Foto: Vinicius Becker (Diário)
"Eu não queria mais viver. E eles chegaram. Não fui eu que salvei eles. Foram eles que me salvaram", diz Fernanda.
Na sala, nos quartos, nos corredores e no pátio totalmente telado vivem 105 gatos. Todos têm nome, história e cuidados diários. Em Santa Maria, Fernanda Santos Pizarro, 42 anos, fez da casa que vive em Camobi um lar definitivo para felinos adultos que foram abandonados ou maltratados. Animais que, seja pela idade avançada ou problemas de saúde, dificilmente encontrariam um lar.
Diferentemente de protetores que atuam com adoção, ela assumiu a guarda permanente de todos. Hoje, o maior desafio é garantir ração de qualidade para manter vivos aqueles que, segundo ela, deram um novo sentido à sua vida.
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O amor pelos animais é antigo, mas se intensificou há cerca de seis anos, após a perda da filha de 2 anos vítima de um câncer. Em meio a dor do luto, ela diz que perdeu a vontade de viver. Foi nesse período que os primeiros resgates começaram.
Fernanda viu de perto episódios recorrentes de envenenamento de gatos na região da Cohab Fernando Ferrari, onde mora. Em um dos casos mais chocantes, cerca de 50 animais foram encontrados mortos dentro de um saco de lixo. Outros 20 morreram em seguida.
Sem conseguir conter a violência de outra forma, começou a recolher os animais da rua. Muitos mutilados, doentes ou vítimas de maus-tratos.
— Fui atrás da prefeitura, vereadores, polícia. O único jeito que encontrei para parar aquilo foi recolher os gatos — relata.
E o que começou como uma tentativa de proteção emergencial, aos poucos se transformou no espaço que hoje leva o nome de "Santuário dos Gatinhos".
— Aqui não é lar temporário. São famílias inteiras que eu tirei da rua, e conheço o miado de cada um. Agora, eles ficam comigo para sempre. São meus filhos — afirma.

A história dos mais de 100 moradores

A decisão de não colocar os animais para adoção é pensada para o bem de todos. A maioria dos gatos é adulta, muitos têm doenças crônicas e limitações físicas. Animais assim, segundo ela explica, quase nunca são escolhidos. E, mesmo que fossem, dificilmente conseguiriam se adaptar a uma nova rotina depois de anos vivendo juntos.
— As pessoas querem os fofinhos. Os meus parecem que vieram da guerra. A pior maldade sempre vem parar aqui — diz.
Há gatinhos mutilados, com partes do corpo faltando, queimados com água quente ou óleo, vítimas de tiros de chumbinho, atropelamentos ou envenenamentos. Alguns deles chegaram ferais (gatos não socializados, que não permitem contato humano). Com tempo, cuidado e rotina, passaram a aceitar o toque e o tratamento de Fernanda.

Na casa, todos convivem como uma grande família. Há bisavôs, avós, pais, filhos e netos. Fernanda conhece cada um pelo miado, pela história e pelo nome. Muitos, inclusive, têm até nome composto.
— Não existe gato bravo, existe gato sofrido. Eles sofreram demais, eles não confiam nas pessoas, porque, infelizmente, tem muita gente má neste mundo. Mas com amor, não tem um gato que não se modifique. Não tem. Eles são muito bons, eles são almas muito boas. Mesmo com tudo o que eles já passaram, eles não têm raiva, não têm ódio. São carinhosos, são meigos. Os meus aqui olham televisão, eu leio até livros para eles. Eles adoram saber uma fofoquinha, vão para a janela olhar a vida dos outros — brinca.

Os cuidados

Para manter o espaço saudável para os gatinhos, a rotina de cuidados é dividida com a mãe, Idenir Terezinha Santos Pizarro, 76 anos. A troca constante dos panos é feita mais de uma vez ao dia, assim como a limpeza das caixas de areia. Todos os gatos são vermifugados e tomam remédios antipulga.
Além disso, há outro ponto importante no cuidado dos animais: a castração. Entre os 105 gatos acolhidos por Fernanda, a maioria das fêmeas é castrada, enquanto outra parcela está em processo de castração com apoio do Castramóvel da prefeitura. Já entre os machos, parte dos procedimentos também é realizada pelo serviço público, enquanto outros precisam ser feitos em clínicas particulares. Para custear essas cirurgias, a família faz faxinas, vende bolos e peças de tricô, além de contar com doações esporádicas.

A protetora conta que problemas de saúde são constantes, especialmente os urinários — o que é comum nos felinos. Apesar de todos os animais testados negativamente para FIV e FeLV (vírus que comprometem o sistema imunológico dos gatos), muitos desenvolvem obstruções graves. O tratamento, segundo ela, exige internação, cirurgias e procedimentos de alto custo. Alguns gatos seguem internados e outros aguardam cirurgias urgentes. No momento, Fernanda acumula diversas contas abertas em clínicas veterinárias.
— Tenho muitas contas abertas em clínicas veterinárias. Se eu não pagar, eles morrem porque eu não consigo mais atendimento.

Como ajudar

Sem realizar novos resgates por estar no limite, Fernanda segue tentando manter o que já construiu. Hoje, a maior necessidade é ração de qualidade, especialmente ração urinária, que é essencial para os gatos com problemas renais, mas têm alto custo. Também são bem-vindos medicamentos, material de limpeza, cobertas, brinquedos e apoio financeiro para quitar dívidas veterinárias.
— A ração com corante faz mal. Eles precisam de ração boa, adulta, de filhote e, se possível, urinária. Qualquer ajuda faz diferença — afirma.
Quem não puder doar presencialmente pode contribuir via Pix, com a chave 80526543000 (Fernanda Santos Pizarro)
As informações e a rotina dos animais são compartilhadas no Instagram @santuariodosgatinhos.
