Cidade das Corredoras: mulheres impulsionam a cultura da corrida de rua em Santa Maria

Cidade das Corredoras: mulheres impulsionam a cultura da corrida de rua em Santa Maria

Fotos: Arquivo Pessoal

Da esquerda à direita: Lucélia Carolina Quinto Brutti, Gisele Vezzosi Matte, Renata Guedes dos Santos e Marli Trentin

Santa Maria já é oficialmente conhecida como a “Cidade dos Corredores de Rua”. O título, formalizado pela Lei Ordinária 7.115/2026, reconhece aquilo que há tempos já podia ser visto nas ruas da cidade: o crescimento acelerado das corridas e a forte cultura esportiva construída no município. Mas, em meio à explosão da modalidade, um fenômeno chama atenção cada vez mais: são as mulheres que têm tomado a frente desse movimento.

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Conforme dados retirados da plataforma Trichip Cronometragem, na mais recente edição da Rústica de Aniversário de Santa Maria, realizada no último domingo (17), elas foram maioria entre os inscritos: 1.030 mulheres contra 1.020 homens. O cenário não foi isolado. Em 2025, a prova já havia registrado 789 corredoras e 756 corredores. Na Rústica AnaSkin deste ano, a diferença foi ainda mais expressiva: 498 mulheres inscritas diante de 296 homens.


“Uma chama a outra”

Por trás dos números, existem histórias atravessadas por recomeços, maternidade, saúde mental e acolhimento. Histórias como a de Renata Guedes dos Santos, 31 anos, enfermeira santa-mariense e integrante da Pro Elite Assessoria. Ela precisava completar um treino de 18 quilômetros para se preparar para a meia maratona de Porto Alegre, mas estava insegura de correr sozinha devido aos horários complicados da rotina de plantões e também por ser a maior distância do seu ciclo de treinamentos até então.

Ela mandou uma mensagem em um grupo de corrida perguntando se alguém poderia acompanhá-la. A resposta veio rapidamente. Mulheres de diferentes turmas e treinadores se organizaram para correr pequenos trechos ao lado dela. Algumas acompanharam dois quilômetros, outras três, outras cinco. A maioria sequer havia corrido 10 quilômetros antes. Juntas, fizeram com que ela conseguisse completar toda a distância pela primeira vez.

Gisele e Renata correndo juntasFoto: Arquivo Pessoal

– Achei muito lindo porque lancei o convite despretensiosamente e reuni mulheres pelo mesmo propósito que o meu. Elas me deram uma força imensa para conseguir completar esse treino – conta Renata.

Para a corredora e treinadora de Renata na assessoria, Gisele Vezzosi Matte, 37 anos, histórias como essa ajudam a explicar por que as mulheres passaram a ocupar de forma tão expressiva os grupos de corrida de Santa Maria.

– Os homens procuram treinamento de corrida, performance. O grupo das mulheres se torna muito mais uma rede de apoio. Uma chama a outra, uma cuida da outra – resume.


Corrida como espaço de acolhimento

Gisele conhece de perto essa transformação. Hoje treinadora de corrida na Pro Elite, ela começou no esporte ainda na preparação para o teste físico da Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAR). Na época, corria apenas o necessário para completar os 12 minutos exigidos no exame. Foi somente após a pandemia que a corrida de rua ganhou outro significado em sua vida.

– A corrida me ajudou muito nesse aspecto psicológico. Depois da pandemia, ela acabou se tornando um espaço de convívio social e acolhimento – relata.

O tema, inclusive, virou objeto de estudo da educadora física. O trabalho de conclusão de curso dela investigou justamente os motivos que levaram tantas mulheres a aderirem à corrida de rua nos últimos anos.

Segundo Gisele, diferentemente dos homens, que normalmente buscam melhora de performance e competitividade, as mulheres chegam às assessorias por razões muito mais diversas.

– Algumas entram para melhorar a saúde mental, outras para fugir do sedentarismo, algumas por emagrecimento, outras porque queriam fazer alguma coisa fora de casa. Temos alunas que começaram só porque a amiga chamou – revela.

Além do fator emocional, a praticidade também ajuda a explicar o crescimento.

– A corrida é acessível. Tu precisa de um tênis, de um lugar e de um planejamento. Não depende necessariamente de horários fixos ou de estruturas caras, e isso faz diferença principalmente para mulheres que trabalham por plantão, têm filhos ou uma rotina corrida – defende.


O retorno para si mesma

Lucélia é militar da aeronáutica e participou da primeira Ultramaratona de Santa MariaFoto: Arquivo Pessoal

A militar da Aeronáutica Lucélia Carolina Quinto Brutti, 43 anos, é um exemplo dessa conexão criada nas assessorias. Ela voltou a correr após o nascimento do filho, Bruno Brutti Fernandes, de 3 anos, buscando retomar um espaço próprio dentro da rotina.

– Quando a nova rotina começou a se estabelecer, percebi que era hora de voltar a fazer alguma coisa por mim – conta.

Inicialmente, treinava sozinha, usando aplicativos gratuitos. Depois de participar da Maratona de Santa Maria, entrou para a assessoria Ítalo Ribeiro e percebeu que a corrida ia muito além do exercício físico.

