Foto: Beto Albert (Arquivo Diário)
A escalada da tensão geopolítica no Oriente Médio e a suspensão das exportações de fertilizantes pela China, anunciada na terça-feira (25), já provocam reflexos no agronegócio brasileiro. Altamente dependente da importação desses insumos, o país enfrenta um cenário de pressão sobre os custos de produção, com impactos diretos para produtores rurais. No região central do Rio Grande do Sul, os efeitos já acendem o alerta entre comerciantes e agricultores.
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De acordo com dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o aumento no preço dos fertilizantes já ultrapassa os 30%. O cenário evidencia uma fragilidade estrutural: em 2025, o país produziu pouco mais de 7 milhões de toneladas, enquanto precisou importar mais de 43 milhões para suprir a demanda interna.
Impactos
Diretor administrativo do Grupo Imexsul, responsável pela Multifértil Fertilizantes em Santa Maria e Rio Grande, Lorenzo Pagliarin explica que o mercado já vinha sendo impactado por crises recentes, como a pandemia e a guerra entre Rússia e Ucrânia, e que o novo cenário intensifica ainda mais a instabilidade.
– Todos esses momentos de tensão acabam repercutindo nas commodities. O fertilizante é uma commodity, assim como o petróleo, então qualquer instabilidade global impacta diretamente na precificação – afirma.

Segundo ele, a decisão da China de restringir exportações, especialmente de fertilizantes à base de fósforo, reduziu a oferta global e pressionou os preços. Como o Brasil importa cerca de 80% a 85% dos fertilizantes que consome, o impacto é ainda mais significativo no mercado interno.
Os aumentos variam conforme o tipo de nutriente. Os nitrogenados, como a ureia, foram os mais afetados, com alta em torno de 60% desde o início do conflito no Oriente Médio. Já os fosfatados acumulam elevação entre 40% e 45% ao longo do ano, influenciados tanto pela guerra quanto pelas restrições chinesas. O potássio, por sua vez, teve aumento mais moderado, entre 10% e 15%.
Apesar das altas expressivas, Pagliarin destaca que os efeitos ainda não chegaram integralmente ao consumidor final.
– Esse aumento vai chegando aos poucos na ponta. Ainda existem estoques comprados anteriormente, mas, como os volumes no Brasil estão baixos, a tendência é que esse impacto apareça de forma mais intensa nos próximos meses – explica.
Preocupação para as próximas safras
A preocupação se estende também ao planejamento das próximas safras. No Rio Grande do Sul, culturas de inverno, como o trigo, devem ser diretamente afetadas, já que demandam maior uso de nitrogênio – justamente o insumo que mais encareceu.

– A conta hoje para o produtor não fecha. A nossa avaliação é de que as áreas de trigo devem diminuir, com migração para outras culturas ou até para pastagens, que exigem menor investimento – projeta.
Além disso, o tempo necessário para importação e distribuição dos fertilizantes agrava o cenário. Todo o processo, desde a compra no Exterior até a chegada ao produtor, pode levar de dois a três meses, o que reduz a margem de reação diante das oscilações de preço.
Visão do produtor
Ao Diário, o produtor rural Roberto Lang (foto abaixo), 37 anos, de São Sepé, que cultiva cerca de 2 mil hectares de soja, avalia com preocupação o cenário de alta nos insumos e a possibilidade de restrição no abastecimento de fertilizantes.

– Se isso se confirmar, vai ser bem complicado. O custo dos fertilizantes já subiu bastante nos últimos meses, e qualquer nova alta pode fazer o custo de produção disparar – afirma.
Diante desse cenário, especialistas alertam que os próximos meses serão decisivos para o comportamento do mercado. Caso não haja recuo nos preços ou normalização da oferta, os reflexos podem se estender também à safra de verão, com impactos na produtividade e, consequentemente, no preço dos alimentos.
Para que servem os fertilizantes
Os fertilizantes são essenciais para a agricultura, pois atuam na reposição de nutrientes do solo e das plantas. Na prática, funcionam como uma espécie de “alimento” para as plantas, fornecendo nutrientes fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento adequado das culturas.
Fertilizantes e relação de aumento
- Nitrogenados - Aumento de 60%
- Fosfatos - Aumento de 40 a 45%
- Potássio - Aumento de 10 a 15%