Especialista em psicologia e produtores de conteúdo adulto de Santa Maria falam sobre a venda de fotos íntimas na internet

Cassiano Cavalheiro

Especialista em psicologia e produtores de conteúdo adulto de Santa Maria falam sobre a venda de fotos íntimas na internet

Criadores de conteúdo oferecem materiais exclusivos mediante assinatura, repercutindo em um contato mais próximo dos fãs com seus ídolos

Na era dos produtores de conteúdo e de influenciadores digitais, o público está acostumado a acompanhar o cotidiano de quem está sempre falando com o telefone e dividindo trechos de sua vida, em capítulos, com os seguidores. Essa intimidade virtual acabou criando uma proximidade do espectador em relação à pessoa que se mostra e, muitas vezes, mora na mesma cidade e frequenta os mesmos lugares. Mas nem só de moda, gastronomia, viagens e lifestyle vive a produção de conteúdo. Há alguns anos, a produção de conteúdo adulto em plataformas pagas virou a renda extra ou a principal fonte econômica de famosos e de pessoas comuns.No mundo, a plataforma OnlyFans, em tradução literal “Apenas Fãs”, surgiu em 2016, na Inglaterra. A proposta é permitir que criadores de conteúdo vendessem seus materiais. Em 2020, durante a pandemia, ocorreu a explosão tanto de procura (quem paga para ver) quanto de produtores desses materiais adultos (quem se mostra). Em agosto de 2020, o site repercutiu ainda mais após Bella Thorne, atriz, cantora e modelo, ex-Disney, anunciar que estava por lá e faturar mais de 2 milhões de dólares em uma semana. No Brasil, famosos não perderam tempo, e até Anitta criou uma conta e cobrou os fãs interessados a verem conteúdo mais ousado e exclusivo para assinantes. Até o ano passado, eram mais de 130 milhões de integrantes da plataforma no mundo, de acordo com BBC News Brasil.

A versão brasileira

No rastro do OnlyFans, no Brasil, em 2020, surge a Privacy, uma rede social de compartilhamento de conteúdo por assinatura. Da mesma forma que no site gringo, os usuários podem pagar para acessar publicações exclusivas de criadores de conteúdo adulto. De acordo com a assessoria da plataforma, em 2022, já são mais de 55 mil criadores e mais de 3 milhões de usuários. Um dos fatores da popularização foi a facilidade no pagamento da assinatura, que pode ser efetuado via PIX ou boleto, sem a necessidade de vincular cartão de crédito.Os criadores de conteúdo podem cobrar entre R$ 5 e R$ 200 por mês, sendo que 80% das vendas são repassadas ao usuário _ o restante é usado com manutenção da plataforma. Assim como o OnlyFans, a rede brasileira atrai não só anônimos, mas celebridades. A influencer Jaque Khury, a chacrete Rita Cadillac e os funkeiros Tati Zaqui e Dynho Alves são famosos que estão vendendo conteúdo na Privacy.

Psicólogo e Cientista Social

O psicólogo e especialista em sexualidade Cesar Bridi Filho, que atua em Santa Maria, explica que, muito das pessoas que julgam são as pessoas que consomem esse tipo de conteúdo._ Moralmente, acreditam ser errado, impuro ou outros adjetivos possíveis. Mas, sozinhos ou sozinhas, consomem esse conteúdo e, depois, ativam algum mecanismo interno de condenação para não ter que pensar naquilo. A questão do desejo não tem limites, temos o que chamamos de preferência, que produz um efeito neuronal _ explica.Ainda sobre a produção de conteúdo, por tudo ficar gravado, quem produz conteúdo é atingido por isso, principalmente, pelo olhar moral._ Por exemplo, podemos pensar na própria violência sexual com pessoas LGBTQIA+, especialmente pessoas transsexuais e travestis. Existe toda uma questão de prazer e, depois, de violência. Ou seja, as pessoas que sentem prazer e que realizam suas fantasias são as mesmas que agridem e que matam. Eu sucumbo às minhas vontades, mas, para voltar ao meu estado moral entendido como certo, eu preciso rechaçar, agredir, enfim, o ato pornográfico não é só quem faz, é quem consome.

