Coelho de Páscoa: símbolo popular ganha diferentes significados entre religiões

Maria Eduarda Silva

Coelho de Páscoa: símbolo popular ganha diferentes significados entre religiões

Foto: Vinicius Becker (Diário)

O coelho é um símbolo da Páscoa por representar fertilidade, abundância e renovação da vida.

A figura do coelho, amplamente associada à Páscoa, é interpretada de formas distintas entre tradições religiosas e culturais. Embora não tenha origem bíblica, o símbolo é relacionado com frequência à fertilidade, à vida nova e à renovação, sendo incorporado ao imaginário popular da data

Essa associação também encontra explicação na biologia. Segundo a médica veterinária Josiele Milena de Souza, o coelho é conhecido pela alta capacidade reprodutiva.

 — Por ser um animal muito fértil, costuma-se ligar à abundância, fertilidade e renovação da vida. Ele tem ninhadas grandes, em média oito filhotes, e pode entrar no cio e engravidar logo após o parto — explica.

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Para entender como esses significados são interpretados na prática, a equipe do Diário conversou com representantes de diferentes religiões, que explicam como o coelho e outros símbolos são vistos dentro de cada crença.

Na visão do pastor Reinoldo Glück Neumann, de 59 anos, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) de Santa Maria, a Páscoa é a principal celebração do calendário cristão. 

A ressurreição de Jesus Cristo é central, pois nos apresenta a mensagem de que, para Deus, a vida é um dos valores mais importantes.  A morte não tem e nem pode ter a palavra final — afirma.

Sobre os símbolos populares, como o coelho e os ovos de Páscoa, Neumann afirma que eles podem contribuir para a compreensão da mensagem cristã, desde que utilizados com significado. 

— Símbolos são elementos que conhecemos e que vêm carregados de alguns sentidos que nos ajudam a compreender o que estamos celebrando. O coelho, pela sua fertilidade e rápida reprodução, simboliza a vida nova e a esperança trazida pela ressurreição e a fecundidade com a qual a igreja propaga esta boa-nova da salvação. Já o ovo representa o túmulo vazio de Jesus e, por consequência, a ressurreição e a nova vida. Porém, no seu uso, eles não podem ser apenas uma tradição de Páscoa, senão perdem seu objetivo — explica.

No entanto, alerta para o risco de esvaziamento do sentido da data. 

Grande parte das comemorações cristãs foi transformada em fonte de comércio, em que o consumo se tornou mais importante do que o real sentido da data — diz.

O recado que Reinoaldo deixa para a Páscoa é voltado para valorização da vida. 

Páscoa nos lembra disso. Precisamos ter atitudes que dignifiquem a vida. Precisamos respeitar a natureza e as pessoas, feitura de Deus, que estão a serviço da vida. Que cada pessoa assuma um compromisso com a vida e certamente vamos experimentar os sinais da ressurreição já e agora. — finaliza.

pastor Reinoldo Glück Neumann, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) de Santa MariaFoto: Divulgação

Para a pastora, teóloga e jornalista Luisa Neves, de 49 anos, da igreja Ame Luz das Nações, a Páscoa é a celebração mais importante do cristianismo, superando inclusive o Natal.

— A Páscoa é a celebração mais importante do cristianismo porque, sem a ressurreição, não haveria fundamento para a fé cristã. A Páscoa já existia e era o momento em que os judeus celebravam a travessia, a passagem no Mar Vermelho. Por isso, Páscoa significa passagem. E foi durante esse período que ocorreram a crucificação e, depois, a ressurreição de Jesus — ela lembra.

Sobre os símbolos populares, como o coelho e os ovos de Páscoa, Luisa afirma que não têm origem bíblica e são elementos culturais. Já o pão e o suco de uva são os elementos utilizados nas celebrações cristãs, presentes regularmente nos cultos.

