Comunidade caingangue passa a ter turma de escola indígena na antiga Fepagro

Comunidade caingangue passa a ter turma de escola indígena na antiga Fepagro

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Desenhos colados nas paredes, giz de cera espalhado sobre as mesas, brinquedos pedagógicos e um quadro verde transformaram a rotina na área da antiga Fepagro, no distrito de Boca do Monte. Cerca de um ano após a ocupação, a comunidade caingangue passou a contar com uma turma descentralizada de escola indígena, que atende sete crianças da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental.


+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp

As aulas começaram em 29 de junho e atendem uma das principais reivindicações das famílias desde o início da ocupação. Embora a chegada da professora seja comemorada, a estrutura atual é considerada provisória pelo cacique da comunidade, Erni Amaro, 40 anos, que projeta melhorias para o futuro da unidade:

Cacique da comunidade, Erni Amaro, 40 anosFoto: Vinicius Becker (Diário)

As crianças sempre tiveram vontade de ter uma professora e aprender. Estamos muito felizes por isso e agora é só correr atrás, para que, no futuro, possamos conseguir uma escola que atenda os alunos com professores, diretora, secretário. O tempo vai dizer quando vamos conseguir toda essa estrutura. 


“Faltam condições adequadas”

Essa sensação de insuficiência é compartilhada pelo advogado da comunidade indígena, Gabriel Soares. Ele pontua que, embora a garantia do direito à educação seja um avanço significativo, o funcionamento no local ainda ocorre de forma improvisada:

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A estrutura ainda é emergencial e insuficiente. Faltam condições adequadas de funcionamento, como materiais, cozinha, merenda e saneamento. A posição da comunidade é aceitar uma solução imediata para que as crianças não fiquem sem aula, mas sem de forma alguma naturalizar a precariedade.

Soares destaca que a comunidade e o Ministério Público Federal (MPF) têm cobrado um plano operacional detalhado por parte do Estado. Em paralelo, uma mediação caminha no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) sobre a proposta do Estado em destinar provisoriamente 15 hectares à comunidade, dentro do perímetro maior de 570 hectares do Centro de Pesquisa Florestal (Ceflor/Fepagro).

A comunidade pediu o adiamento de uma reunião com a Comissão de Soluções Fundiárias do tribunal para avaliar melhor o cenário, mantendo a intenção de permanecer na área atual. Segundo a defesa, a análise de qualquer alternativa territorial envolve diretamente as condições de moradia, viabilidade de infraestrutura e a consolidação da própria escola pública indígena.

Foto: Vitória Sarturi (Diário)


O que diz o Estado

Procurado, o governo do Estado informou que a área atingida abriga um Centro Estadual de Pesquisa vinculado à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), ocupado desde o ano passado. A Procuradoria-Geral do Estado (PGE-RS) acompanha o andamento da ação judicial, que é tratada em mesa de conciliação para a busca de uma solução consensual.

Em nota, o Executivo reforçou que vem adotando medidas emergenciais para assegurar o direito constitucional à educação das crianças do local. O texto cita que a 8ª Coordenadoria Regional de Educação (8ª CRE) realiza o monitoramento das ações na área, efetuou a contratação do corpo docente para os anos iniciais e forneceu os primeiros conjuntos de mobiliário escolar, além de realizar visitas periódicas de acompanhamento pedagógico.


O que diz a 8ª CRE

O coordenador regional da 8ª CRE, José Luis Viera Eggres, detalhou ao Diário as providências administrativas que permitiram a abertura da turma e explicou que as melhorias físicas no prédio histórico da Fepagro ocorrerão de maneira gradual, respeitando os trâmites legais do Estado. 

– É certo que é um prédio que está atendendo em caráter precário e transitório, mas providenciamos a professora e o mobiliário. Estamos liberando recursos para fechar o espaço da sala de aula e estruturar a cozinha. O Estado está tomando todas as providências pedagógicas que são de nossa responsabilidade – pontuou Eggres. 


Ocupação

A área da Fepagro foi ocupada em 15 de agosto de 2025 por famílias da etnia caingangue, que reivindicam um território para viver de forma permanente. Desde o início da retomada, o número de famílias se manteve estável. Atualmente, cerca de 32 pessoas seguem no local, instaladas principalmente em um antigo galpão de eventos da extinta fundação.

Foto: Vitória Sarturi (Diário)

Segundo a defesa da comunidade indígena, o processo permanece em tramitação após o Estado não indicar, dentro do prazo acordado em audiência anterior, uma área alternativa de cerca de 15 hectares para o reassentamento do grupo.

A defesa acrescenta que, até o momento, a comunidade segue amparada por decisões judiciais que garantem o acesso a serviços básicos, como água e energia elétrica, com apoio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), além de doações de apoiadores.

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

POR

Vitória Sarturi

Comunidade caingangue passa a ter turma de escola indígena na antiga Fepagro Anterior

Comunidade caingangue passa a ter turma de escola indígena na antiga Fepagro

Com previsão de temporais e calor de 30°C, Santa Maria pode ter até 100 mm de chuva nos próximos dias Próximo

Com previsão de temporais e calor de 30°C, Santa Maria pode ter até 100 mm de chuva nos próximos dias

Geral