Parte do ritual da Sexta Feira Santa no Rio Grande do Sul é acordar antes do sol nascer em busca da macela, erva com ganhos medicinais e tida como milagrosa. Nesta manhã (7), o movimento na beira das rodovias começou mais tarde do que o habitual e, somente nos primeiros raios de sol, é que grande parte das pessoas começaram a percorrer os campos até que conseguissem a quantidade desejada para retornar aos afazeres do feriado.
Desde as 5h30min, o motorista Jobeersson Soares, 31 anos, e o estudante Matias Moreira de Lima, 25, percorriam a extensão na Faixa do Rosário, Rodovia BR-158, na colheita da macela, conhecida também como marcela. Sair cedo neste feriado é uma atividade obrigatória há 13 anos para Jobeersson, que, desta vez, foi acompanhado por Matias, que esperava encontrar com mais facilidade a erva medicinal:
– Na verdade, ele já tinha convidado ano passado e este ano acabei acompanhando. Saímos preparado de bota e casaco, já que hoje está mais fresquinho.
Jobeersson (à direita da foto) colhe macela há 4 anos em Santa Maria, desta vez com o amigo Matias
O aposentado Sebastião Soares, 68 anos, estava de passagem com a esposa e um casal de amigos e aproveitaram a viagem do feriado para descer na faixa e colher as macelas, que foram repartidas entre os viajantes. Um costume de três anos.
– A gente colhe pouco. É mais para usar como chazinho. Minha mulher sempre faz para nós dois quando da vontade.
A erva medicinal comumente encontrada nas casas gaúchas é simbólica nesta data, mas dura longos períodos após sua flor secar. Ela é usada para chás, principalmente, quando o objetivo é relaxar ou para uma boa digestão. Há quem a use no chimarrão e até em banhos.
Para o Arcebispo Metropolitano, Dom Leomar Brustolin, o costume da colheita é curioso, já que não há indícios que o liguem ao cristianismo:
– Ninguém entende bem os porquês do costume de colher no amanhecer da Sexta feira Santa. Não existe uma tradição Cristã. É uma tradição bem Regional, gaúcha, e bem localizada que nasceu aqui. Então isso é uma tradição cultural interessante, mas não existe nenhuma conexão com o cristianismo em termos mundiais.
Fabrício Zorzella, 42 anos, motorista, preserva esta tradição na sua família com o filho Otávio, 10 anos. Disposto, com as botas calçadas e bem agasalhado, o companheiro de Fabrício teve sorte na sua primeira colheita, já que conseguiram uma quantidade maior do que no ano passado.
– Meu pai não me acordou. Eu pus o despertador para 5h e fiz meu café. Andamos um pouco até que achamos o local que tinha mais – conta Otávio.