Transporte intermunicipal encolhe e deixa 17 cidades da Região Central sem rodoviárias; veja a lista e o que apontam especialistas

Transporte intermunicipal encolhe e deixa 17 cidades da Região Central sem rodoviárias; veja a lista e o que apontam especialistas

Fotos: Rian Lacerda (Diário)

Antiga Estação Rodoviária de Júlio de Castilhos

Há alguns anos, ir até uma estação rodoviária e utilizar o ônibus como principal meio de transporte para outras cidades ou Estados eram cenas rotineiras. Com a diversificação dos meios de deslocamento e, em especial, com a criação de aplicativos de carona, o cenário mudou e revela um momento delicado para o transporte coletivo intermunicipal, marcado pelo fechamento desse tipo de terminal.

Dados do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), solicitados pelo Diário, apontam que o número de passageiros no Rio Grande do Sul despencou de 33,8 milhões, em 2019, para 15,4 milhões, em 2024. A queda superior a 50% na demanda expõe a dificuldade de manter estações rodoviárias em funcionamento em diversas cidades, principalmente em pequenos municípios. Para o Sindicato de Agências e Estações Rodoviárias no Estado (Saerrgs), os altos custos de operação, somados à redução da receita, estão entre os principais fatores.


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Evolução do número de passageiros no RS (Daer)

  • 2019: 33,8 milhões
  • 2020: 15,6 milhões
  • 2021: 16,3 milhões
  • 2022: 18,5 milhões
  • 2023: 18,4 milhões
  • 2024: 15,4 milhões

A fiscalização do transporte rodoviário intermunicipal de passageiros no Estado é responsabilidade do Daer. Segundo o órgão, a variabilidade no número de passageiros transportados apresenta uma queda acentuada, intensificada após a pandemia. 

Na Região Central, a lista de municípios que, atualmente, não possuem estação ou agência rodoviária inclui, entre outros, São Pedro do Sul, Cacequi, Formigueiro, Itaara e Jari. Nesses locais, a definição do ponto de parada para embarque e desembarque fica a cargo das prefeituras.


Municípios sem rodoviária oficial na região
Cacequi, Dilermando de Aguiar, Dona Francisca, Formigueiro, Itaara, Itacurubi, Ivorá, Jari, Mata, Nova Esperança do Sul, Santa Margarida do Sul, São Martinho da Serra, São Pedro do Sul, Silveira Martins, Toropi, Unistalda e Quevedos.


Nos municípios onde não há estação rodoviária, o Daer informa que a indicação dos locais de embarque e desembarque é definida pelas prefeituras, que também devem adotar medidas de segurança e garantir infraestrutura mínima.


Mesmo onde há rodoviárias, há problemas 

Estação Rodoviária de Júlio de Castilhos funciona em uma lancheriaFoto: Rian Lacerda (Diário)

Mesmo em cidades que ainda contam com terminais de ônibus, como Júlio de Castilhos, os usuários enfrentam dificuldades. A antiga estação, que possuía boxes com cobertura para proteger do sol e da chuva durante o embarque e o desembarque, está fechada há aproximadamente três anos. Atualmente, em frente ao prédio desativado, uma lanchonete vende passagens e realiza parte do serviço. No entanto, o funcionamento ocorre apenas em horário comercial, o que obriga passageiros de outros horários, principalmente à noite, a aguardarem do lado de fora, sem bancos, cobertura ou estrutura adequada, já que os ônibus estacionam junto à calçada.


A antiga rodoviária, que era administrada pela empresa União Santa Cruz, estava sendo ocupada por uma família indígena quando a reportagem do Diário esteve no local, em dezembro de 2025. Questionada, a mesma informou que “a troca do prédio foi por decisão do antigo concedente” e que “cabe ao Daer decidir quem administrará e esta empresa, por sua vez, definir onde a rodoviária vai ficar”.


“Chegava a ter 100 ônibus por dia”

Embaixo de uma árvore que ele mesmo plantou no antigo prédio para fazer sombra na parada de táxis da rodoviária está o taxista Sandir Jovanovichs, 71 anos. Com ponto no local desde 1991, ele acompanhou o fechamento da estrutura antiga e a migração do serviço para outros endereços.


– Isso aqui chegava a ter mais de 100 ônibus num dia. Dia e noite, viajava por onde queria. Tinha ônibus da Penha, da Pluma, Unesul, São Félix. Nós pousávamos aqui de noite, não tinha hora para chegar e sair – relembra Sandir.


