Grupos do Paraná e Mato Grosso do Sul cruzam mais de mil quilômetros para viver o sonho do Juvenart em Santa Maria

Grupos do Paraná e Mato Grosso do Sul cruzam mais de mil quilômetros para viver o sonho do Juvenart em Santa Maria

Foto: Arquivo Pessoal

CTG Nova Querência, de Maracaju (MS)

O som das esporas batendo no tablado e o movimento suave das saias das prendas não ecoam apenas nos pampas. A mais de mil quilômetros de Santa Maria, o tereré divide espaço com a cuia de chimarrão enquanto jovens de Maracaju, no Mato Grosso do Sul, e Colombo, no Paraná, vestem a pilcha para ensaiar danças tradicionais.


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Essa realidade ganhou forma no 22º Juvenart, realizado no Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) nesta semana. Ao lado das invernadas gaúchas, delegações de outros Estados enfrentaram longas horas de estrada para participar daquele que é considerado o maior festival juvenil de arte tradicionalista do Rio Grande do Sul.


Um sonho que atravessou 17 horas de estrada

A estreia do CTG Querência Santa Mônica, de Colombo (PR), começou antes da chegada ao festival. Durante cerca de um ano, jovens, famílias, instrutores e coordenadores transformaram a viagem em um compromisso de todos.

Foram aproximadamente 17 horas de estrada até a chegada a Santa Maria, na última quarta-feira (29). A delegação trouxe 65 pessoas, entre dançarinos, familiares e equipe de apoio. O grupo fez sua estreia oficial na sexta-feira, competindo pela categoria Júnior. Entre os integrantes, palavras como “alegria” e “sonho” são recorrentes ao mencionar a experiência no evento: 

Foto: Arquivo Pessoal

– Hoje temos a alegria de ver esse sonho se tornando realidade. Mais do que participar de um festival, estamos vivendo a oportunidade de aprender com os grupos que sempre admiramos, trocar experiências e construir uma história que certamente ficará marcada para todos nós – pontua a coordenadora da Invernada Juvenil, Gabriely Bugalski, 47 anos. 

A emoção de quem pisa na arena se traduz nos comentários da primeira prenda juvenil do CTG, Laura Muller, de 15 anos. Para ela, o resultado é consequência de um processo cultivado no dia a dia das preparações:

Foto: Reprodução / Deivis Bueno

– Chegamos aqui com o coração cheio de felicidade e expectativa. Mais do que buscar uma classificação, viemos para viver essa experiência, aprender e honrar tudo o que nos trouxe até aqui. Se a classificação vier, será motivo de muita alegria. Mas, acima de tudo, já nos sentimos vencedores por estarmos realizando este sonho e representando a nossa entidade e o nosso Paraná.

No tablado, a coreografia de entrada celebrou a dança como um elo presente nas diferentes fases da vida. Na saída, a invernada encenou o encontro simbólico entre uma jovem e sua própria infância, retratando como a paixão pela arte acompanha quem escolhe esse caminho desde cedo.


A tradição no Centro-Oeste

Se para os paranaenses a distância exigiu planejamento, para o CTG Nova Querência, de Maracaju (MS), o percurso foi ainda maior. A delegação percorreu 1.154 quilômetros durante 24 horas de ônibus. Com cantos de torcida decorados, roupas customizadas e a bandeira do seu estado em mãos, vieram cerca de 80 pessoas para apoiar os jovens. O grupo sul-mato-grossense abriu sua participação no evento na manhã de quinta-feira, também na disputa pela categoria Júnior.

O professor Elbio Santos Júnior, natural de Uruguaiana e residente há três anos do Mato Grosso do Sul, vê na vivência do grupo a confirmação de que a tradição ultrapassou as fronteiras geográficas:

Foto: Arquivo Pessoal

– É muito gratificante saber que, mesmo fora do Rio Grande do Sul, a nossa cultura está muito viva. Conseguimos atravessar as fronteiras levando as danças tradicionais, a chula, os gaiteiros e toda a nossa identidade gaúcha.

