerrando um capítulo importante da mobilidade regional e aprofundando o processo de redução das opções de voos na cidade.
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O principal marco ocorreu em 1º de agosto, quando foram encerradas as operações regulares da Azul Linhas Aéreas entre o Aeroporto Regional Brigadeiro Cherubim Rosa Filho, em Santa Maria, e o Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP). A rota, com três frequências semanais, concentrava conexões para diferentes regiões do Brasil. A suspensão ocorreu por decisão da Azul, que entrou em recuperação judicial e, para renegociar dívidas milionárias, comprometeu-se com os credores em reduzir em 30% sua malha aérea no Brasil. Com isso, pelo menos 19 cidades deixaram de ter voos da companhia em 2025.
Além disso, os voos entre Santa Maria e Florianópolis foram interrompidos após a suspensão das operações da Voepass pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por questões relacionadas à segurança operacional da companhia. A rota, que estava em funcionamento desde 2023 e tinha previsão de ampliação de frequências em 2025, acabou descontinuada, afetando os planos de ampliação da malha aérea do município. A crise na Voepass começou com a queda de um ATR-72 em 2024, em Vinhedo (SP), matando mais de 60 pessoas. O avião viajava de Cascavel (PR) para São Paulo.
Com essas mudanças, Santa Maria passou a contar apenas com uma ligação aérea regional, também operada pela Azul: três voos semanais para Porto Alegre, realizados às terças, quintas e sábados. Na prática, o município deixou de ter acesso direto a destinos de média e longa distância, levando passageiros a buscar alternativas por via terrestre até aeroportos de cidades próximas, como Porto Alegre, Caxias do Sul e Passo Fundo, para dar continuidade às viagens.
Entraves e possibilidades
A interrupção da ligação direta com São Paulo não ocorreu sem acompanhamento do poder público. Segundo a administração municipal, a situação vinha sendo monitorada de perto, com diálogo contínuo junto aos órgãos responsáveis pela aviação civil. Ainda assim, o avanço de soluções esbarra em limitações estruturais do Aeroporto Regional de Santa Maria, que hoje restringem a ampliação da malha aérea do município.
Atualmente, o principal obstáculo para a retomada de voos de média e longa distância está na condição da pista. A reforma da estrutura é apontada como o caminho mais viável para que Santa Maria volte a ter conexão direta com São Paulo e outros grandes centros do país. Para isso, seria necessária a adequação da pista, com ampliação e reforço, permitindo a operação de aeronaves de maior porte, como os turbojatos, utilizadas em rotas mais longas.
A execução da obra, no entanto, depende de dois fatores fundamentais: a autorização do Comando da Aeronáutica e a liberação de recursos pela Secretaria de Aviação Civil (SAC). Em dezembro, o Executivo municipal formalizou o pedido da intervenção. Agora, o avanço do processo aguarda um posicionamento oficial da Aeronáutica. O valor exato da obra ainda não está definido, mas a estimativa inicial aponta para um investimento superior a R$ 40 milhões, podendo ser bem maior do que isso. Mesmo com parecer favorável, o prazo para que a conexão com o centro do país seja restabelecida não seria inferior a dois anos.
"A reforma da pista está muito distante de nós"
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Ronie Gabbi, embora a pista tenha extensão compatível com as necessidades operacionais, ela não possui resistência suficiente para receber voos diários de aeronaves do tipo turbojato, utilizadas em voos de maior distância.
– A reforma da pista está muito distante de nós e só avançaria com essa autorização. Já foram realizadas diversas agendas técnicas e políticas, inclusive uma agenda multidisciplinar em Brasília, com a participação do Executivo, vereadores de diferentes partidos e parlamentares, para tratar especificamente dessa pauta – afirma.
Após essas articulações, foi iniciado um estudo técnico conjunto entre as equipes da Aeronáutica e da Secretaria de Aviação Civil, que analisa as possibilidades de intervenção no aeroporto. O levantamento deverá apontar se o caminho mais viável será uma reforma total ou parcial da pista, a ampliação do sítio aeroportuário atual ou, em um cenário mais distante, a construção de um novo aeroporto.
– Ainda não há prazo definido. Estamos falando de um investimento que pode variar entre R$ 70 milhões e R$ 100 milhões, dependendo do tipo de obra que for indicada. A partir do parecer técnico, a SAC vai definir quais são os caminhos possíveis – detalha o secretário.
Menos conexões, menos turismo
Quase cinco meses após o fim do voo direto, os impactos já são sentidos em diferentes setores da cidade. Para o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Santa Maria (Sindthur), João Provensi, a perda da conexão aérea representa um prejuízo direto para o turismo e para a economia local.
– Para Santa Maria, é menos turismo. Menos pessoas vindo para cá e menos gente saindo para buscar novidades, conhecimento e oportunidades e trazer isso de volta. Isso acaba atingindo todo mundo: comércio, indústria e o próprio turismo. A gente tenta se articular, conversa com lideranças e deputados, mas é um cenário difícil – afirma.
A situação se soma a um histórico recente de retração da malha aérea santa-mariense. Nos últimos anos, o município já havia perdido voos para Florianópolis e visto a redução de frequências diárias para Porto Alegre. A diminuição das opções de voo afeta diretamente a atratividade da cidade para eventos, negócios e visitantes, além de dificultar a circulação de moradores.
Viagens mais longas e mais caras

Para quem dependia da rota Santa Maria–São Paulo, a mudança significou mais tempo de viagem e aumento de custos. A estudante paulista Isabella Matos, 21 anos, que estuda na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), relembrou que o voo direto facilitava o deslocamento, especialmente nos períodos de férias. No entanto, com o fim da ligação direta, a jovem passou a combinar ônibus e avião para chegar ao destino. Hoje, o trajeto inclui deslocamento terrestre até Porto Alegre e, a partir daí, conexões aéreas até São Paulo e sua cidade natal.
– Na última viagem, saí de Santa Maria às 7h da manhã e cheguei só às 9h da noite. Antes, eu levava em média cinco ou seis horas. Agora passa de 12 horas. Ficou mais caro e muito mais cansativo – relata.
Segundo ela, a redução no número de voos também encareceu as passagens aéreas, tornando o ônibus uma alternativa quase obrigatória para quem busca reduzir custos – algo que não fazia parte da rotina quando a cidade ainda contava com mais opções de conexão.
O que restou
Atualmente, seguem em operação apenas os voos entre Santa Maria e Porto Alegre. As partidas da Capital ocorrem às terças, quintas e sábados, às 10h35min, com chegada a Santa Maria às 11h40min. No sentido inverso, os voos partem de Santa Maria às terças e quintas, às 12h10min, e aos sábados, às 15h10min.
Ao final de 2025, o balanço é de uma cidade mais isolada do mapa aéreo nacional. Enquanto não há confirmação sobre a retomada de novas rotas, Santa Maria encerra o ano com menos conexões, mais obstáculos para quem precisa viajar e o desafio de recolocar o município na rota do desenvolvimento e do turismo.
Apesar da perda da ligação direta com São Paulo e Florianópolis, o Executivo destaca que não houve impacto significativo no volume de passageiros ao longo de 2025. Entre janeiro e julho, período em que os voos ocorriam diariamente, foram realizados 239 voos, com média de 68 passageiros por operação, totalizando 32.504 passageiros transportados. Já entre agosto e dezembro, até o dia 29, com a redução para três voos semanais, foram 55 voos, média de 67 passageiros por voo e 7.370 passageiros atendidos.