Nem nos piores pesadelos, a jovem Josielen Pereira Vieira, 26 anos, poderia imaginar a dor pela qual está passando. Ela é filha de Gelson da Silva Vieira, 63 anos, ciclista que morreu após ser atropelado no viaduto da ERS-509 com a BR-158 no final da tarde do dia 1º de julho. Na tarde desta quarta-feira, ela foi até a Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) da Polícia Civil, que investiga o acidente, para prestar depoimento. Ainda bastante emocionada, ela deu uma entrevista exclusiva para a reportagem do Bei.
Josielen foi até a delegacia a pedido da polícia para se tirar dúvidas sobre a vítima. Os policiais queriam saber como era a rotina de Vieira, se tinha algum problema de saúde e se costumava andar de bicicleta. Aos policiais, ela respondeu todas as perguntas. A jovem conta que funcionários da funerária teriam perguntado se Vieira era atleta.
– Meu pai era uma pessoa extremamente saudável. Ele usava a bicicleta como meio de transporte para se locomover. Há mais de 30 anos, meu pai estava sempre em cima de uma bicicleta. Uma pessoa extremamente cuidadosa, com ele e com os outros no trânsito. Sempre andando devagarinho, sempre se cuidando. Uma pessoa que tinha um físico muito preservado. Até na funerária, perguntaram se ele era atleta. Sempre falamos: “meu pai vai chegar aos seus 90, 100 anos e não vai andar de muleta ou cadeira de rodas” – conta a filha sobre o pai.
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Conforme Josielen, a família está muito abalada com tudo o que aconteceu. Para ela, ficam as boas lembranças de um ótimo pai, avô, irmão e amigo.
– A principal lembrança que a temos dele é que era um cara extremamente amoroso. Meu pai foi presente na nossa vida. Ele fez de tudo pelos filhos e pela esposa. Nós estávamos comemorando que, além dos dois netos que ele já tinha, minha irmã está grávida de novo e, agora, de uma menina – explica Josielen.
Sobre a rotina do pai e seu comportamento no trânsito, ela diz que ele não bebia, que fazia o mesmo trajeto há muito tempo e conhecia toda a cidade.
– Ele trabalhava como pintor, então, andava para lá e para cá. Esse trajeto que ele estava da casa dele até Camobi, ele sempre fez. Isso eu falo muitas vezes, mais de 50, 70 80 vezes. Ele trabalhava de segunda a sábado e, se precisasse, ele trabalhava domingo. Era um trajeto que ele conhecia como a palma da mão dele – diz a filha.
A família contratou o advogado Pedro Barcellos para representá-los ao longo do processo. Ao lado dele, Josielen diz que ela e a família vão em busca de Justiça.
– Eu prometi no leito de morte do meu pai, naquela cama de hospital, que eu ia buscar justiça. Ele não merecia o que aconteceu com ele. O meu apelo, hoje, é por justiça pelo meu pai, pelo avô que ele era, pelo marido que era. Tiraram um cara que era essencial para todos nós – desabafa.
Fuga e juramento
A filha de Vieira lamenta que o motorista do carro, o médico Marcos Sitya, tenha fugido, aos invés de parar o carro e prestar o primeiro atendimento ao pai dela. Ela lembra que, como médico, a obrigação dele é a de salvar vidas. Ela fala das inúmeras irregularidades que o motorista fez.
– Quando a gente ficou sabendo que ele é médico, a dor foi maior ainda, por que quando acontecem coisas assim, os primeiros segundos depois do acidente são os que mais importam para poder salvar alguém. E ele, com todo o conhecimento dos primeiros socorros que tem, poderia ter errado, mas poderia ter pensado que dava para fazer alguma coisa. Ele como médico poderia ter feito alguma coisa pelo meu pai.Ele assumiu essa responsabilidade de não prestar socorro – finaliza.
Vieira deixou a esposa, duas filhas, de 26 e 32 anos, um filho, de 29, e dois netos, de cinco e sete anos.
Inquérito
Desde o dia do acidente, além de Josielen, 10 pessoas foram ouvidas na Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) da Polícia Civil durante a apuração do inquérito policial. Algumas diligências ainda estão sendo feitas, e o inquérito deve ser enviado à Justiça nos próximos dias.
Todas as provas do acidente estão sendo anexadas no inquérito apurado pelos policiais da DPHPP sob a coordenação do delegado Gabriel Zanella. A polícia tenta identificar um casal que estava em um dos carros que bloqueou a passagem do carro do médico durante a fuga. Eles atravessam o veículo e obrigam o médico a entrar no estacionamento de uma farmácia.
– A partir da data da prisão, nós temos 10 dias para remetê-lo ao Poder Judiciário, o que deve ser feito até a próxima segunda-feira – explica Zanella.
Sitya atropelou Vieira na ERS-509, fugiu por mais de 2km e, depois, foi preso. Ele segue na Penitenciária Estadual de Santa Maria (Pesm).
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