O balanço no tempo: onde a presença embala os sonhos

Daniela Minello

Existe um tempo que não se mede pelos ponteiros do relógio. Ele se revela no instante em que nos permitimos simplesmente estar. É o tempo do balanço. O tempo em que o corpo encontra o ritmo da alma e a respiração acompanha o vai e vem de quem aprende, mais uma vez, a confiar. Sentir o vento tocar o rosto, perceber o friozinho na barriga antes de ganhar altura, fechar os olhos por um instante e deixar que o corpo encontre o seu próprio compasso, tudo isso nos devolve à presença. Não é apenas um movimento. É um reencontro. A cada impulso, o medo nos visita. Mas é ele que nos recorda que ainda desejamos viver intensamente. E viver é aceitar que, para alcançar novos horizontes, precisamos permitir que os pés deixem o chão por alguns instantes.

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Enraizar-se na natureza para alcançar o céu

O balanço ensina um dos maiores segredos da existência, que só alcança mais altura quem possui raízes profundas. As cordas sustentam porque alguém as amarrou firmemente à árvore. A árvore permanece porque suas raízes abraçam a terra. A terra acolhe porque conhece o silêncio dos tempos. Assim também somos nós. Quando nos permitimos balançar, a natureza nos lembra que crescer não significa abandonar nossas origens, mas confiar nelas. O vento não luta contra a árvore; entrelaça-se com ela. O balanço não desafia o tempo; transforma cada segundo em eternidade e verdade. Há uma força invisível que nos embala quando escolhemos respirar devagar, ouvir o canto dos pássaros, perceber o perfume da mata e compreender que fazemos parte da mesma vida que pulsa em cada folha em cada musgo que contorna o balanço. Quanto mais enraizados estamos em nossa essência, mais livres nos tornamos para voar.

Os sonhos que foram embalados pelos colos da vida

Quantos sonhos nasceram enquanto um balanço desenhava círculos de infinito no ar? Quantos desejos foram sonhados entre uma gargalhada e outra, enquanto o vento fazia cócegas na alma? Antes mesmo de existirem balanços presos às árvores, existiram os balanços dos colos. Fomos embalados pelos braços de quem nos amou antes mesmo de compreendermos o mundo. Dormimos ao som de corações que batiam perto dos nossos. Encontramos segurança no movimento suave de quem dizia, sem palavras: “você está seguro.” Depois vieram outros balanços. Os das escolhas, dos: “ei, acorda para a vida”, das mudanças, dos encontros inesperados e das despedidas inevitáveis. A própria vida nos balançou inúmeras vezes. Em alguns momentos com delicadeza; em outros, com a intensidade das tempestades. E, ainda assim, cada movimento nos conduziu para algum lugar onde pudéssemos crescer. Porque todo balanço carrega consigo a possibilidade de um novo impulso quando nos permitimos.

Restaurar a essência para continuar sonhando

Crescer não significa deixar de brincar. Quem sabe, deixar-se balançar, possa ser um convite para sentir novamente o vento no rosto. Precisamos nos balançar outra vez. Precisamos recuperar o frio na barriga que antecede os grandes sonhos. Precisamos permitir que a coragem caminhe ao lado do medo, porque ambos fazem parte da travessia. Os sonhos nos mantêm vivos. São eles que iluminam os dias comuns, renovam nossas forças e nos fazem acreditar que ainda existe um horizonte esperando por nós. Quando nos permitimos viver em estado de presença, descobrimos que restaurar a essência não exige voltar ao passado. Exige apenas voltar para dentro de nós. Que nunca nos falte coragem para subir mais alto. Que possamos ter mais cordas em nossas vidas para pendurarmos nossos próprios balanços em nossas árvores. Aliás, você já plantou uma árvore? Quem sabe seja ali que você possa um dia pendurar o seu balanço? Que tenhamos mais balanços, mais árvores, mais vento no rosto e mais motivos para nos balançarmos. Porque toda vez que a alma aceita ser embalada, ela reaprende a sonhar. E toda pessoa que continua sonhando permanece, verdadeiramente livre e viva.

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