Menos interessados, mas ainda mobilizados: como Santa Maria vive o clima da Copa do Mundo de 2026

Menos interessados, mas ainda mobilizados: como Santa Maria vive o clima da Copa do Mundo de 2026

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Faltavam poucos minutos para o início da partida entre México e África do Sul, jogo que abriu oficialmente a Copa do Mundo de 2026. No hall do Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), estudantes arrastavam cadeiras para frente de uma televisão instalada especialmente para a competição

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O espaço havia sido transformado para receber o torneio: fitas verde e amarelas decoravam o ambiente, bolas de futebol infláveis pendiam do teto e um tapete verde com marcações brancas simulava um gramado. A cada gol mexicano, os estudantes vibravam como se estivessem diante de uma partida da seleção brasileira.

A cena observada na universidade parece contrastar com os resultados de pesquisas nacionais divulgadas nos últimos meses. Enquanto levantamentos apontam queda no interesse dos brasileiros pela Copa do Mundo, o clima do torneio já pode ser percebido em diferentes pontos de Santa Maria. Seja na sútil decoração espalhada pela cidade, nos bolões inevitáveis ou naquela figurinha que falta para completar o álbum.


Menos interesse, mais dúvidas sobre a Seleção

Levantamento realizado pelo Instituto Datafolha em abril mostrou que 54% dos brasileiros afirmam não ter interesse pela Copa do Mundo de 2026, o que implica que outros 45% declararam possuir algum grau de interesse pela competição.

O índice de desinteresse é o maior da série histórica da pesquisa, iniciada em 1994, quando o resultado foi o completo oposto: grande interesse da maioria, com porcentagem de 56%. Coincidência ou não, foi justamente o ano em que o Brasil sagrou-se tetracampeão nos Estados Unidos.

A pesquisa também identificou uma redução do otimismo em relação ao desempenho da seleção brasileira. Apenas 29% dos entrevistados acreditavam, em abril, que o Brasil conquistaria o hexacampeonato mundial, também o menor percentual registrado pelo instituto desde o início da série histórica.

Os números sugerem uma mudança na relação dos brasileiros com o futebol e com a própria Seleção. Se em abril predominava a desconfiança, a proximidade do torneio parece ter reacendido parte do entusiasmo nacional.


A esperança voltou a crescer

Divulgada no dia da estreia da Copa do Mundo, uma pesquisa da Quaest apontou crescimento da confiança dos brasileiros na conquista do hexa. Entre os dias 5 e 8 de junho, 35% dos entrevistados afirmaram acreditar no título mundial, dez pontos percentuais acima do registrado pela própria pesquisa em abril.

Apesar da melhora, a maioria ainda se mostra desconfiada. Segundo o levantamento, 56% dos brasileiros não acreditam que a Seleção Brasileira conquistará a Copa do Mundo de 2026.

Entre os recortes regionais, exatamente o Sul aparece como a região mais pessimista do país. Apenas 26% dos entrevistados da região acreditam no título brasileiro, enquanto 64% não veem a conquista do hexacampeonato como provável.

Mas será que essa percepção também se reflete em Santa Maria?


Santa Maria acredita no Hexa?

Para descobrir a resposta, a reportagem do Diário se dividiu em dois pontos opostos da cidade. Em ambos os locais, as opiniões se dividem em três perfis claros: os otimistas, os torcedores céticos e quem enxerga a Copa do Mundo como momento de integração.

Entre aqueles que acompanharão, mas não acreditam no título brasileiro, está o personal trainer Rayan Rosa, 31 anos. Ele afirma que hoje acompanha menos futebol do que em outros períodos da vida, principalmente em função da rotina de trabalho. Ainda assim, garante que vai torcer pela Seleção.

– Já acompanhei mais, mas pelo fato da profissão hoje acompanho pouco. Acho que a seleção não vai muito para frente, mas vou torcer e acompanhar. Acho que chega até uma semifinal – projeta.

O vendedor Júlio César Oliveira Júnior, de 27 anos, também demonstra uma mistura de torcida e cautela:

– Não acompanhava muito futebol, mas comecei a acompanhar mais por causa dos colegas da loja. Vamos fazer um bolão. Eu apostei na França, mas acho que o Brasil vai mais longe do que nas últimas Copas.

Já para o otimista empresário Elton Lemos Gomes, de 56 anos, o sentimento é de confiança.

– Eu acho que dessa vez nós vamos trazer o caneco – idealiza.

A mesma expectativa é compartilhada pelo agente de portaria Rubens da Rosa, de 65 anos:

– Vamos acompanhar. Já assisti ao jogo de abertura e acredito que o Brasil vai emplacar. Vamos levantar o hexa!

É entre os universitários que o megaevento esportivo aparece muitas vezes associado menos ao futebol e mais ao aspecto social da Copa do Mundo.

O estudante de Relações Públicas Lucas Felice, 21 anos, afirmou que já está organizando onde assistirá aos jogos.

Já começamos a procurar bares e lugares para acompanhar a Copa, especialmente quando o Brasil jogar – conta.

Para a estudante de Jornalismo Kethelyn Rodrigues, 22 anos, a força do torneio vai além das quatro linhas.

– Mesmo pessoas que não acompanham futebol acabam assistindo. Acho que a Copa é um momento muito único que junta muitas pessoas – explica.

A percepção é semelhante à da estudante de Relações Internacionais Renata Silveira, 19 anos:

Vou assistir mais pela questão cultural do que pelo futebol em si.

Já o colega de curso Vinícius de Oliveira, 19 anos demonstra um entusiasmo típico dos períodos de Mundial.

