Eduardo Ramos
Você sabe o que significa a abreviação PcD? Já ouviu falar sobre capacitismo? Esses termos, apesar de serem relativamente novos, retratam situações antigas. Pessoas com deficiência ainda enfrentam estigmas e diferentes desafios, como o acesso à educação inclusiva. Atualmente, as adaptações na legislação brasileira e os debates realizados nas redes sociais pautam a inclusão em âmbitos da vida cotidiana, como mercado de trabalho, por exemplo. A Revista Mix deste final de semana, além de apresentar o conceito de capacitismo a partir de pesquisas realizadas na cidade, também conta a história de Vitor Caprioli, conhecido como DJ CAPSM, da trompista Camila Moraes e da estudante de Artes Cênicas Patricia Maciel que encontraram na arte uma ferramenta contra o capacitismo.
O termo PcD significa Pessoa com Deficiência e foi padronizado em 2017 como consequência da Convenção Internacional sobre o Direito das Pessoas com Deficiência, da Organização das Nações Unidas (ONU).
Termos como “pessoa portadora de deficiência”, “portador de deficiência” e “pessoa com necessidades especiais” já foram amplamente utilizados, mas, hoje, não condizem com a realidade das pessoas com deficiência.
Nesse sentido, o projeto de emenda constitucional 25/2017, que substituiu os termos anteriores, atualizou 10 artigos da Constituição.
Afinal, o que significa?
O capacitismo pode ser entendido como todo e qualquer tipo de discriminação e opressão sofrida pelas pessoas com deficiência, de forma a entendê-las como incapazes.
O termo em português é recente e surgiu da tradução da palavra da língua inglesa ableism, que significa discriminar uma pessoa por sua deficiência.
Essas falas ou outros atos discriminatórios que caracterizam o capacitismo geralmente estão centrados no imaginário de que pessoas com deficiência têm limitações e são baseados em conceitos de “normalidade” que, apesar de inaceitáveis, seguem presentes. A lógica capacitista trata os PcDs como pessoas incapazes e inaptas para atividades do dia a dia, como trabalho, administração da própria vida, tomada de decisões e relações sociais.
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A docente do Departamento de Terapia Ocupacional da UFSM Lucielem Chequim da Silva, 36 anos, pesquisa sobre a temática e é autora da tese de doutorado Processo de inclusão de servidores públicos com deficiência e sua repercussão na saúde ocupacional: um estudo sobre a UFSM.
– Quando falamos sobre mercado de trabalho, observamos a manifestação do capacitismo, podendo estar ligada à necessidade do trabalhador com deficiência precisar evidenciar suas potencialidades, provando sua capacidade de desempenho a todo o momento. Outra problemática do trabalho e emprego de pessoas com deficiência diz respeito à seletividade das deficiências na hora da contratação, o que pode ser considerado um ato capacitista dentro do própriocapacitismo – explica a professora.
Capacitismo: um termo novo para uma opressão antiga
A professora aposentada Sonia Messerschimidt, 64 anos, vivenciou uma época em que atos de capacitismo eram normalizados e pouco debatidos, assim como os direitos dos PcDs que eram praticamente nulos:
– A realidade atual é outra, nossa luta pelos direitos iguais foi e é grande. Nosso acesso está mais fácil a tudo pela inclusão e utilização da nossa língua. Muitos surdos sofriam exclusão principalmente no mercado de trabalho. Duvidaram que podíamos realizar as tarefas da mesma forma que os ouvintes, duvidavam se sabíamos ler e, hoje, se percebe um mercado de trabalho mais aberto, com maiores possibilidades de crescimento – afirma Sonia.
Na época, Sonia não podia se comunicar por meio da sua língua (Libras/Língua de Sinais), tanto na escola como em lugares públicos. Além disso, PcDs não podiam prestar concurso e eram consideradas inaptos e incapazes para diversas atividades. A mudança com o passar dos anos é perceptível:
– Hoje percebe-se o interesse das demais pessoas em conhecer a nossa língua, a preocupação de diferentes órgãos em tornar as informações mais acessíveis para nós com a janela de Libras, legendas e outros canais facilitadores.
Questões como políticas de diversidade e inclusão no mercado de trabalho ainda são muito recentes. No Brasil, algumas leis asseguram direitos para as pessoas com deficiência, como a Lei 8.112 e a Lei 8.213/91. A primeira assegura o direito de se inscrever em concurso público cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de que são portadoras, sendo reservadas até 20% das vagas oferecidas no concurso em questão. Já a segunda, garante reserva de vagas para pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho.
As referências nacionais
Em 2021, a odontóloga, empresária e influenciadora digital santa-mariense Fernanda Binato, que precisou amputar a perna direita em 2017, em razão de um câncer no osso, conversou com a Revista MIX sobre o tratamento e o dia a dia de uma pessoa que se tornou PcD.
Com quase 30 mil seguidores no Instagram, Fernanda produz conteúdo bem-humorado sobre a deficiência física e dá dicas de looks, beleza, lifestyle e, claro, saúde.
Assim como a santa-mariense, no Brasil, o Instagram tem sido uma das ferramentas utilizadas por pessoas com deficiência para informar e combater o preconceito e, por consequência, as ideias capacitistas.
A influenciadora Lorrane Silva, conhecida como Pequena Lo, tem mais de quatro milhões de seguidores no Instagram e cerca de cinco milhões no Tik Tok. A humorista não tematiza a deficiência física no conteúdo e prefere brincar com situações do dia a dia.Assim como Pequena Lo, a influenciadora Lelê Martins, conhecida como blogueira PcD, também cria conteúdo sobre moda, humor e reflexões.
Já personalidades como Ivan Baron, Mariana Torquato, Ana Clara Moniz e Lorena Eltz criam conteúdo explicativo e informativo sobre o capacitismo e a inclusão de pessoas com deficiência.
Na segunda parte da reportagem, conheça artistas de Santa Maria que encontraram na arte uma ferramenta contra o capacitismo.
Leandra Cruber, [email protected]
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