Foto: José Cruz/Agência Brasil
A suspensão temporária de atendimentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no fim de janeiro, em razão de uma atualização de sistemas, reacendeu o debate sobre problemas estruturais históricos do órgão.
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Em entrevista, Daniel Emmanuel, diretor do Sindicato dos Trabalhadores Federais em Saúde, Trabalho e Previdência Social no Rio Grande do Sul (Sindisprev-RS) e da Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps), afirma que a manutenção atual evidencia falhas recorrentes de tecnologia, déficit de servidores e desinvestimento continuado, fatores que impactam diretamente o acesso da população a benefícios previdenciários.
Segundo Emmanuel, o INSS opera, desde a década de 1990, com um sistema de base de dados que passou por poucas atualizações ao longo do tempo. A mudança em curso visa a troca dessa base, mas ocorre em um contexto em que a indisponibilidade dos sistemas já é frequente.
– Os sistemas ficam inoperantes praticamente o tempo todo. Não é um problema pontual desta manutenção – afirmou.
Sistemas defasados e dificuldade de acesso

De acordo com a categoria, a instabilidade tecnológica compromete tanto os canais digitais – como o Meu INSS e a central telefônica 135 – quanto o atendimento presencial nas agências. O dirigente destaca que a dificuldade é agravada pelo perfil do público atendido, majoritariamente composto por pessoas com menor familiaridade com ferramentas digitais.
– A grande aposta dos governos foi substituir a falta de servidores pelo autoatendimento informatizado. Mas, com sistemas instáveis e uma população que tem dificuldade de acesso digital, isso se torna inviável – disse o presidente.
Fila de espera e redução no quadro funcional

Dados citados pelo Sindiprev-RS apontam que cerca de 3 milhões de pessoas aguardam atualmente atendimento ou análise de benefícios no INSS, como aposentadorias e auxílios por incapacidade. O sindicato relaciona o volume represado à redução do quadro funcional. Até 2016 e 2017, o instituto contava com aproximadamente 40 mil servidores em todo o país; atualmente, são menos de 20 mil.
– A indisponibilidade dos sistemas e a falta de servidores são as principais causas dessa fila, que não diminui, só cresce, afirmou Emmanuel.
Apesar de alertas feitos ao longo de diferentes governos, inclusive pelo próprio INSS e pelo Ministério da Previdência, o sindicato afirma que não houve autorização para recompor a força de trabalho.
Home office, infraestrutura precária e investimento
O trabalho remoto foi ampliado durante a pandemia da Covid-19, mas, segundo o sindicato, a estratégia já vinha sendo discutida antes como alternativa à falta de servidores. Com o fim da emergência sanitária, o atendimento presencial não foi plenamente retomado. Em maio de 2025, cerca de 70% das aproximadamente 1,5 mil agências do país operavam sem atendimento regular ao público, cenário que, conforme a entidade, permanece em 2026.
Emmanuel explica que boa parte dos servidores em home office atua na análise e concessão de benefícios. Para ele, um retorno integral ao atendimento presencial, sem planejamento, poderia gerar novos gargalos.
– Se essas pessoas voltarem às agências sem uma estratégia, haverá atendimento presencial, mas não haverá quem analise os pedidos. O que falta é gente para atender e para analisar benefícios – resumiu.
Além da falta de pessoal, o dirigente aponta problemas estruturais nas agências, como prédios com infiltrações e rachaduras, equipamentos obsoletos e número insuficiente de computadores. Segundo ele, há unidades em que servidores improvisam a manutenção de máquinas antigas para manter o funcionamento mínimo.
– A retomada do atendimento presencial depende não apenas de servidores, mas de investimento em infraestrutura e tecnologia, afirmou.
O sindicato lembra que órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério Público Federal (MPF) alertam, desde 2016, para o risco de colapso do INSS, sem que medidas estruturais tenham sido efetivamente adotadas.
Pagamentos e orientação aos segurados
De acordo com o Sindicato, a atualização dos sistemas não deve afetar o pagamento dos benefícios já concedidos. A principal preocupação, afirma, está na retomada do funcionamento do sistema e nos impactos sobre a análise e concessão de novos pedidos.
Embate com o deputado Paulo Pimenta
A situação do INSS também gerou divergências públicas entre o Sindiprev-RS e o deputado federal Paulo Pimenta (PT). Em entrevista ao programa Bom Dia, Cidade!, da Rádio 93.5, na segunda-feira, Pimenta comentou o cenário envolvendo fraudes no instituto, as longas filas de espera e o modelo de trabalho remoto adotado pelo órgão. O parlamentar classificou o quadro como crítico e fez duras críticas ao atendimento prestado à população
– Eu acho que é insustentável essa situação do INSS – afirmou.
Na entrevista, Pimenta disse ainda que iria verificar a informação de que cerca de 70% dos servidores do INSS estariam atuando em regime de home office desde a pandemia.
– Se isso é verdade, eu vou ser o primeiro a cobrar do presidente do INSS. Não é porque eu sou do governo que eu vou passar a mão por cima disso – declarou.
O Sindiprev-RS, no entanto, contesta a fala do deputado e afirma que o modelo de trabalho remoto não surgiu apenas como resposta à pandemia. Segundo o sindicato, já havia, antes de 2020, um planejamento governamental para ampliar o home office e o trabalho por metas como forma de contornar a falta de servidores no instituto.
– Desde antes da pandemia já havia um planejamento por parte do governo para colocar servidores em home office como forma de tentar sanar a falta de pessoal. Esse não é um problema novo e já foi levado ao deputado Paulo Pimenta ainda na transição do governo – rebateu Emmanuel.
De acordo com o sindicato, as entidades representativas alertaram Pimenta, o Ministério da Previdência, o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos e a presidência do INSS sobre os problemas estruturais do órgão, como sistemas instáveis, déficit de servidores e precariedade das agências. O dirigente sindical lembra que, em 2024, a categoria realizou uma greve nacional cujo foco não foi salarial, mas a melhoria das condições de trabalho e de atendimento à população:
– Nós denunciamos essa situação de caos há muito tempo e não vemos medidas concretas por parte do governo para resolver os problemas estruturais do INSS.
Para o Sindiprev-RS, sem investimento consistente, recomposição do quadro funcional e modernização da infraestrutura, o instituto seguirá enfrentando dificuldades que impactam diretamente milhões de segurados em todo o país.
A reportagem entrou em contato com o INSS para solicitar posicionamento oficial, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.