Foto: Vinicius Becker (Diário)
A 6.570 quilômetros de distância de Caracas, capital da Venezuela, a rotina segue aparentemente normal em Santa Maria. Ruas movimentadas, aulas, trabalho e compromissos cotidianos. Ainda assim, para venezuelanos que vivem aqui na cidade, os acontecimentos recentes no país vizinho atravessam as fronteiras geográficas. A queda do governo de Nicolás Maduro, após a invasão e prisão do ditador conduzida pelos Estados Unidos em 3 de janeiro, despertou incertezas em quem acompanha a situação longe de casa.
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Entre Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul, e Caracas, capital da Venezuela, seriam 92 horas de viagem de carro. Ainda assim, os acontecimentos políticos recentes no país caribenho repercutem diretamente na rotina de venezuelanos que hoje vivem no município. Com o coração apreensivo e, ao mesmo tempo, aliviado, eles acompanham à distância os acontecimentos, até porque ainda mantêm fortes vínculos familiares, culturais e afetivos com a Venezuela.
Segundo dados do Cadastro Único (CadÚnico), Santa Maria possui atualmente 114 venezuelanos residentes – são uma pequena parte dos 7,9 milhões de refugiados, que deixaram o país de origem nos últimos anos devido à extrema pobreza, falta de comida e perseguições políticas a opositores. Entre eles, estão César Vielma, 25 anos, estudante de moda na Universidade Francisca (UFN) e Rafael Guerrero, motoboy, que deixaram o país em momentos distintos, mas compartilham a experiência de acompanhar, de fora, um episódio considerado histórico.

A notícia da prisão do ditador Nicolás Madurou chegou de formas semelhantes aos dois venezuelanos: pelas redes, pelos jornais ou pela mensagem de um familiar, ainda nas primeiras horas daquele dia 3 de janeiro. César Vielma relata que soube do ocorrido ao acordar e acessar as notícias, que mostravam imagens de muitas explosões em Caracas. É que durante a operação comandada pelos EUA, várias bases militares no meio da cidade de Caracas foram destruídas por mísseis, enquanto outras equipes com helicópteros foram na base onde se escondia Maduro e a mulher, que foram capturados e levados a Nova York para serem julgados. Na operação, o governo da Venezuela estima terem morrido 100 pessoas, sendo 32 militares cubanos que faziam a guarda de Maduro – o que foi confirmado pelo governo de Cuba.
– Eu não acreditava que isso tinha acontecido na Venezuela, parecia um filme. No começo, eu fiquei assustado, porque tenho família em Caracas, mas depois que falei com eles e vi que estava tudo bem, fiquei mais calmo – completa.
Rafael Guerrero também recebeu as informações pela internet e por mensagens enviadas por parentes que permanecem na capital venezuelana.
– Em um primeiro momento eu fiquei preocupado, depois fiquei alegre – relata.
Em ambos os casos, o contato com familiares ajudou a reduzir a insegurança inicial e trouxe a confirmação de que não havia registros de feridos entre pessoas próximas. Porém, apesar do alívio, segue a preocupação devido às incertezas e a crise econômica que seguem na Venezuela e atingem suas famílias.]

A reação dos dois venezuelanos que vivem em Santa Maria está diretamente ligada às experiências que tiveram enquanto viviam na Venezuela. César Vielma deixou seu país natal para ter acesso ao Ensino Superior, decisão que, segundo ele, foi influenciada pelo contexto político e pelas condições de vida.
– A ditadura era muito forte, não tinha liberdade de expressão nem oportunidades de estudo. A situação de alimentação, saúde e infraestrutura também era muito complicada. Em 2017, por exemplo, ficávamos três ou quatro horas na fila da padaria para comprar dois pães por pessoa – relata.
Rafael Guerrero, que permaneceu na Venezuela até 2019, também descreve um cotidiano marcado por dificuldades:
– O governo de Maduro, entre 2016 e 2019, quando eu morava lá, foi muito ruim e cheio de escassez, inflação, com disputas até para comprar um quilo de arroz.
Além disso, em entrevista ao Diário, ele mencionou limitações frequentes no acesso a medicamentos, energia elétrica e água, além da instabilidade econômica, fatores que comprometem a subsistência das famílias. Essas vivências ajudam a compreender o sentimento de alívio manifestado por ambos diante da queda do governo. São problemas que os parentes de Rafael e César seguem enfrentando lá na Venezuela.

