Cultura da prevenção: por que simulados de evacuação podem salvar vidas em casos de incêndio

Rogério Cattelan Antocheves de Lima, professor da UFSM e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança contra Incêndio (GEPESCI), e Janaína Steckel Retore, engenheira civil e de segurança do trabalho, defendem a adoção de treinamentos e simulados periódicos como base para a construção de uma cultura prevencionista.Foto: Vinicius Becker (Diário)

Em uma cidade que aprendeu da forma mais dura o que significa falhar na prevenção, discutir segurança contra incêndios vai além do cumprimento da lei. Santa Maria carrega, até hoje, as marcas deixadas pelo incêndio da boate Kiss, e episódios mais recentes, como o do Colégio Marista, reforçam que a cultura de prevenção não pode surgir apenas após tragédias, mas precisa ser construída no cotidiano, com informação, treinamento e preparo contínuo.

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Pela legislação de incêndio do Rio Grande do Sul, o treinamento da brigada de incêndio é obrigatório em edificações de uso coletivo. Já os simulados de evacuação com a população em geral não são exigidos. É justamente nesse ponto que especialistas acendem o alerta: a ausência de exercícios práticos com alunos, funcionários e público em geral compromete a reação em situações reais. Para eles, balizar as ações apenas pelo mínimo legal significa, muitas vezes, deixar que a sorte decida o desfecho de uma emergência

Para o professor Rogério Cattelan Antocheves de Lima, docente da graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), dos programas de pós-graduação em Engenharia Civil e Ambiental e em Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo, além de coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Contra Incêndio (Gepesci), a base da prevenção está na percepção do risco.

Segundo ele, a cultura prevencionista começa quando a sociedade compreende que o incêndio não é um evento distante ou improvável. Rogério cita como exemplo um incêndio recente ocorrido em uma casa noturna na Suíça, durante a virada do ano, onde adolescentes permaneceram dentro do local enquanto o teto já estava em chamas.

Na avaliação do professor, situações como essa evidenciam o quanto a falta de treinamento e informação pode levar as pessoas a subestimarem o perigo. 

— A cultura prevencionista é isso: é trazer para a sociedade, para a comunidade, a percepção do risco. É fazer com que as pessoas saibam como agir em uma situação de emergência. Se dá tudo certo e a gente pensa: “que bom que não aconteceu nada”. Mas e se tivesse acontecido? Se eu tivesse uma preparação, uma formação, soubesse como agir, será que a evacuação daquele ambiente não seria mais eficaz? Saber por onde sair, quais são os procedimentos, quem são os responsáveis pelo local, o que os responsáveis precisam fazer, o papel dos brigadistas e como a população em geral deve agir faz toda a diferença numa emergência — explica.

Para o professor, prevenção vai além do cumprimento da lei e passa pela formação de uma cultura que ensine como agir diante do risco de incêndio.Foto: Vinicius Becker (Diário)


O que a legislação exige e onde ela não alcança

Janaína atua há mais de dez anos na área de segurança contra incêndio Foto: Vinicius Becker (Diário)

A engenheira civil e de segurança do trabalho Janaina Steckel Retore, engenheira civil de segurança do trabalho que atua há mais de dez anos na área de segurança contra incêndio e é colaboradora do GEPESCI, explica que o treinamento de brigada de incêndio é uma das medidas mínimas exigidas pela legislação. Ela destaca que, mesmo estabelecimentos isentos de alvará de Bombeiros precisam cumprir exigências básicas, como a presença de extintores, sinalização de saída, iluminação de emergência, saídas desobstruídas e, obrigatoriamente, ao menos uma pessoa treinada para agir em situações de emergência.

Segundo Janaína, o treinamento é o ponto inicial da cultura prevencionista, pois faz com que as pessoas passem a observar seus ambientes, seja em casa, no trabalho ou na escola, com outro olhar.

Já os simulados de evacuação, que envolvem toda a população do local, não são obrigatórios pela legislação estadual de incêndio. Esse procedimento pode ser realizado em escolas, empresas, fábricas, supermercados e outros locais de grande circulação, e ensina o que fazer em situações de incêndio

— Dependendo do uso, da ocupação e da área, alguns estabelecimentos precisam ter um plano de emergência, no qual fica definido o que cada um deve fazer.  Mas, se a gente não realiza simulados, a população em geral da edificação não sabe como agir. E o que acontece nesse momento de pânico? É óbvio que a reação das pessoas será diferente. Agora, se elas já participaram de algum simulado, já têm uma noção de como sair: formar fila, colocar a mão no ombro da pessoa da frente, o último a sair fechar a porta e, por exemplo, colocar uma lixeira na frente para indicar que todas as pessoas daquele ambiente já evacuaram. Dessa forma, a situação acaba se tornando quase uma rotina e, no dia em que eventualmente aconteça um sinistro real, as pessoas terão uma percepção muito maior de quais procedimentos precisam ser adotados.


