Prestes a completar duas semanas do assassinato de Luanne Garcez da Silva, muitas respostas são aguardadas pela família e amigas da vítima, bem como pelas mulheres que se sensibilizaram e foram envolvidas pela dor que um feminicídio causa em toda comunidade. A jovem de 27 anos foi morta por asfixia no dia 10 de abril. O autor confesso do crime foi o noivo da vítima, o estudante de Direito Anderson Ritzel, 26 anos.
A conclusão do inquérito que investiga o caso estava prevista inicialmente para o dia 19. Entretanto, em razão da complexidade do caso, o prazo para conclusão do inquérito foi prorrogado para o dia 28 de abril. Familiares da vítima e do suspeito já prestaram depoimento.
- Hoje já temos um panorama bem informado sobre o que aconteceu. Optei antes por não me manifestar porque o autor levantou a possibilidade de ter sido vítima de um latrocínio (roubo com morte) - afirma a delegada Elizabete Shimomura, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e responsável pelas investigações.
O DIA DO CRIME
Segundo os depoimentos, o casal teria tido um dia tranquilo. Pela noite, os dois teriam ido celebrar o aniversário de Luanne, que havia completado 27 anos no dia 5, e de sua irmã Luciana, que completou 18 anos no dia 18. A confraternização teria ocorrido em uma janta na residência do pai das jovens em Itaara. Familiares de Ritzel relataram à policia que ele não teria manifestado sinais de surto ou qualquer outro tipo de comportamento adverso.
Na volta para a cidade, o estudante e Luanne teriam parado em um local conhecido pelos jovens como "nave", na Rua Luíz Mallo, no Bairro Itararé. As investigações apontam que, por conta de oferecer uma vista atrativa da cidade, vários casais costumam ir de carro a esse local. Desta forma, a ida do casal até a localidade não teria levantado suspeitas.
Após uma suposta crise de ciúmes em que afirmava estar sendo traído, o jovem estrangulou a vítima em via pública. Duas câmeras particulares, de uma residência próxima ao local do crime, registraram o ocorrido e serviram de apoio às investigações. Testemunhas escutaram Luanne pedir socorro e dizer que seria morta, e também teriam visto o autor do crime saindo de trás do carro da vítima, um Fox, com a sua bolsa, e voltando sem a mesma. As investigações apontam que Ritzel teria tentado se desfazer da bolsa da vítima para simular um latrocínio. Nessa alegação, o suspeito informou que duas pessoas em um carro teriam matado Luanne.
- O ato em si, do homicídio, não foi flagrado pelas câmeras por ter ocorrido atrás do veículo da vítima, mas os acontecimentos posteriores foram registrados - afirma a delegada Shimomura.
Familiares e amigos se reúnem em ato por justiça pela morte de Luanne
SIMULAÇÃO
Numa tentativa de desvincular a sua imagem com a cena do crime, o estudante também teria sido visto simulando o que a delegada descreveu como "trejeitos de travesti". Ele teria parado com a bolsa da vítima em uma esquina próxima do local do crime.
- Quando percebeu que foi avistado por vizinhos, ele tentou simular trejeitos de travesti - conta a delegada Shimomura.
Depois disso, tentou reanimar Luanne com massagem cardíaca e acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Quando o socorro chegou, a jovem já estava morta.
FAMÍLIA AFIRMA À POLÍCIA QUE ESTUDANTE FAZ TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO
Quando o Anderson Ritzel foi autuado, na noite do crime, seus familiares reuniram documentos médicos que tratavam sobre o seu quadro psiquiátrico para apresentar na delegacia. A família é de São José (SC), onde o jovem morava antes de vir estudar em Santa Maria.
Segundo esses documentos, ele seria esquizofrênico, fazia uso de medicamentos e mantinha-se sob acompanhamento psiquiátrico. Porém, segundo a delegada Elizabete Shimomura, as investigações apontam que o suspeito estaria medicado e que seu discernimento não estava alterado quando cometeu o crime. Não há registros formais na investigação que apontem ele estaria sob efeito de drogas.
Pessoas próximas de Ritzel afirmam que o estudante já vinha, nas semanas anteriores ao crime, manifestando ideações sobre estar sendo traído por Luanne. A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Anderson Ritzel. A Polícia Civil também informou que, até o momento, a defesa do suspeito ainda não se manifestou em relação às investigações.
O estudante está preso desde o dia do crime.
LUANNE COMBATIA A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
A paixão pela educação sempre esteve com Luanne. Ela estudava Pedagogia na Universidade Federal de Santa Maria, a exemplo da mãe e da irmã, Halana, que também são professoras.
- A Luanne era uma jovem muito feliz, era muito intensa, vivia tudo com muita emoção e se entregava completamente a tudo o que ela fazia - afirma Halana Garcez, a irmã mais velha de Luanne.
Segundo Halana, Luanne sempre foi envolvida nas questões feministas e de combate à violência contra a mulher. Um ato por justiça foi organizado por familiares e amigos no dia 16 de abril, onde Luanne foi lembrada com muito carinho por aqueles que estavam presentes.
O corpo de Luanne passou por necropsia, foi velada no Memorial São Martinho, em Camobi, e sepultada em Itaara. O namoro dela com Anderson teria começado em janeiro deste ano, e o noivado foi em 24 de março.
Em nota, a Direção do Centro de Educação, o Curso de Pedagogia Diurno e a comunidade do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria, "lamentam imensamente o falecimento da aluna Luanne Garcez da Silva, discente do Curso de Pedagogia. Neste momento de perda e de dor, transmitimos os nossos sentimentos aos familiares, amigos e colegas."
Luanne era prima de uma sobrevivente da tragédia da boate Kiss. A página no facebook "Kiss: que não se repita" também publicou nota lamentando a morte da jovem: "A equipe do coletivo KQNSR se solidariza com os familiares e amigos de Luanne nesse momento de dor, comprometendo-se na luta por Justiça neste caso de FEMINICÍDIO ocorrido hoje, em Santa Maria - RS".
A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Anderson Ritzel. A Polícia Civil também informou que a defesa do suspeito não havia se manifestado até o momento.