Santa Maria registra queda histórica de homicídios em 2026 e muda perfil dos crimes

Santa Maria registra queda histórica de homicídios em 2026 e muda perfil dos crimes

Foto: Polícia Civil (Divulgação)

Os primeiros cinco meses de 2026 marcam uma redução expressiva nos crimes letais. Foram 21 em 2025 diante de apenas seis no mesmo período deste ano.

Santa Maria vive um momento histórico no campo da segurança pública. Nos primeiros cinco meses de 2026, a cidade registrou apenas seis homicídios, uma queda de 71,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mais do que a redução no número de casos, chama atenção uma mudança no perfil dos crimes: nenhum deles teria relação direta com o tráfico de drogas ou o crime organizado

Até o ano passado, a disputa por pontos de tráfico entre facções eram responsáveis por cerca de 80% dos assassinatos no município. De modo geral, as vítimas são executadas, muitas vezes com vários tiros. A crueldade é estratégica das facções, que usam da extrema violência para "mandar um recado" a seus rivais. 

Neste ano, dos seis crimes, ao menos três teriam motivação passional e um foi resultado de abordagem policial. Os demais seriam resultado de desavenças entre vítima e autor. 

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O cenário inédito é confirmado tanto pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) quanto pela Brigada Militar e por especialistas em segurança pública. A redução dos indicadores já vinha sendo observada ao longo de 2025. No ano passado, Santa Maria registrou 36 homicídios, frente a 66 em 2024, uma queda de 45%.

O delegado titular da DPHPP, Adriano De Rossi, destaca que a cidade chegou a ficar 49 dias consecutivos sem registrar nenhum homicídio, feito repetido duas vezes neste ano.

- A gente está com um número baixo de homicídios neste início de ano se comparado com 2025, que foi bem violento. Mas, além desse dado positivo, chama a atenção que nenhum dos crimes registrados até o momento tem como motivação o crime organizado, o tráfico de drogas principalmente. E um registro positivo foi um mês inteiro, que foi fevereiro, em que não tivemos nenhum registro de morte em Santa Maria - afirma o delegado.


Para o delegado Adriano De Rossi, um dos principais fatores para a baixa no número de homicídios é a remoção de lideranças de facções criminosas para presídios de maior rigor, incluindo módulos de segurança máxima. Isso teria enfraquecido a capacidade de articulação dos grupos criminosos. Foto: Mateus Ferreira (Diário)


Os dados reforçam o cenário positivo. A taxa de homicídios nos últimos 12 meses em Santa Maria é de 8,8 mortes para cada 100 mil habitantes, abaixo do índice de 10 estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como referência de alerta. Nos últimos seis meses, esse índice cai ainda mais, para 2,6.

- São números de país europeu, se a gente for analisar essa taxa de homicídios aqui em Santa Maria - compara De Rossi.


Brigada Militar registra queda regional

A redução não se restringe ao município. O levantamento do 1º Regimento de Polícia Montada (1º RPMon) da Brigada Militar, que abrange 21 cidades da região, aponta queda de 52% nos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) entre janeiro e maio de 2026. O indicador reúne homicídios e outras ocorrências com resultado morte, e sua redução expressiva na região confirma que a melhora nos índices de Santa Maria acompanha um movimento mais amplo de queda da violência letal no interior gaúcho.

No Rio Grande, outras cidades também têm registrado queda nos assassinatos. Com 336 mil habitantes, Pelotas, no sul do Estado, soma sete homicídios de janeiro a maio de 2026. Caxias do Sul, na Serra, tem 12 no mesmo período.   

No geral, o Estado registrou queda histórica de 24% nos homicídios dolosos no primeiro trimestre de 2026, em comparação ao mesmo período do ano anterior.


Lideranças presas e integração policial

Para o delegado De Rossi, a combinação de fatores operacionais explica grande parte da mudança. A remoção de lideranças de facções criminosas para presídios de maior rigor, incluindo módulos de segurança máxima, teria enfraquecido a capacidade de articulação dos grupos.

- Desde que a gente efetuou a prisão deles, essa facção não mais matou em Santa Maria - diz, referindo-se à prisão, em setembro do ano passado, das duas principais lideranças de um dos grupos responsáveis pela maior parte dos homicídios na cidade em 2025.