O exemplo da UFSM: seis minutos para evacuar 600 pessoas

Foto: Paulo Barauna (Divulgação)


Um exemplo concreto dessa preparação ocorreu no Centro de Tecnologia (CT) da Universidade Federal de Santa Maria (USM) no dia 23 de março de 2025, quando a instituição ealizou sua primeira simulação de evacuação por incêndio. A ação começou às 14h30min, quando uma aluna comunicou a direção sobre um suposto foco de incêndio. Cinco minutos depois, o alarme foi acionado e os prédios 07 e 09, os que concentram o maior número de salas de aula, começaram a ser evacuados.

Cerca de 600 pessoas participaram do exercício. Em apenas seis minutos, todos os espaços foram esvaziados, incluindo corredores, salas, banheiros e a cafeteria. Às 14h51min, a simulação foi encerrada oficialmente, com o aviso de que se tratava apenas de um treinamento.

A demonstração foi coordenada pela Direção do CT, em parceria com o Gepesci, o Núcleo de Prevenção de Incêndios (NPI/PROINFRA) e Janaína, que é instrutora credenciada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS). Ela explica que o sucesso do simulado foi resultado de um planejamento extenso, que envolveu reuniões prévias, definição de papéis, capacitação da brigada, produção de materiais informativos e conscientização dos docentes. 

— Para que ele seja assertivo, de qualidade e eficaz, ele precisa ser planejado. Aqui houve um longo planejamento, com a direção e a coordenação extremamente envolvidas — reforça.

Segundo a engenheira, a experiência teve impacto que vai além do momento do exercício:

— É uma honra ter feito parte desse processo, especialmente por sermos um curso que forma engenheiros e arquitetos. Esses profissionais vão levar esse aprendizado para a sociedade, e gente considera isso de grande relevância. Eles vão sair daqui, talvez, já com um olhar mais atento para a prevenção, porque qualquer edificação de uso coletivo precisa ter esse tipo de atendimento. Além disso, outros prédios da universidade já começaram, a partir desse exemplo, a se organizar para também realizarem simulados. É isso que a gente chama de cultura.


Simulação teve luzes, ventiladores e máquinas de fumaça para tornar a experiência mais realista.Foto: Marina dos Santos (UFSM/Divulgação)


Aprendizado que vai além da sala de aula

Caroline estuda Engenharia Civil na UFSM e participa do Gepesci há cerca de um anoFoto: Vinicius Becker (Diário)


Além da mobilização institucional, o simulado também teve a participação ativa de estudante​s, que ajudaram na organização e na divulgação da ação. Aluna do curso de Engenharia Civil da UFSM, Caroline Matos, de 27 anos, conta que a experiência teve um significado especial por permitir a aplicação prática do que é aprendido em sala de aula.

— Foi muito gratificante. Eu aprendi muito, porque gosto bastante da área de segurança contra incêndio, e participar do simulado foi colocar em prática coisas que a gente aprende na graduação. Como aluna e futura engenheira, isso teve um significado muito grande — relata.

Caroline integrou a equipe responsável pela comunicação do simulado, produzindo materiais informativos e conteúdos para as redes sociais do Gepesci. Segundo ela, o trabalho começou meses antes da realização do exercício e exigiu envolvimento contínuo.

— Eu fiquei responsável pelos cards e pelas publicações no Instagram, além de ajudar na produção de vídeos orientativos para professores e brigadistas. No total, ficamos envolvidos por cerca de seis meses, talvez um pouco mais. É um processo longo, mas muito valioso — explica.

A simulação de evacuação por incêndio realizada no CT foi apresentada na Jornada Acadêmica Integrada (JAI) da UFSMFoto: Vinicius Becker (Diário)


O papel do Gepesci na disseminação da prevenção

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Coordenado por Rogério, o Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Contra Incêndio da UFSM reúne sete professores orientadores e já teve a participação de 20 alunos de graduação, mestrado e doutorado desde sua criação.

O grupo atua nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, desenvolvendo desde disciplinas acadêmicas até simulados computacionais de evacuação, além de projetos voltados à educação básica, como o “Educar para Prevenir”, realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (UFRGS), onde a cultura da prevenção para crianças de educação básica e ensino fundamental através de atividades lúdicas, como jogos de tabuleiro.

O Gepesci também presta apoio técnico em situações reais de emergência e avalia estruturas após sinistros, colaborando com órgãos públicos e equipes de resgate.


Acesse o perfil do grupo aqui.


Você sabe como agir numa situação de emergência?
Fonte: Gepesci 

  • Nunca use o elevador: em caso de incêndio, ele pode trancar se faltar energia. Utilize sempre as escadas de emergência
  • Siga as rotas de fuga indicadas: as placas verdes mostram o melhor caminho para evacuação
  • Se necessário, utilize os equipamentos de emergência: extintores, hidrantes e alarmes de incêndio estão disponíveis para conter pequenos focos e auxiliar na evacuação segura
  • Mantenha a calma e ajude quem precisar: crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida podem precisar de apoio para sair com segurança
  • Dirija-se ao ponto de encontro seguro: após evacuar, vá para o local designado e aguarde as instruções das equipes de emergência. Nunca volte para buscar objetos.


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