Saúde: a grande porta de acesso

Rafael Pagnon Cunha

Ana é mãe de seis. Abdicou da carreira em prol dos cuidados com os filhos. Marido provedor, chegava cansado, divisão nenhuma nos cuidados com a prole comum. Qual ocorre com quem se estabelece no Coração do Rio Grande, as crianças apresentavam problemas respiratórios. A ida ao pronto-atendimento era semanal. Diagnósticos por vezes fáceis; noutros, diagnoses difíceis. Toda semana, entretanto, Ana lá estava. Criou vínculos com as profissionais que atendiam sua família. Até uma delas estranhar que as detecções clínicas dos problemas dos filhos rarearam – não obstante a família para o PA retornasse religiosamente. Atendeu seus instintos. Decidiu mudar o olhar. Incrementou o diálogo com Ana. A anamnese ampliou-se para a mãe. E o que era invisível saiu das trevas da vergonha e do medo: quem buscava auxílio era a genitora. Anos de sofrimento silencioso pode ser finalmente verbalizado. O quadro de controle e domínio instalado por seu marido desvelou-se. Adoecida estava a relação. De modo sofrido, descortinada a fotografia de violência psicológica experimentada por essa mulher ao longo dos anos. Encaminhada a acolhimento por psicóloga, recebeu o apoio que, via seus filhos, fora buscar. Reforçou-se. Encaminhada ao Centro de Referência da Mulher, construiu condições pessoais para solicitar – e receber – medidas protetivas e dar um basta ao relacionamento abusivo. Histórias como essa são escutadas com frequência por quem trabalha no acolhimento das vítimas.

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Instituições de saúde, há muito tempo, constituem a grande porta de acesso a cuidados de mulheres vítimas de violência doméstica. Em razão do sigilo que a relação médico-paciente impõe, tais ações de cuidado pouco aparecem. Mas estão presentes no dia-a-dia de hospitais, unidades básicas de saúde e pronto-atendimentos. Não raro, mais que uma importante porta: a única porta. O sistema de segurança pública e distribuição de justiça jamais protegerá todas as vítimas de violência doméstica sozinho. Amiúde, ao sistema legal não acorrem as vítimas. Buscam auxílio junto à saúde. E dali retornam a suas casas - antes de lares, cárceres e catacumbas para tantas. Seja porque silenciadas em um cotidiano de medo. Seja porque não se percebem aprisionadas em uma relação abusiva. E este é o cotidiano da violência doméstica: mulheres que não se reconhecem vítimas. Pois que naturalizado o abuso que sofrem. Porquanto aprenderam com seus pais que homens violentos ‘‘cuidam’’ de suas parceiras. Porque culturalmente aceito o domínio do masculino sobre o feminino em sua comunidade. A sensibilidade de quem atende e acolhe essas mulheres, nos serviços de saúde, pode ser o (quiçá único) canal de escape de relações abusivas e deploráveis. Os sinais ali estarão. Compreensão e abertura ao não-dito são sempre necessárias.

Se o investimento na educação de meninos e meninas, com alfabetização de gênero e emoções, é fundamental ao amanhã, o – cada vez maior – engajamento dos profissionais da saúde no combate à violência contra as mulheres é vital hoje.

E como operacionalizar? Sempre com acolhimento empático. Sem julgamentos morais. Sem questionar o porquê da demora em sair da relação. Sem responsabilização de vítimas. Compreendendo que ninguém permanece em um relacionamento doloroso, sofrido, por opção. Sofrer nunca é uma escolha. Padecer em um vínculo afetivo jamais é predileção. Parar de sangrar em relacionamentos atrai cuidados singulares. Cuidados físicos. Cuidados psíquicos. Intervir é sempre desejável. Meter a colher, um imperativo moral. Pois violência doméstica não se resume a problemas individuais. É uma chaga coletiva. Que somente será enfrentada eficazmente com trabalho igualmente compartilhado. O braço da segurança pública, sozinho, não conseguirá abraçar todas as vítimas. Sem as Equipes de Saúde, os esforços de proteção às vítimas jamais serão completos. Estamos todos na mesma trincheira.

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