Os tempos pós-modernos tem apresentado fenômeno que nos faz pensar: o aumento relevante no número de divórcios entre casais com mais de 50 anos. A isso tem-se nominado divórcio prateado. Noticiam-se cifras próximas, hoje, a 30% do total de fim de relações – algumas cultivadas há 20, 30 anos. Em 2010, seriam 10%.
Sua compreensão passa por diversos fatores. O primeiro é a longevidade que a medicina moderna nos promete. Vidas que se aproximem ou ultrapassem um século seriam horizonte alcançável a muitos de nós. Ora, a quem já venceu a casa dos 50 anos divisar sobrevida de outras quatro ou cinco décadas faz repensar planos e projetos. Persistir em uma relação infeliz não parece hipótese admissível nesse cenário.
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A independência financeira das mulheres, ainda que tardia, da mesma forma propicia escolhas antes impossíveis. Para quem lida diariamente com violência doméstica, construiu-se a certeza de que não existe liberdade de mulher alguma sem a capacidade de gerir suas próprias contas e despesas. Autonomia e liberdade estão indissoluvelmente ligadas a liberdade financeira. Se era impensável a nossas avós caminhar com suas próprias pernas, hoje as mulheres não mais dependem financeiramente dos homens. Só assim podem escolher livremente. Inclusive sair de relações melancólicas.
Os desdobramentos de um ninho vazio, da mesma forma, são relevantes. A saída dos filhos do lar, no processo natural de descolamento dos genitores – para o qual todos formamos e forjamos a prole – , expõe muitas vezes a desconexão entre o casal. Bons na performance da parentalidade, vêem-se afastados enquanto par. Um acomodou-se nos programas caseiros, e o outro quer conhecer o mundo. Desempenhado o script social de pais, esvaziados os sonhos e projetos de casal. Com filhos fora de casa, esvai-se a justificativa de permanência em uma relação insatisfatória. Há muito, em sala de audiências, pronuncio às mulheres: filhos não são desculpa para a infelicidade de ninguém.
Pois os divórcios grisalhos vêm a seu tempo. Não a destempo. A bom tempo. Precisamos abandonar o mito da busca da metade da laranja. Que ninguém se contente em ser meio. Devemos ser inteiros. O amor pode ser um plus em nossas vidas. Não o pré-requisito da felicidade. Fundamental possamos aprender a nutrirmo-nos em diversas fontes afetivas. A fonte do amor romântico (namorado e namorada, esposo e esposa) não pode ser exclusiva. Assim como os filhos não podem constituir nosso único nascedouro de afetos. Família ampliada. Amigos e amigas. Hobbies. Trabalho. Diversas fontes de afetos, prazeres e amores. Assim restam as vidas enriquecidas. E plenas.
As promessas da ciência de vida longa, próxima dos cem anos, reconstrói não só nosso futuro. Refunda nosso presente. Filhos não mais são desculpas a sustentar uma união miserável. Envelhecer sozinho não pode ser um medo paralisante – pois, cercado de afetos múltiplos, jamais estaremos solitários. Reinaugurar a vida, olhos postos na felicidade, é uma obrigação. Ninguém tem maior compromisso com uma existência plena e feliz que a gente mesmo. Recomeços são sempre possíveis. E urgentes. O amor não pode ser uma bolsa de valores, com investimentos a longo prazo. Precisamos colher seus frutos hoje. Os divórcios prateados podem ser o primeiro capítulo de uma nova história de vida. E o fim das desculpas.