"Tanta vida diferente, tanta gente vem e vai", como canta o compositor santa-mariense Beto Pires em sua música Santa Maria, em homenagem à cidade. Há quem venha com malas cheias de expectativa. Há quem vá com o coração apertado. O Aeroporto Regional Brigadeiro Cherubim Rosa Filho, em Santa Maria, é, talvez, o lugar onde esse trecho da música se mostra com mais naturalidade.
Neste domingo (31), Dia do Aeroporto, o terminal que leva o nome do primeiro comandante da Base Aérea de Santa Maria segue como parte da história da cidade coração do Rio Grande do Sul.
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A história
Segundo a prefeitura, a exemplo do que ocorre em aeroportos das capitais, a ideia era dar um nome ao terminal aeroviário que fosse identificado com a cidade. Assim, pensou-se na possibilidade de homenagear o primeiro comandante da Base Aérea de Santa Maria.
Natural de Sorocaba (SP), Cherubin Rosa Filho nasceu em 11 de setembro de 1926. Ingressou na Força Aérea Brasileira como cadete do ar e, em 1948, foi declarado aspirante a oficial aviador.
Em 1971, foi designado para implantar em Santa Maria um núcleo de base voltado ao desdobramento da FAB no Conesul. Construiu e organizou a Base Aérea, tornando-se o primeiro comandante. Recebeu 18 condecorações ao longo da carreira. O oficial faleceu em Brasília, em maio de 2022, aos 96 anos.

A aviação local
A atividade aérea em Santa Maria teve início em 1933, com um campo de voo no distrito de São Valentim. Posteriormente, as operações foram transferidas para Camobi. O Aeroporto Civil foi inaugurado em 1945. A Base Aérea de Santa Maria (Basm), que compartilha a infraestrutura aeroportuária, surgiu em 1971.
O espaço foi municipalizado em 2015, quando passou a ser administrado pela prefeitura. Hoje, quem enxerga o aeroporto apenas nos dias de voo da Azul (terças, quintas e sábados, com partida à tarde para Porto Alegre) vê só um pouco do que acontece ali. O superintendente Aleques Machado Martins, há 12 anos à frente do terminal, conhece cada canto e história do lugar.
– A gente trabalha com momentos de extrema felicidade, até com alguns momentos mais sensíveis. Sabemos que o aeroporto é um local de encontros e também de despedidas. É muito gratificante trabalhar aqui – diz.
Em 2025, o terminal registrou 1.672 operações aéreas. Dessas, 138 foram de voos comerciais da Azul. A maioria (1.459 operações) é o que Machado chama de aviação geral.
– São aviões de empresários, aviões executivos, transporte aeromédico, transporte de cadáver e enfermo. A produção de cantores, quando há show na cidade, a gente recebe também – explica.
Outras 47 foram missões de salvamento de vida. Vinte e seis empresas da região mantêm aviões baseados no aeroporto. Para essas operações críticas, o terminal não tem horário.
– A gente não tem horário para ser acionado, não tem horário para vir até o aeroporto. Temos uma parceria grande também com o Comando Aeronáutico, porque a nossa pista aqui é compartilhada com eles. Essa parceria proporciona que o Comando abra a pista e a torne operacional durante a madrugada para podermos atender as solicitações de órgãos, cadáveres e enfermos – detalha o superintendente.
Foram momentos assim que deixaram marcas. Machado lembra de uma menina de 5 anos, que chegou ao terminal certo dia junto com o avô.
– Eu não entendi o porquê. Aí, depois, o avô me relatou que a gente tinha trabalhado numa operação durante a madrugada para removê-la em função de um estado crítico de saúde. Um ano depois, ela se recuperou, e o avô fez questão de trazê-la aqui para abraçar toda a equipe do aeroporto. Isso foi muito especial para nós – lembra.
Durante a pandemia, o terminal foi declarado serviço essencial e operou ininterruptamente. Foi também por ali que chegaram as primeiras vacinas da Covid-19 destinadas à região central do Estado.
A equipe fixa é de cinco servidores, com apoio da Guarda Municipal e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
Há alguns anos, o município estuda a modernização do terminal ou a construção de um aeroporto civil, para atrair mais voos, inclusive de aviões a jatos de grande porte com destino às principais capitais. O projeto esbarra no custo, que pode passar de R$ 350 milhões.
Por que só Porto Alegre?
Os voos da Azul conectam Santa Maria somente à capital gaúcha. Fato que, segundo Aleques, liga a cidade ao resto do país.
– A gente costuma dizer que Santa Maria tem ligação com o resto do país em função das conexões que são feitas em Porto Alegre. Cerca de 80% a 85% dos passageiros que embarcam em Santa Maria seguem viagem a partir do Salgado Filho – destaca.
Nem sempre foi assim. O aeroporto já operou rotas diretas para São Paulo, com a empresa Passaredo e, mais recentemente, com a Azul. Mas as conexões foram se perdendo.
– Em função do fechamento da Passaredo, a gente perdeu uma conexão com voo direto para São Paulo. E depois, com a recuperação judicial da Azul, nós perdemos esse voo também – relata Aleques.