– Lá na minha casa a cultura do futebol é muito grande. Vamos assistir todos os jogos da Copa juntos. Todos mesmo. Terça-feira, por exemplo, já tem jogo da França e nos programamos para assistir. Estamos bem animados, torcendo muito para o Brasil. Eu estou cheio de bandeirinha lá em casa também. Tenho uma esperança no Brasil. Ainda tenho – declara.

Enquanto isso, a formada em Psicologia e mestranda em saúde coletiva na UFSM, Caroline Ferreira, 28 anos, é o retrato perfeito do brasileiro que mantém o vínculo afetivo com a Seleção mesmo sem plena confiança no desempenho dentro de campo:

– Pretendo assistir todos os jogos que eu conseguir, ou escutar pela rádio. Olha, eu torço mais do que o Brasil está merecendo, mas acho que vai longe sim.

Por fim, o estudante e feirante, Marcos Machado, demonstra que, apesar de muitas pessoas se comoverem com a chegada da Copa, alguns ainda permanecem como a maioria do levantamento: desinteressados. Em seu caso, por conta de outro evento esportivo simultâneo considerado mais importante.

– Eu não vou acompanhar muito a Copa do Mundo esse ano, vou ficar mais torcendo pela Seleção do vôlei, na VNL (Liga das Nações de Vôlei) feminina e masculina – confessa.


A Copa como experiência coletiva

A busca por um ponto de encontro para assistir aos jogos ou a persistência em decorar a casa com bandeirinhas encontra explicação na psicologia. Mais do que um evento esportivo, o Mundial atua como um catalisador de relações humanas. De acordo com a psicóloga Rita Rosa, que atua na perspectiva sistêmica, a Copa do Mundo funciona como um importante ritual familiar.

– Quando uma família se reúne para assistir à Copa, decorar a casa ou trocar figurinhas, mais do que acompanhar um evento esportivo, ela está fortalecendo vínculos, reafirmando pertencimentos e construindo narrativas compartilhadas – explica Rita.

Segundo a profissional, essa torcida coletiva cria uma experiência de "nós", promovendo a transmissão de valores entre as gerações e fortalecendo a identidade do grupo através da memória afetiva. Em um contexto em que as relações cotidianas se tornam cada vez mais voláteis, o torneio se transforma em um pretexto para a profundidade:

– O futebol torna-se apenas o contexto; o que realmente está sendo construído são relações, significados e sentimentos de pertencimento – aponta.


Transformação cultural e o peso do passado

Se por um lado o evento ainda conecta pessoas, o desinteresse também reflete uma mudança estrutural na sociedade. A psicóloga Graziela Miolo aponta que o distanciamento do torneio pode representar um afastamento da própria cultura brasileira, alimentado por frustrações históricas, como o 7 a 1, e pelo fato de a maioria dos convocados atuar no exterior.

Além disso, ela destaca que as configurações de convivência mudaram, especialmente após a pandemia, priorizando o ambiente digital.

– Hoje se privilegia muito mais o estar virtualmente junto do que necessariamente presente. A festa que a Copa era, com encontros de bairro e de vizinhos, hoje é rara porque esses momentos fora da Copa também já são raros. A nossa cultura atual não privilegia tanto a experiência presente, e sim uma experiência de mais afastamento. Não necessariamente é pior do que antes, mas é diferente – conclui Graziela.


Desinteresse em campo, febre nas bancas

Enquanto as análises apontam para rituais modificados pelo distanciamento e pela virtualidade, um fenômeno específico na cidade caminha na direção oposta e sugere que o desejo de convivência resiste: o álbum oficial de figurinhas.

Muito antes de a bola rolar, a febre dos cromos colecionáveis disparou. Segundo levantamento realizado pelo iFood com base em dados do Google Brasil, as buscas pelo termo "álbum da Copa 2026" cresceram mais de 10.900% entre abril de 2025 e março de 2026. No período, foram registradas mais de 868 mil pesquisas relacionadas ao tema, posicionando o Rio Grande do Sul como o quinto estado brasileiro mais engajado na atividade, atrás apenas do Distrito Federal, São Paulo, Santa Catarina e Paraná.

Os números nacionais de mercado ajudam a dimensionar a engrenagem por trás do hábito. A loja oficial da Panini dentro do aplicativo iFood vendeu mais de 3,85 milhões de itens nos primeiros quinze dias da campanha de 2026 – um volume quinze vezes superior ao registrado em toda a campanha do Mundial do Catar, em 2022. Dados do Google Trends confirmam a tendência, apontando que a coleção atual gerou 41% mais interesse entre os brasileiros do que a edição anterior.

Toda essa estatística de consumo ganha vida nos mais diversos locais de Santa Maria. Postos de combustíveis, farmácias, mercados e papelarias viraram pontos de referência, mas é na tradicional banca de revistas do Trevicenter que o movimento se consolida. Escolha um dia da semana. Qualquer um pouco depois das 18h. Lá estarão dezenas de pessoas de diferentes idades e origens se reunindo no local, sempre com a presença do ilustre colecionador Seu Ferraz. Ali, o fluxo é intenso o suficiente para esgotar estoques e exigir reposições frequentes de pacotes.

Nesses encontros, o objetivo principal deixa de ser o preenchimento das páginas numeradas. Entre a negociação de um cromo raro e a troca de uma pilha de repetidas, o álbum se transformou em uma curiosa ferramenta de sociabilidade física da atualidade. Diante de uma população hiperconectada e de torcedores céticos com o desempenho da Seleção em campo, as trocas de figurinha provam que o pretexto de colecionar ainda é capaz de resgatar o poder de união de uma Copa do Mundo.


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