– Tem muita troca de experiência sobre maternidade, trabalho, casamento e rotina. A assessoria foi um divisor de águas na minha vida – relata.

Recentemente, Lucélia participou da ultramaratona de 12 horas de Santa Maria em um octeto formado por cinco mulheres e três homens, prova em que os atletas se revezam a cada 30 minutos.

– Alguns amigos mais próximos ali da corrida e eu nos empolgamos e decidimos fazer a Ultramaratona. Eu corri às 19h, às 23h e às 3h da manhã. Foi uma experiência indescritível. Todo mundo ali torcendo pelo colega – relembra.

Ela resume o ambiente das corridas em uma frase:

– A corrida é a atividade física individual mais coletiva que eu conheço.

Lucélia também destaca que a permanência das mulheres no esporte depende, muitas vezes, de uma rede de apoio dentro e fora das pistas. No caso dela, o incentivo do marido, Bruno Moreira Fernandes, 39 anos, foi fundamental para conseguir manter os treinos conciliando a rotina familiar e o trabalho.

– Sem apoio, uma mãe não consegue sair de casa às cinco da manhã para correr. Meu marido cuida da logística do nosso filho, me incentiva e comemora comigo cada resultado. Isso faz toda a diferença – ressalta.


“Não existe idade para correr”

De um lado, Marli aos 14 anos, e do outro, ela na corrida aos 56 anos, após o retorno há um ano e meioFotos: Arquivo Pessoal

Entre as histórias que ilustram esse movimento está também a de Marli Trentin, empresária de 56 anos e aluna da Pro Elite Assessoria. Ela correu na adolescência, aos 14 anos, mas passou décadas afastada do esporte. Há cerca de um ano e meio, decidiu voltar a correr após retornar a morar em Santa Maria.

Na Rústica de Aniversário, completou os 10 quilômetros estabelecendo seu recorde pessoal. Agora, prepara-se para correr pela primeira vez uma meia maratona em Porto Alegre.

– Não tem idade para começar a correr. Tem gente de 70, 80 anos correndo e se superando. É só querer – afirma.

A rotina intensa nunca foi desculpa. Marli trabalha fora, administra uma empresa e muitas vezes treina às 6h da manhã para conseguir encaixar tudo no dia.

– Hoje eu digo que minhas prioridades são trabalho, família e treino. E eu faço tudo isso caber nas minhas 24 horas.

O impacto foi além da atividade física. Ela conta que perdeu cerca de 12 quilos, melhorou indicadores de saúde e viu mudanças importantes também no aspecto emocional.

– A corrida mudou a minha vida. Não é só físico. A cabeça da gente muda, a ansiedade melhora, aprendemos sobre disciplina, constância e percebemos que somos capazes de superar desafios.

O entusiasmo acabou influenciando outras pessoas da família. O marido, antes sedentário, passou a correr junto. A irmã também começou a frequentar assessorias esportivas.

– Somos muito mais exemplo do que palavra – sintetiza.

Marli conta que ainda não está acostumada com a exposição que veio após a repercussão da sua história na Rústica. Diz que quase não usa redes sociais e que, muitas vezes, nem percebe o quanto sua rotina inspira outras mulheres.

– Minhas sobrinhas vivem dizendo que eu deveria compartilhar mais, porque muita gente pode se identificar. Mas eu sou da geração que não está acostumada com isso – brinca.


Mulheres sustentam a cultura da corrida

Gisele e algumas de suas alunasFoto: Arquivo Pessoal

Apesar do crescimento feminino nas provas e assessorias, Gisele crê que ainda falta visibilidade para as mulheres no universo da corrida de rua em Santa Maria. Segundo ela, atletas masculinos costumam receber mais atenção, enquanto muitas corredoras acabam pouco reconhecidas.

– Claro que atletas de elite merecem destaque, mas também falta virar as câmeras para as mulheres que estão ganhando provas. Aquelas que têm uma boa margem para entrar em um processo de sair do esporte amador e, quem sabe, entrar para um esporte de elite. Falta esse incentivo e não só por parte da mídia – afirma.

Além da falta de visibilidade, ainda há outros desafios. Muitas mulheres deixaram de correr sozinhas, especialmente em horários mais cedo ou à noite, por questões de segurança e infraestrutura urbana.

– Falta iluminação, as ruas são esburacadas, as calçadas irregulares. Então muitas procuram grupos de corrida porque se sentem mais seguras acompanhadas – conta.

O reflexo disso aparece diretamente nas turmas presenciais:

– Hoje, tu olha para os grupos e vê três ou quatro homens e quinze mulheres. A maioria é iniciante, porque uma vai chamando a outra.

O próprio adiamento da reabertura da pista do Parque da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Santa Maria (Cacism), frequentemente citada entre corredoras da cidade, virou símbolo dessa busca por espaços mais seguros para treinar.

Gisele finaliza:

– As mulheres ajudam a sustentar essa identidade de Santa Maria como cidade da corrida de rua. E muitas vezes fazem isso conciliando trabalho, maternidade, rotina pesada e ainda incentivando outras pessoas a começarem também.

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Marina Brignol

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