A pista atual da Base Aérea só permite pousos e decolagens de aeronaves menores, como o ATR 72, de até 70 lugares, o que torna inviável economicamente voos de longa distância. O prefeito Rodrigo Decimo explica a limitação atual com uma comparação.
– É como ir de Santa Maria a Porto Alegre com uma Kombi versus um ônibus de 45 lugares. O ônibus por pessoa torna a operação muito mais barata. E é isso que acontece com esses aviões menores quando faz uma linha de longo curso como Santa Maria - São Paulo, ela se torna uma operação cara – descreve.
A Azul é hoje a única companhia a operar no terminal. Uma reunião entre a prefeitura e a empresa está prevista para a primeira quinzena de junho, com o objetivo de voltar a carga e solicitar o aumento de voos no aeroporto existente.
Segundo o Secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Ronie Gabbi, a alta de 20% no querosene de aviação, reflexo da guerra no Oriente Médio, ainda pesa nas negociações.
– Logo que a Azul saiu da recuperação judicial, nós tivemos um um sinal positivo para que a gente pudesse aumentar essa malha aérea. Porém, a guerra no Oriente Médio fez com que os combustíveis subissem bastante e como é uma operação muito apertada do ponto de vista financeiro pelo tipo de aeronave que faz esse voo, a companhia resolveu esperar um pouco mais para o cenário se ajustar e ter uma melhora do preço do combustível para que a gente pudesse aumentar esse número de voos. – informa o secretário.
É justamente essa limitação estrutural que coloca o novo aeroporto no centro das discussões e que abre caminho para outra discussão envolvendo essa história.
O novo aeroporto está mais perto do que nunca?
A cidade discute há anos a possibilidade de um novo terminal civil, moderno e capaz de receber aviões maiores. A pista atual, compartilhada com a Base Aérea, comporta apenas aeronaves como o ATR 72, de até 70 lugares. Para reforçá-la, o custo chegaria a R$ 150 milhões, e ainda assim os problemas permaneceriam.
– Estamos reavaliando essa condição de termos um aeroporto exclusivamente civil, porque se identificou que para o reforço da pista da Base Aérea seria necessário investimento de em torno de R$ 150 milhões para fazer somente a pista. E depois temos que atualizar, modernizar e ampliar o terminal. Investimento também na faixa de R$ 30 milhões. Esse investimento nos leva a pensar na possibilidade de se ter um novo sítio aeroportuário – diz o prefeito Rodrigo Decimo.
A conclusão a que chegaram técnicos da Secretaria de Aviação Civil (SAC) e da FAB, em parceria com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), é de construir um novo aeroporto. Já foram analisadas 36 áreas possíveis no município. Dessas, seis foram identificadas como prioritárias, nas regiões oeste, sul e leste da cidade, dentro de um raio de até 43 quilômetros do Centro. A própria Base Aérea também está na lista como opção.
– Para chegarmos onde estamos hoje, o ITA fez vários estudos, hidrológicos, de ventos, de nevoeiro, de fauna, de flora, de migração de aves. Em junho, uma equipe de engenheiros virá a Santa Maria para análises de extração de amostras de solo e sobrevoo com drones para mapeamento das áreas prioritárias. – informa o prefeito.
Depois disso, virão as fases de desapropriação, projeto e licitação, o que deve levar ainda alguns anos. O custo estimado varia entre R$ 250 milhões e R$ 350 milhões, dependendo da topografia do terreno escolhido. Os recursos virão do governo federal. O processo segue um cronograma de 10 etapas, e cinco já foram cumpridas. Uma vantagem independente da localização escolhida: a torre de controle de voo da Base Aérea.
– Esse raio de 43 km é justamente para que a gente possa, em qualquer uma dessas regiões, utilizar a estrutura da Base Aérea – afirma Decimo.
Com um aeroporto capaz de receber aeronaves maiores, a projeção é de dois a três voos diários conectando Santa Maria à região sudeste do país. A expectativa é ter de dois a três voos diários para destinos importantes, como São Paulo, capazes de atender a uma população de cerca de 2 milhões de pessoas.
– Nunca na história tivemos tão avançados para concretizar um sonho em Santa Maria, que é ter um aeroporto civil que possa atender as necessidades de passageiros e também de cargas – assegura o prefeito.
Enquanto o projeto avança, a prefeitura segue negociando com a Azul a ampliação dos voos já existentes.
Transporte de cargas
O novo terminal também abre perspectivas para o transporte de cargas, algo que, pela localização geográfica no centro do Estado, poderia posicionar Santa Maria como ponto de distribuição para todo o Interior. Um exemplo de que isso é possível está a pouco mais de 200 quilômetros da cidade. Na última terça-feira, a prefeitura de Passo Fundo e a concessionária ON8 Concessões apresentaram um projeto de modernização do Aeroporto Lauro Kurtz que prevê investimentos de R$ 36 milhões para ampliar a infraestrutura e viabilizar operações de transporte aéreo de cargas.
O projeto prevê o alargamento da pista do aeroporto, que passaria dos atuais 30 metros para 45 metros. A ampliação permitiria a operação de aeronaves de maior porte, além de ampliar as rotas de passageiros.