A alta taxa de elucidação dos casos também é apontada como fator de desestímulo aos criminosos. Em 2025, a Delegacia de Homicídios alcançou mais de 95% de elucidação dos casos e efetuou 60 prisões de suspeitos.

- A partir do momento em que a gente elucida o homicídio e representa pelas cautelares, tiramos esses indivíduos de rua, e isso acaba contribuindo para evitar novos homicídios - informa De Rossi.

O delegado acrescenta, ainda, uma análise sobre a dinâmica entre facções. Em muitos casos, a morte do integrante de um grupo criminosos leva a organização rival e responder também com assassinatos.

- Quando uma facção comete um homicídio, meio que estimula a outra a cometer. Como todas estão aparentemente não mais cometendo esse crime, temos esse cenário atual de baixa nos números - conclui.


Fatores nacionais e estaduais

O professor e especialista em segurança pública Eduardo Pazinato situa os números de Santa Maria dentro de um contexto mais amplo. Segundo ele, o Brasil e o Rio Grande do Sul vêm registrando queda nos homicídios nos últimos anos, e cidades-polo como Santa Maria acompanham esse movimento.

- Existem fatores estruturais relacionados à dimensão demográfica. Temos uma redução da população jovem no Brasil, um envelhecimento da população, e isso reverbera também na prática de homicídios - analisa Pazinato.


Para o professor Eduardo Pazinato da Cunha, não apenas Santa Maria, mas diversas cidades no estado e até mesmo no Brasil vem registrando queda no número de homicídios nos últimos anos. Foto: Arquivo Pessoal (Divulgação)

Integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública há mais de 15 anos, Pazinato cita políticas públicas de enfrentamento ao crime organizado e o programa RS Seguro, do governo estadual, como iniciativas que contribuem para a redução da violência letal. O especialista também aponta uma reconfiguração do poder das facções criminais transnacionais a partir de 2020 como fator relevante.

- Essa nova gramática de atuação transnacional das facções criminais também tem ajudado a coibir homicídios no nível local. Apesar de grupos como o PCC e o Comando Vermelho aparecerem com forte atuação em outros Estados e longe do eixo Rio-São Paulo, não vemos atuação forte deles no Rio Grande do Sul. Aqui, há uma forte estratégia e um trabalho conjunto dos órgãos de segurança no enfrentamento aos homicídios. Isso reflete de forma positiva - avalia.


Novo perfil preocupa: violência doméstica e armas de fogo

Se a queda nos crimes ligados ao tráfico é comemorada, o novo perfil dos homicídios registrados em 2026 acende um alerta diferente. Dois dos seis casos registrados em Santa Maria são classificados como crimes passionais. Eduardo Pazinato aponta que a violência doméstica e as desavenças interpessoais passam a ganhar peso relativo maior nesse cenário.

- Os homicídios que se relacionam a desavenças interpessoais e à violência doméstica intrafamiliar requerem uma atuação focada, diversa daquela que vem pautando o enfrentamento dos homicídios baseados no crime organizado - observa Pazinato.

Na contramão dos dados da redução da violência, o Rio Grande do Sul vem registrando aumento nos casos de feminicídio. Em 2026, houve ao menos 33 casos até maio, contra 30 nos primeiros cinco meses do ano passado.


Santa Maria como referência

O desempenho da cidade não passou despercebido no âmbito estadual. Em reunião mensal com o governador no programa RS Seguro, Santa Maria foi convocada para apresentar suas boas práticas, distinção que, segundo Adriano De Rossi, reflete o trabalho integrado entre as instituições. Para o delegado de Homicídios, o momento é de manutenção da vigilância.

- Os números estão baixos, e a gente segue trabalhando e atento para manter e até baixar mais esses dados - conclui De Rossi.


Distribuição dos casos de 2022 até 2026 ou/ em 2025 e 2026

2022

  • Janeiro: 4
  • Fevereiro: 8
  • Março: 8
  • Abril: 7
  • Maio: 7
  • Total: 34


2023

  • Janeiro: 4
  • Fevereiro: 3
  • Março: 9
  • Abril: 10
  • Maio: 3
  • Total: 29


2024

  • Janeiro: 7 
  • Fevereiro: 9
  • Março: 7
  • Abril: 7
  • Maio: 6
  • Total: 36


2025

  • Janeiro: 7 
  • Fevereiro: 5
  • Março: 5
  • Abril: 1 
  • Maio: 3
  • Total: 21


2026

  • Janeiro: 2  
  • Fevereiro: 0  
  • Março: 2  
  • Abril: 1 
  • Maio: 1
  • Total: 6

Os dados de homicídios em Santa Maria entre 2022 e 2026 revelam uma trajetória de queda consistente, com alguns momentos de instabilidade no caminho. Em 2022, o município registrou 34 homicídios nos cinco primeiros meses do ano, com picos em fevereiro e março, ambos com oito casos, o maior volume mensal de todo o período analisado.