No Brasil, César e Rafael reconstruíram suas rotinas em trajetórias distintas, marcadas pela adaptação e pela busca por estabilidade. César vive atualmente em Santa Maria, onde mantém vínculo com o meio acadêmico. Após uma passagem por Blumenau (SC), mudou-se para o município com o objetivo de cursar o Ensino Superior. Ingressou inicialmente no curso de Paisagismo da UFSM e, após sobreviver no acidente envolvendo um ônibus da universidade em abril de 2025, optou por cursar Moda na Universidade Franciscana.
Paralelamente, criou a marca Cavi Studio, na qual produz roupas, quadros e itens personalizados com desenhos autorais, inspirados nas vivências que teve em uma mineração na Venezuela, experiência que lhe permitiu reunir recursos para migrar ao Brasil.
Rafael Guerrero, por sua vez, está no Brasil há mais de seis anos. A mudança ocorreu em busca de melhores condições de vida para ele e para a família, que permanece majoritariamente na Venezuela. Em território brasileiro, Rafael vive com a esposa e os dois filhos, mantendo contato com familiares venezuelanos por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens.
Expectativas para o futuro

Mesmo acompanhando os acontecimentos com atenção, César e Rafael reconhecem que o processo político na Venezuela ainda está em curso e que a reconstrução institucional não será imediata. Até porque, apesar da prisão de Maduro, a vice-presidente chavista Delcy Rodrígues assumiu o cargo após a queda do ditador. Ainda assim, a mudança no comando do país reacende expectativas entre quem saiu e entre aqueles que permaneceram.
– Nós estamos com muita esperança de que mudanças positivas ocorram na Venezuela. Estamos na expectativa, ainda não se sabe o que pode acontecer, mas estou esperando que seja algo bom – declara César.
Ambos mantêm contato frequente com familiares e acompanham, à distância, os desdobramentos políticos e sociais. Em Santa Maria, constroem novas trajetórias ligadas ao estudo e ao trabalho, preservando a identidade cultural venezuelana enquanto observam, com expectativa, os próximos passos do país de origem.
A distância geográfica, nesse contexto, não rompe os laços: apenas transforma a forma de vivenciar e acompanhar a história que continua a se desenrolar em casa.
Situação atual

Desde a madrugada de 3 de janeiro de 2026, a Venezuela vive um momento de intensa instabilidade política e institucional. Uma operação militar dos Estados Unidos em Caracas e em outras regiões do país resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram levados para os Estados Unidos e aguardam julgamento sob acusações.
As forças norte-americanas conduziram a ofensiva com apoio de unidades especializadas, envolvendo dezenas de aeronaves, e anunciaram a retirada de Maduro sem resistência significativa, segundo relatos oficiais. Após o episódio, a liderança política venezuelana passou temporariamente à vice-presidente Delcy Rodríguez, em um cenário de incerteza institucional, com autoridades do país afirmando que Maduro continua sendo o presidente legítimo apesar de sua captura.
Após pressão do presidente Donald Trump, Delcy admitiu que passaria a negociar com os Estados Unidos e a permitir a exploração de petróleo venezuelano por empresas norte-americanas que haviam sido expulsas por Hugo Chávez há quase 20 anos. Porém, empresas como Exxon-Mobile afirmaram para Trump que não há condições de investir bilhões de dólares para retomar a produção de petróleo na Venezuela se as incertezas políticas prosseguirem.
Delcy acabou assumindo a presidência e anunciou esforços para libertar presos políticos detidos durante o governo anterior, indicando a intenção de iniciar um processo de liberação gradual de detentos, embora organizações civis afirmam que centenas ainda permanecem encarcerados.
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