Por meio do movimento, a temática levada ao palco resgatou a história da formação do Sul. A coreografia retratou a saga dos tropeiros birivas, desde a partida na Argentina, passando pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, até o destino em Sorocaba (SP). Na dança de saída, a encenação abordou a saudade e a espera das famílias pelo retorno dos tropeiros.

Foto: Rian Lacerda (Diário)

A dedicação da delegação sensibilizou, inclusive, a organização do festival. Após a apresentação, o grupo recebeu um convite especial para voltar ao tablado no domingo, independentemente de classificação, como gesto de reconhecimento a quem cruzou o país para integrar a festa.

A presença dos nossos irmãos tradicionalistas de Mato Grosso do Sul e do Paraná só demonstra o tamanho da credibilidade que foi conquistado ao longo desses anos. Isso nos honra e nos orgulha. Faz nós compreendermos que a nossa responsabilidade aumenta a cada ano – destaca o Coordenador Geral do Juvenart, Arion Helder Pilla. 


Primeira vez em solo gaúcho

Aqui está a versão com ajustes sutis de ritmo, fluidez e transição. As correções foram mínimas para manter a sua voz e naturalidade, garantindo que o fecho da citação do Jader amarre perfeitamente o ambiente dos corredores:

Para a maioria dos integrantes dos dois CTGs, o Juvenart marcou o primeiro contato direto com o solo gaúcho. É o caso da dançarina Rafaela Truffi, de 16 anos, que se aproximou da cultura tradicionalista apenas em 2023, quando passou a frequentar a entidade em Maracaju:

Foto: Rian Lacerda (Diário)

– Eu nunca tinha visto a cultura gaúcha antes. Conheci o CTG e me apaixonei. Esta também é minha primeira vez no Rio Grande do Sul e estar no Juvenart é uma sensação inexplicável. Não tenho como expressar o quanto estou feliz por estar aqui.

Já o peão Jader Pacheco, de 15 anos, cresceu em uma família de origem gaúcha e dança desde os seis. Mesmo com a vivência antiga na tradição, fez sua estreia no festival em dose dupla: além de dançar na invernada pela manhã, formou par com Rafaela no período da tarde, disputando a categoria de Dança de Salão nas eliminatórias realizadas no CTG Sentinela da Querência.

Nos corredores da UFSM, o hábito de cultivar o tereré gelado passou a conviver em harmonia com as cuias de chimarrão quente compartilhadas entre os grupos. É ali que o “tu” e o “você” dialogam naturalmente: sotaques e costumes diferentes que se encontram para, juntos, ecoarem as músicas do Rio Grande do Sul.

– É totalmente diferente do que a gente está acostumado. Aqui é muito maior. O sentimento também é completamente diferente – resumiu o peão


Muito além da competição

Entre o fim de uma apresentação e a preparação da seguinte, o festival revela um ambiente de cumplicidade. Nas arquibancadas, o apoio dos familiares ganha contornos de festa: cartazes e gestos de incentivo acompanham os passos do grupo do início ao fim. Nos bastidores, o ar de apreensão cede espaço à solidariedade. É comum ver integrantes de uma entidade formando corredores para aplaudir e desejar "boa sorte" aos concorrentes que entram na concentração.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Quando a música cessa e o grupo deixa o tablado, o rigor da competição dá lugar ao alívio e ao abraço coletivo entre dançarinos, instrutores e pais. Em meio aos sorrisos e às lágrimas incontidas, expressões como "conseguimos", "obrigado" e "valeu a pena" repetem-se nos bastidores.

A arte apresentada traduz esse envolvimento. Cada apresentação transforma o espaço em uma oportunidade de relembrar memórias, costumes e passagens da história por meio do movimento, do ritmo e da indumentária.

Para a coordenadora Gabriely Bugalski, é essa entrega que dá sentido à jornada:

Porque a dança é muito mais do que movimento. Ela é emoção, história e, para muitos de nós, faz parte da nossa identidade, ontem, hoje e sempre.


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Vitória Sarturi

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