Foto: Mauricio Tonetto / Secom (Divulgação)
Pressionado por uma sequência de crimes violentos contra mulheres, o Rio Grande do Sul chegou ao 11º feminicídio em apenas 29 dias de 2026, um cenário que, segundo a secretária estadual da Mulher, Fábia Richter, exige mais do que ações policiais. Em entrevista ao programa Fim de Tarde, da Rádio CDN, desta quinta-feira (29), ela classificou o momento como “perturbador” e defendeu uma resposta integrada do Estado e da sociedade, com atenção especial à prevenção, à identificação precoce dos riscos e à forma como o tema é tratado publicamente.
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Escalada da violência e brutalidade dos crimes
O início do ano tem sido marcado por casos de extrema brutalidade, que, segundo a secretária, revelam não apenas a escalada da violência, mas a intensidade com que ela vem se manifestando. Para Fábia Richter, os feminicídios recentes demonstram um padrão de agressividade que ultrapassa o ato de matar e expõe relações marcadas por ódio, controle e violência reiterada.
– Conforme os dias vão passando nós viemos recebendo notícias, são casos muito sérios, onde são agressivos, não é somente matar, mas matar com ódio, matar com força. Então é mais de uma facada, é muito ruim. O caso de hoje foi muito ruim. O homem além de matar ele acabou se machucando também – afirmou.
Violência que se constrói dentro de casa
Ao longo da entrevista, a secretária reforçou que o feminicídio não pode ser tratado apenas como um problema de segurança pública. Segundo ela, a violência extrema é o resultado final de um processo que se desenvolve dentro das relações, muitas vezes sem que a própria vítima perceba o risco que corre.
– Tenho reiteradamente dito que precisamos fazer um trabalho muito forte integrado em rede e tentando identificar precocemente o risco dessa violência acontecer nessa magnitude. Isso é um problema social dentro da casa das pessoas. Não existe uma receita para a gente encontrar a cura desse mal – disse.
Ainda assim, reconheceu que as estratégias adotadas até agora não foram suficientes para conter a escalada dos crimes.
Apesar do cenário preocupante, a secretária ressaltou que instrumentos como medidas protetivas e tornozeleiras eletrônicas têm eficácia comprovada. O problema, segundo ela, está na dificuldade de fazer com que a mulher reconheça o risco e consiga romper o ciclo da violência por meio da denúncia.
– Eu reitero para toda a sociedade: comparado à quantidade de medidas protetivas que temos e às mortes que temos de mulheres com medida protetiva, a medida protetiva protege, a tornozeleira protege. Mas é um desafio fazer a mulher enxergar o risco – disse.
Ela explicou que o medo do julgamento social e a culpabilização da vítima ainda pesam de forma significativa. Segundo Fábia, muitas mulheres acabam silenciando por receio da reação da sociedade, da família e até do próprio agressor.
– A mulher tem medo, ela acaba se sentindo culpada, porque o homem de uma certa forma faz parecer que a culpa é dela – afirmou.
Outro ponto destacado foi a diversidade dos casos registrados no Estado. A secretária ressaltou que não há um perfil único de vítima ou agressor, o que dificulta a prevenção baseada apenas em padrões.
– Nós tivemos nesse ano casos de 15 a 80 anos. Não tem classe social, não tem idade. Tivemos situações onde o homem não tinha nenhum boletim de ocorrência, mas tivemos situações do homem ter boletim de ocorrência e ter histórico – destaca.
Segundo ela, em muitos casos as mulheres não percebem a gravidade da situação até que a violência atinja um nível irreversível.
A secretária também contextualizou o aumento dos feminicídios no início do ano, lembrando que janeiro historicamente concentra mais crimes violentos no Rio Grande do Sul. Em 2024, foram registrados 12 casos no mês.
– É um ano de recomeço. Os casos têm uma relação direta com o ‘não quero mais, vamos iniciar uma nova vida’, e o homem ter essa dificuldade em aceitar essa situação – afirmou, citando ainda fatores como calor, maior consumo de álcool e maior convivência social.
Divulgação dos casos e o papel da mídia
Um dos trechos mais sensíveis da entrevista foi a reflexão sobre o impacto da divulgação dos feminicídios. Embora tenha ressaltado que não há comprovação científica definitiva, Fábia Richter afirmou que existe uma percepção de que a forma como os crimes são noticiados pode influenciar comportamentos.
– É importante que falemos sobre isso. A mídia tem que nos ajudar, porque, ao falar das mortes, nós temos a percepção, embora nenhum estudo comprove isso, de que está piorando. Nós temos muitos estudos relacionados ao suicídio, por exemplo. Muitas vezes do jeito como tu fala pode fazer com que as pessoas entendam "então, vou me suicidar", "me deu uma ideia". Não tem estudo sobre isso. Nós não temos uma evidência cientifífica disso, mas nossa percepção é de que, sim, puxa vida, temos falado tanto (sobre feminicídio) e em vez de melhorar, temos esse "boom" depois das festas.
Para a secretária, o desafio é informar a sociedade sem banalizar a violência ou produzir efeitos indesejados.
Ações do Estado e apelo à sociedade
Entre as ações em andamento, Fábia destacou a ampliação da rede de abrigamento no Estado, com investimento de R$ 6,8 milhões e 126 vagas distribuídas em nove regiões. A estratégia inclui a transferência de mulheres entre municípios para garantir segurança em situações de risco extremo.
Ao final da entrevista, a secretária reforçou o apelo para que a população denuncie situações suspeitas, mesmo quando houver dúvidas, e lamentou o fato de o Rio Grande do Sul liderar os índices de feminicídio no país.