Foto: Rian Lacerda (Diário)
A prefeitura de Santa Maria criticou os bloqueios de ônibus realizados por estudantes, no início do manhã desta segunda-feira (9), no centro da cidade. Em entrevista ao programa Bom Dia Cidade, da Rádio CDN, o procurador-geral do município, Guilherme Cortez, afirmou que a forma como ocorreu a manifestação foi “lamentável”.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
Segundo ele, o protesto organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) teria prejudicado o direito de circulação da população.
– Todo protesto é legítimo, todo mundo tem direito de protestar. Mas a forma como a entidade se coloca, bloqueando o direito constitucional de ir e vir da população, do trabalhador e do estudante que quer ir para a aula, isso é lamentável – afirmou.
Durante a manhã, estudantes bloquearam pontos de circulação de ônibus no centro da cidade em protesto contra o aumento da tarifa do transporte coletivo, que passou a vigorar nesta segunda-feira.
Conselho aprovou tarifa, diz procurador
Cortez também destacou que o valor atual da passagem está relacionado à tarifa técnica aprovada pelo Conselho Municipal de Transportes, do qual o próprio DCE faz parte.
– O DCE faz parte do Conselho Municipal de Transportes e a tarifa técnica que está mantida no valor atual foi aprovada pelo conselho. Talvez o DCE tenha sido vencido naquele conselho, mas isso faz parte da democracia – disse.
O procurador ressaltou, ainda, que o valor decretado pela prefeitura está abaixo da tarifa técnica calculada anteriormente, no ano passado.
Custos do sistema
Segundo Cortez, o principal fator que compõe o valor da tarifa é o custo operacional do transporte coletivo, especialmente os salários dos trabalhadores do setor.
– O principal elemento dessa composição é o salário dos funcionários do transporte. A necessidade de reajuste desses salários impacta diretamente na tarifa – explicou.
Ele também citou o aumento do preço do diesel como um dos fatores que pressionam os custos do sistema.
– Nós temos dificuldades, o próprio óleo diesel subindo hoje, de preço, foi matéria em todo o Estado do Grande Sul, afetando o agronegócio, em razão dos conflitos no Oriente Médio – afirmou.
Diferença entre pagamento em dinheiro e cartão
O procurador também destacou que parte significativa dos usuários não paga o valor cheio da tarifa.
– Quase 40% dos usuários utilizam o cartão cidadão e pagam um valor menor. Hoje, apenas cerca de 13% fazem pagamento em dinheiro – disse.
Ele acrescentou que 17% dos passageiros são estudantes, que pagam meia passagem:
– O estudante paga metade da tarifa e o sistema precisa arcar com essa diferença.
Licitação do transporte
Durante a entrevista, Cortez também atualizou o andamento do processo de licitação do transporte coletivo em Santa Maria.
Segundo ele, o edital lançado em 2025 passa atualmente por revisão técnica após questionamentos apresentados por empresas interessadas.
– Esse processo está em revisão pela equipe técnica e deve ser encaminhado novamente ao Tribunal de Contas do Estado nos próximos dias – explicou.
A expectativa da prefeitura é que a licitação seja retomada ainda no primeiro semestre de 2026.
O procurador ressaltou, porém, que a realização do processo licitatório não significa necessariamente redução do preço da passagem.
– As pessoas têm a percepção de que a licitação vai baixar a tarifa, mas isso não é verdade. Ela traz segurança jurídica e pode melhorar a qualidade do serviço, mas a tarifa depende obrigatoriamente de política de subsídio.
Debate sobre subsídio
Para o procurador, a principal forma de reduzir o valor da passagem seria ampliar políticas de subsídio ao transporte público.
– Falta uma política nacional de subsídio. Os municípios acabam ficando sozinhos com essa conta – afirmou.
Segundo ele, cidades maiores conseguem reduzir tarifas porque destinam recursos públicos ao sistema.
– Porto Alegre, por exemplo, destina mais de R$ 200 milhões em subsídios para reduzir o valor da passagem – disse.
Tarifa zero
Questionado sobre a possibilidade de implantar tarifa zero em Santa Maria, Cortez afirmou que o modelo é inviável na realidade atual do município.
– Canoas tem um orçamento de R$ 3,7 bilhões, quase o dobro de Santa Maria, além de uma frota muito menor de ônibus. O comparativo acaba sendo distorcido, porque é uma realidade diferente – explicou.
De acordo com ele, sem recursos adicionais, seria impossível implementar esse modelo no município.
– Nós gostaríamos de ter uma tarifa menor ou até tarifa zero, mas hoje isso não é possível. Não é possível em Passo Fundo, em Caxias, em Porto Alegre, não é possível em Rio Grande, nem em Pelotas – afirmou.
Confira a entrevista