Foto: Vinicius Becker (Diário)
No meio de um canteiro, em uma das rótulas mais movimentadas de Santa Maria, lá está ele. Uma estrutura de aço, prateada, de 11 metros de altura, com asas abertas, um braço estendido em direção ao sol e uma corrente presa na outra mão. Há mais de 15 anos, o monumento acompanha diariamente a rotina de milhares de motoristas que passam pelo Bairro Dores. Muitos o chamam de Ícaro. Outros sequer conhecem sua história. O que poucos sabem é que seu nome é O Idealista e que cada detalhe da escultura foi pensado para homenagear pessoas que transformam sonhos em realidade.
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Criado especialmente para a 25ª edição da Feisma, em 2010, o monumento nasceu como uma homenagem aos visionários que ajudaram a construir Santa Maria. Após ficar exposto durante a feira, a obra foi instalada na rótula em frente ao Movimento de Schoenstatt, onde permanece desde dezembro daquele ano.
Criado pelo artista plástico peruano Juan Humberto Torres Amoretti, hoje com 79 anos, a obra reúne elementos da mitologia, da trajetória pessoal do artista e da gratidão por Santa Maria. Décadas depois, ele afirma que tudo o que produziu aqui foi uma forma de agradecer pela acolhida que recebeu.

Uma homenagem aos que não desistem

Embora hoje faça parte da paisagem urbana de Santa Maria, O Idealista não foi criado originalmente para a rótula do Bairro Dores. A ideia surgiu quando Amoretti recebeu um convite do empresário Paulo Ceccim, que futuramente seria presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Santa Maria (Cacism). Na época, ele já guardava havia anos o desejo de representar pessoas que vivem em busca de um propósito.
Em vez de retratar um personagem específico, decidiu criar uma figura capaz de representar todos aqueles que deixam sua terra, enfrentam dificuldades e continuam caminhando em direção aos próprios objetivos. Foi assim que nasceu o Idealista.
Para ele, o verdadeiro idealista é aquele que nunca permanece parado. É alguém que acredita em um sonho, enfrenta obstáculos e continua tentando, mesmo depois de fracassar.
As asas representam a capacidade humana de sonhar e de ultrapassar limites. O sol, alcançado pela mão direita, simboliza o objetivo que cada pessoa deseja conquistar ao longo da vida. Já a corrente presa à mão esquerda lembra que sempre existirão obstáculos, dificuldades e até pessoas que tentarão impedir esse caminho.
– O idealista é aquela pessoa que sai atrás do sol que sonha um dia alcançar. Meu personagem tinha que ter asas para poder voar, sair atrás do sonho e conquistá-lo. Ele pode não conseguir naquele momento. Então ele cai, junta as penas de novo e sai atrás daquilo que pretende fazer.
A construção do monumento,que pesa duas toneladas, no entanto, não foi da noite pro dia. Entre os primeiros esboços e a conclusão da escultura foram dois anos de trabalho. Com a ajuda de soldadores, as placas de metal foram soldadas umas às outras "rusticamente", como descreve Amoretti.

Afinal, por que tanta gente chama o monumento de Ícaro?

A obra foi inspirada no personagem da mitologia grega, Ícaro, um jovem que tentou alcançar o sol com asas feitas de cera. A ideia inicial nasceu sobre um tema desenvolvido em 1988, “Reflexões sobre o sonho de Icaro".
Conforme Amoretti, a escultura transforma a mitologia em algo próximo à realidade humana. Apesar de Icaro ser jogado ao mar após ter as asas derretidas pelo calor do sol, o artista plástico explica que a queda não é uma derrota.
– Sempre devemos nos erguer após uma queda – comenta.

Um símbolo que também fala do artista

No fim das contas, O Idealista também fala sobre a própria trajetória de seu autor. Peruano, Amoretti começou seu aprendizado no mundo artístico aos 18 anos, na Escola Nacional Autônoma de Belas Artes de Lima, sua cidade natal. Depois, chegou a Santa Maria em 1974, tornou-se professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) no ano seguinte e construiu toda a carreira na cidade. Além do Idealista, há varias obras de Amoretti espalhadas pela cidade.
Assim como o personagem que criou, também deixou sua terra para perseguir um sonho e acredita que o verdadeiro valor da vida está justamente em continuar caminhando, mesmo quando o percurso exige recomeços.
Ao longo da entrevista, feita na sala do apartamento onde vive atualmente, repetiu diversas vezes que tudo o que produziu foi uma forma de agradecer pelo acolhimento que recebeu.
– Eu tenho muita gratidão pela maneira como fui acolhido. Tudo o que eu fiz foi uma forma de agradecer a Santa Maria e ao Brasil, que me receberam de braços abertos.
