A vida em meias medidas

Daniela Minello

Há palavras que caminham conosco tão silenciosamente que raramente paramos para observá-las. Uma delas é “meia”. Ela está em toda parte. Pedimos meia hora para terminar uma tarefa, prometemos chegar em meia hora, descansamos por meia hora e, curiosamente, quase nunca sabemos exatamente quanto tempo uma meia hora realmente dura. Dependendo da situação, ela pode passar voando ou se arrastar como uma tartaruga cansada. A verdade é que vivemos cercados de metades. Temos meia manhã, meia tarde, meia noite. Dividimos o tempo em partes como se estivéssemos fatiando um bolo imaginário. Talvez porque o inteiro, às vezes, pareça grande demais para ser encarado de uma só vez. Mas será que estamos apenas organizando o tempo ou nos acostumamos a viver em parcelas de nós mesmos?

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A procura da meia laranja

Entre todas as meias que existem, talvez a mais famosa seja a meia laranja. Ela aparece em conversas, músicas, filmes e histórias de amor. Crescemos ouvindo que existe alguém destinado a completar aquilo que nos falta. O curioso é que passamos anos procurando uma metade sem perceber que já nascemos inteiros. Quando acreditamos que somos apenas uma parte, colocamos sobre o outro a responsabilidade de nos completar. E isso é um peso enorme para qualquer relacionamento. Afinal, ninguém consegue carregar duas vidas inteiras nas costas. Talvez o verdadeiro encontro aconteça quando duas pessoas inteiras decidem caminhar juntas. Não para preencher vazios, mas para compartilhar abundâncias. Não para completar, mas para complementar primando pela reciprocidade. Porque amor não é uma operação de remendo. É uma soma generosa entre pessoas que aprenderam a habitar a própria inteireza.

A meia dos pés e os buracos da existência

Existe ainda aquela meia que mora nas gavetas e desaparece misteriosamente na máquina de lavar. Um dos grandes mistérios da humanidade. Quem nunca encontrou uma meia órfã, abandonada, esperando por sua companheira desaparecida? As meias dos pés são curiosas porque trabalham sempre em dupla. Quando uma falta, a outra perde parte do sentido. Talvez por isso elas tenham tanto a nos ensinar. Ao longo da vida também perdemos algumas partes de nós. Deixamos para trás sonhos, projetos, amizades, amores e versões antigas de quem fomos. Em alguns momentos nos sentimos como aquela meia solitária no fundo da gaveta. Mas há uma diferença importante: enquanto a meia perdida raramente reaparece, nós temos a capacidade de nos reconstruir. Podemos costurar rasgos emocionais, reinventar caminhos e reencontrar pedaços esquecidos da nossa própria história.

Quando encontramos nossas partes

A matemática da vida nem sempre segue as regras da escola. Existem pessoas que, ao entrarem em nossas vidas, multiplicam alegrias. Outras dividem conhecimentos. Algumas somam afeto. E há aquelas que nos ajudam a subtrair medos, inseguranças e culpas desnecessárias. Talvez o grande desafio da maturidade seja compreender que não fomos feitos para viver pela metade. Nem metade felizes, metade presentes, metade sonhadores ou metade conscientes de quem somos. Podemos usar a palavra “meia” para marcar o tempo, vestir os pés ou descrever uma fruta dividida ao meio. Mas não precisamos fazer dela um modo de existir. Quando encontrarmos nossas metades perdidas — sejam elas sonhos esquecidos, talentos adormecidos ou afetos negligenciados — que saibamos uni-las novamente. Que possamos somar experiências, multiplicar aprendizados e dividir generosamente aquilo que temos de melhor. E se for para diminuir alguma coisa, que sejam apenas as dúvidas que nos afastam de nossa essência. Porque a vida, quando bem vivida, não cabe em meias medidas. Ela pede coragem para ser inteira.

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