 — Não tem nenhum contexto bíblico para o coelho e o chocolate. Para nós, cristãos, nós usamos o pão e o suco de uva. Algumas igrejas usam o vinho, que simboliza o corpo de Jesus moído na cruz, e o sangue de Jesus. É assim que nós celebramos a Páscoa: por meio da Santa Ceia e durante todos os meses na igreja cristã protestante — ressalta. 

Apesar disso, a pastora pontua que não há problema no consumo de chocolates nesse período, desde que não substitua o sentido central da data. 

— A igreja entende que esses elementos são culturais; o cuidado está em não permitir que esses símbolos substituam a mensagem central da Páscoa, que é Cristo — explica.

Ela também aponta preocupação com a forma como a data é celebrada atualmente e fala sobre o papel da igreja e das famílias que precisam resgatar o verdadeiro sentido da celebração.

— Vivemos uma realidade em que o consumo fala mais alto do que o significado espiritual. Isso exige da igreja e das famílias um posicionamento mais consciente para resgatar o verdadeiro sentido da data. Às vezes, não queremos abordar o assunto para não virar algo comercial. Por esse motivo, acabamos deixando de ensinar o verdadeiro sentido da Páscoa — finaliza.

Luísa Neves, pastora da igreja Ame Luz das NaçõesFoto: Divulgação

Na doutrina espírita, a Páscoa é compreendida como um processo de transformação interior. O dirigente da Sociedade Espírita Estudo e Caridade - Lar de Joaquina, Jorge Brandão, de 69 anos, explica que o significado da data está ligado à ideia de passagem.

— O real significado reside na palavra ‘passagem’: a transição do homem velho para o homem novo e, primordialmente, da vida física para a espiritual — afirma.

Segundo ele, a Doutrina Espírita não celebra a ressurreição do corpo biológico, mas a continuidade da vida por meio da alma. O aparecimento de Jesus após a crucificação é interpretado como manifestação do corpo espiritual, o que reforça a compreensão de que a morte não encerra a existência.

Para Brandão, a Páscoa é um convite à mudança de atitudes. — É realizar uma ‘viagem interior’, sepultando o egoísmo e o orgulho para que renasçam a caridade e a humildade — explica.

Ele acrescenta que a data reforça a ideia de evolução espiritual. — A Páscoa é a reafirmação de que somos seres imortais em constante evolução, destinados à luz. Que o Cristo renasça diariamente em nossas atitudes e no serviço ao próximo — conclui.

Para a doutrina, símbolos populares como o coelho e o ovo não possuem significado espiritual.

O Dirigente do Lar de Joaquina, Jorge Brandão.Foto: Divulgação

Na Umbanda e Quimbanda, a Páscoa é compreendida como um período de renovação espiritual. 

— A Páscoa representa a renovação da fé ligada à luz e presença de Oxalá. Para as religiões de matriz africana, Jesus Cristo é o sincretismo do nosso Pai Oxalá — afirma a dirigente espiritual Taís Machado, de 48 anos.

Segundo Taís, esse período marca um processo espiritual importante.

 — A Páscoa sinaliza o início da renovação da fé e a conexão com a luz divina, marcando o fim da quaresma, que para nossa religião é vista como período em que energias densas e negativas são liberadas — afirma.

Sobre os símbolos populares, Taís associa os elementos a significados positivos.

 — A imagem do coelho e ovos de Páscoa representa a fertilidade e a prosperidade, onde podemos multiplicar sentimentos positivos como amor, respeito, paz e fé — explica.

Como mensagem final, reforça a importância da fé e do cuidado com o próximo.

— Acredite que podemos ajustar nossas vidas, valorize as coisas boas da vida, porque assim você exercita a fé e o respeito — conclui.

Dirigente espiritual Taís Machado, representando as religiões Umbanda e QuimbandaFoto: Divulgação


*A equipe entrou em contato com a Arquidiocese de Santa Maria para incluir a participação na reportagem, mas, até a publicação desta matéria, não houve retorno.

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