De acordo com ele, a falta de uma estrutura adequada gera transtornos, especialmente para idosos e pessoas doentes.


– Esses dias chegou uma senhora meio doente, queria ir ao banheiro. Teve que segurar até eu chegar com ela no hospital. Tem banheiro (na lancheria), mas só quando abre. Se não fosse a sombra das árvores que eu plantei, a pessoa não aguentaria esse calor – relata.


Após o fechamento do terminal antigo, conforme o taxista, a rodoviária já mudou de endereço três vezes, passando por hotéis e outros locais provisórios.


Uma nova realidade

Os dados do Daer e os relatos de quem vivencia o dia a dia do transporte refletem uma nova realidade de mobilidade, segundo o Sindicato de Agências e Estações Rodoviárias. O Saerrgs avalia que os aplicativos de carona e serviços informais passaram a ocupar um espaço relevante, criando uma assimetria no sistema, já que o transporte regular opera sob regras rígidas de fiscalização e taxas, enquanto o transporte paralelo não segue os mesmos critérios.


“Administrar uma rodoviária no interior exige adaptação. Muitos custos, como manutenção, limpeza e pessoal, permanecem, mas a receita caiu. Em diversos casos, as rodoviárias funcionam em prédios privados com aluguéis altos, que não se encaixam mais na equação econômica.”


Sobre a queda no número de passageiros, o presidente do sindicato, Alexandre Luiz Panegalli, reforça os impactos da pandemia e acrescenta os efeitos das enchentes que atingem o Estado desde 2024.


“A pandemia e as enchentes tiveram papel decisivo, especialmente por alterarem hábitos de deslocamento e por gerarem impacto econômico e emocional na população. Mas há também outros fatores estruturais que precisam ser considerados.”

Como alternativa, a entidade defende que as rodoviárias deixem de ser apenas pontos de embarque e desembarque e passem a funcionar como hubs de serviços.


“A rodoviária não pode mais ser vista apenas como um ponto de embarque e desembarque. Ela pode e deve funcionar como um hub urbano, integrando múltiplas atividades que se beneficiem do fluxo natural de pessoas. Serviços públicos, comércio, logística leve, encomendas, atendimento ao cidadão e espaços compartilhados podem dividir o mesmo espaço, tornando a operação mais sustentável e útil para a comunidade.”


Panegalli afirma que o setor busca adaptação e cooperação e defende um olhar conjunto entre Estado, municípios e operadores. Conforme ele, as prefeituras, “mesmo não sendo o poder concedente, têm um papel importante ao integrar a rodoviária ao planejamento urbano e apoiar soluções que garantam sua viabilidade”.

“Manter a rodoviária funcionando é preservar acesso, mobilidade e integração regional. Pensar esse equipamento de forma moderna, compartilhada e multifuncional é um caminho natural para enfrentar os desafios atuais”, conclui.


Especialista aponta ausência de política pública

Para o professor titular da UFSM, engenheiro civil e doutor em Mobilidade, Carlos José Antônio Kümmel Félix, o fechamento das rodoviárias não deve ser tratado apenas como uma questão de mercado ou de oferta e demanda. Segundo ele, o problema central é a ausência de uma política pública contemporânea de mobilidade e atratividade regional.


“As rodoviárias estão se tornando economicamente inviáveis, não porque as pessoas deixaram de se deslocar, mas porque o sistema público de mobilidade intermunicipal deixou de acompanhar as transformações sociais, tecnológicas e territoriais.”


O professor aponta a falta de visão sistêmica e a fragmentação das decisões entre municípios, Estado e agências. Destaca, ainda, que não existe uma política nacional consistente para o transporte de média distância, nem integração com o transporte urbano ou com plataformas digitais reguladas.


Além do aumento do transporte individual e dos aplicativos de carona, Félix cita fatores que contribuem para a perda de competitividade do transporte regular, como a infraestrutura envelhecida. De acordo com ele, muitas rodoviárias foram construídas nas décadas de 1970 e 1980 e não passaram por modernizações, o que encarece a manutenção.


Outro ponto é o modelo de concessão defasado. “O sistema tradicional, baseado em outorgas e tarifas fixas, não se adaptou à nova realidade de mercado.” Ele também menciona o fim de receitas acessórias, como o desuso do despacho de encomendas e o fechamento de comércios internos, que impactaram diretamente o faturamento.


Félix alerta para as consequências sociais desse processo. “Tratar esse colapso apenas como um problema de mercado é ignorar seu impacto direto na coesão regional, no direito à mobilidade e na própria ideia de cidade conectada”, conclui.

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