Fotos: Vinicius Becker
O debate sobre o fim da violência doméstica ganhou uma nova perspectiva na última quinta-feira (23), durante uma edição especial do programa Jogo de Cintura. Inspirada pelas páginas do livro “Ninguém Nasce Sabendo se Relacionar”, do psicólogo Thomas Schultz, a conversa buscou responder a uma pergunta complexa: “O abusador/agressor pode mudar?”. O questionamento serviu como fio condutor para especialistas analisarem se existe um caminho de volta e de reabilitação para quem comete crimes contra a mulher.
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Para analisar o tema, a jornalista Fabiana Sparremberger reuniu um time multidisciplinar: a advogada Eliz Tatsch, integrante do Fórum de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres; o advogado criminalista e professor universitário Leonardo Santiago; a psicóloga Vera Heringer, especialista em violência doméstica; e o psicólogo clínico Cesar Bridi, do Ambulatório Transcender (voltado à população LGBT.
Reconhecer o erro
A crença na mudança é o que move os profissionais que atuam na ponta do sistema, mas ela não é simples. Para Eliz Tatsch, que participou da implementação do primeiro grupo reflexivo para homens em Santa Maria, junto ao Juizado da Violência Doméstica, a transformação só ocorre através da consciência:
– Eu acredito que (o agressor) muda, mas ele tem que entender que aquilo está errado. Se eu não acreditar na mudança, meu trabalho vai ser enxugar gelo.
No mesmo sentido, Vera Heringer, que integrou a equipe técnica da Casa Abrigo para Mulheres em Santa Maria, destaca que a mudança passa pela compreensão da origem da agressividade.
– Existem homens que mantêm aquela violência porque ninguém nunca disse para eles: "cara, isso está errado". Temos que entender de onde vem essa violência e fazer com que eles compreendam isso.

Os perfis do agressor
Durante o debate, Cesar Bridi explicou que, clinicamente, os abusadores podem ser divididos em três grandes grupos: os oportunistas, que aproveitam situações de vulnerabilidade (comum em abusos intrafamiliares); os que possuem uma fixação específica (como a pedofilia); e os coercitivos, que sentem prazer no sofrimento alheio.
Essa última categoria foi reforçada também pela psicóloga Vera Heringer, que mencionou o perfil "patológico": casos de homens que agridem especificamente para extrair prazer do pânico da mulher. Sobre a viabilidade de transformação desses indivíduos, Bridi diferencia a essência da atitude:
– Não muda [a condição clínica], mas as atitudes mudam. Eu posso passar o resto de uma vida sem reincidir. A condição do abuso do masculino é muito forte, a tal ponto que a maior parte dos homens nem se acha machista, mesmo sendo.
Punir é o suficiente?
O advogado Leonardo Santiago trouxe uma crítica contundente à ideia de que o encarceramento, isoladamente, resolva o problema. Para ele, o Direito Penal costuma chegar "atrasado" e pode devolver à sociedade um indivíduo ainda mais violento.
– Nós confiamos muito que a cadeia resolve. O Direito Penal, sozinho, não resolve nada. Ele chega a piorar as situações. O grande avanço da Lei Maria da Penha foi trazer medidas para evitar – analisou Santiago.
O professor ressalta que o agressor geralmente está inserido em um contexto cultural onde a violência foi naturalizada. Nesse cenário, o papel dos grupos reflexivos — método criado há 15 anos pela juíza Madgely Frantz Machado – torna-se essencial para que o homem seja ouvido e confrontado com a origem de seu comportamento antes que o ciclo se torne fatal.

O caminho
A discussão também tocou na necessidade de as mulheres identificarem padrões de codependência para romperem ciclos repetitivos de abusos. Eliz destacou que, enquanto não houver uma adesão interna à mudança – seja do agressor ou da vítima que busca ajuda – as intervenções externas terão limites.
O encerramento do programa convergiu para uma solução que vai além das delegacias e tribunais: a educação de base. Para os especialistas, é preciso rediscutir o que é ser homem e como as pessoas são ensinadas a se relacionar. Leonardo Santiago finalizou com um apelo à responsabilidade social coletiva:
– A grande resposta que temos que dar enquanto sociedade não passa necessariamente por uma pena, mas sim por rediscutir a reinserção dessa pessoa e como fazer com que as próximas gerações não achem que é normal bater. Cabe a nós cuidarmos das próximas mulheres.