Em 2023, o total no mesmo intervalo chegou a 29 casos, com março e abril sendo os meses mais violentos, registrando nove e 10 homicídios respectivamente. Foi o único ano em que um único mês ultrapassou a marca de dois dígitos.

Em 2024, os números se mantiveram relativamente estáveis, somando 36 casos nos cinco primeiros meses, o maior acumulado do período, sem grandes variações mensais, o que indica uma violência ainda alta, porém, sem os picos extremos dos anos anteriores.

A virada começa a se desenhar em 2025, quando o acumulado de janeiro a maio caiu para 21 casos, com abril registrando apenas um homicídio, o menor número mensal até então.

É em 2026, porém, que a queda se torna maior. Foram apenas seis homicídios nos primeiros cinco meses, com fevereiro encerrando sem nenhum registro, dado inédito na série. Para efeito de comparação, só o mês de março de 2023 teve mais mortes do que todo o acumulado de 2026 até maio. 

A tendência de queda, portanto, não é algo repentino ou inesperado, mas resultado de uma curva que vinha se desenhando nos últimos anos e que em 2026 atingiu seu ponto mais baixo.


Os seis casos deste ano

Leonardo Detetive de Assis Taborda, 30 anos
Foi a primeira vítima de homicídio de 2026 em Santa Maria. O crime ocorreu na madrugada de 4 de janeiro, por volta da 1h, em um apartamento no Residencial Noel Guarany, na Rua Eugênio Mussoi, Bairro Urlândia. A vítima estava com a companheira quando o ex-companheiro dela invadiu o imóvel e efetuou um disparo no rosto. Taborda morreu no local. O suspeito, de 42 anos, fugiu, mas foi preso horas depois pela Brigada Militar.


Paulo José Chaves dos Santos, 35 anos
Morreu na manhã de 13 de janeiro, durante uma ocorrência atendida pela Brigada Militar na Rua Luiz Stoever, no Bairro Tancredo Neves, em Santa Maria. A polícia foi chamada pela família devido a um episódio de violência doméstica. Conforme a ocorrência, o homem estava em surto e teria avançado contra os policiais com um objeto. Um disparo foi efetuado para contê-lo. Ele morreu no local. As circunstâncias são apuradas em inquérito policial militar.


Luiz Fernando Machado de Oliveira, 57 anos
O crime ocorreu no dia 3 de março, após um intervalo de quase 50 dias sem homicídios em Santa Maria, encerrando a sequência iniciada em 13 de janeiro. A vítima foi morta a tiros dentro de uma residência, localizada na Travessa do Chaminé, no Bairro Passo D'areia, em Santa Maria. O caso marcou o terceiro homicídio do ano no município. O suspeito do crime seria ex-companheiro da namorada de Olivera. 


Robson Rodrigo Saldanha Abadi, 44 anos
Foi o quarto homicídio de 2026 em Santa Maria. A vítima, de 44 anos, foi localizada sem vida na Rua Fernandes Vieira, no Bairro Carolina, e o caso foi enquadrado como homicídio após investigação. O corpo foi encontrado no dia 6 de março.

Adolescente de 16 anos
O caso aconteceu no dia 4 de abril e foi a a quinta vítima de homicídio no ano em Santa Maria. O adolescente, 16 anos, foi morto após troca de tiros na Rua Serafim Valandro, no Bairro Rosário, conforme registro policial.


Adolescente de 16 anos

Foi morto na noite de domingo, 24 de Maio, após ser esfaqueado no peito, no Bairro Nova Santa Marta, região oeste de Santa Maria. Os suspeito de esfaquear o adolescente, um jovem de 21 anos, fugiu do local do crime. O adolescente esfaqueado chegou a ser socorrido por familiares e encaminhado ao Pronto Atendimento do Patronato, mas não resistiu e morreu.



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Mateus Ferreira

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