Personagem real

O psicólogo chama a atenção para o fato de que quem produz esse conteúdo veste um personagem, e isso é importante para que ocorra a distinção._ Por exemplo, ninguém vai sensualizando até o mercado. As pessoas se apaixonam por uma imagem, no mesmo modo que, na época das revistas sensuais, as pessoas se apaixonavam por uma foto. A diferença é que essas plataformas oferecem uma posição mais ativa ao consumidor, uma proximidade. O conteúdo adulto tem relação com fantasia e não, necessariamente, com sexo. E consumir esse tipo de conteúdo não é um problema e nem uma patologia, a questão é como você encaixa isso na sua vida, o que isso significa para você no seu dia a dia. O problema está quando começam a objetificação, os assédios e a falta de compreensão de que aquilo é um conteúdo.

Machismo estrutural

De acordo com Bridi Filho, às vezes, a questão do julgamento não tem a ver com o tipo de conteúdo que é feito, mas, sim, com o gênero._ A sexualidade sempre foi permitida aos homens. Essa liberdade é muito maior a eles. O homem que trai, por exemplo, tem mais chance de perdão social do que as mulheres. E isso é histórico, é milenar. Então, é difícil romper com isso, mesmo hoje que se tem essa ideia de uma mente mais aberta. A repercussão é sempre muito pior para a mulher. A mulher paga um preço social absurdamente maior. E a base disso não está no conteúdo adulto mas, sim, na sociedade. Em termos de imagem, os homens sofrem menos.

Toda nudez será castigada?

Sobre a nudez, o profissional ressalta que nascemos nus e, em relação aos animais, somos os únicos que usamos roupas._ O ser humano vende tudo, nós vendemos nossa inteligência, nossa força de trabalho. Mas, ao longo do tempo, nós dissociamos. Como se corpo e venda estivessem em lados opostos. E nós objetificamos o corpo. A nudez nos incomoda porque ela nos livra das amarras que temos. Erotizante não é andar nu e nem estar nu, erotizante, por exemplo, é o biquíni que tapa só o mamilo porque eu preciso deixar algo tapado, não visível para que o erótico cole. O erótico é aquilo que está invisível.

Produção local

Todas as modas virtuais têm seus representantes locais. Foi assim com os influenciadores digitais que falam de moda, gastronomia ou viagem, com a criação de Podcasts, canais de YouTube de diferentes assuntos, entre outros. Dessa forma, a produção de conteúdo adulto também tem seus representantes, como os perfis do Privacy @aninhagaucha, @gingerfoxx e @azulll.

Impacto financeiro

No começo do ano passado, uma jovem de 34 anos viu o perfil de uma amiga, que produz conteúdo adulto, e também encontrou nesse nicho uma oportunidade de ganhar dinheiro. A gaúcha, que mora em Santa Maria desde pequena, produz conteúdo há cerca de um ano e, na maioria das vezes, utiliza apenas o celular. Ela já chegou a lucrar cerca de R$ 3 mil em um mês. Sem investimento, sem ajuda e sem pudor.– Quase caí dura – recorda.

Ela explica que tem um público fiel e que isso é resultado de sua produção semanal. É comum que, no dia a dia, enquanto está na academia ou fazendo compras, receba notificações no celular, avisando-a que há novas assinaturas e renovações. O dinheiro é uma renda extra.Outra jovem que, aos 24 anos, produz conteúdo adulto e os vende na internet, atualmente, mora em Uruguaiana, mas morava em Santa Maria até pouco tempo atrás. Ela chegou a perder um emprego formal em função de ter feito um ensaio sensual e por vendê-lo na internet. Nos últimos meses, ela se dedica única e exclusivamente à produção de conteúdo e adora compartilhar fotos e vídeos com seus assinantes.– Meus assinantes são jovens, muitos de Santa Maria, de 19 a 26 anos. São meninos bonitos que, se eu visse na balada, certamente eu gostaria de beijar. Atualmente, a produção de conteúdo paga todas as minhas contas. O máximo que já tirei em um mês foi R$ 3 mil. Além da plataforma, vendo muito direto no Instagram. Eu planejava ter um emprego formal e manter isso com uma renda extra, mas se tornou a principal. É um home office, eu trabalho sem sair de casa e é muito gostoso.Outro morador de Santa Maria que produz conteúdo adulto tem emprego formal e mantém o perfil no Privacy há cerca de dois meses. Em um mês, já recebeu mais de R$ 1 mil de pessoas que assinaram seu perfil.– Esse dinheiro serve como uma reserva e é utilizado para investir na plataforma (com fotógrafo), afinal, a renovação da assinatura depende de nós. Também me permito gastar em alguns caprichos, porque ninguém é de ferro.

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