Foto: Vitória Sarturi
Aos 18 anos, o estudante João Vítor Escobar da Silva conquistou uma vaga no curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) após uma trajetória marcada pela conciliação entre trabalho, estudos em casa e a rotina escolar na rede pública. Sem frequentar cursinho preparatório, ele utilizou livros doados, videoaulas gratuitas e provas anteriores do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como base para a preparação.
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Aluno do Colégio Estadual Tancredo Neves desde o 1º ano do Ensino Fundamental, onde permaneceu por 12 anos, João concluiu o Ensino Médio em 2025 e foi aprovado já no primeiro processo seletivo via Sistema de Seleção Unificada (Sisu).
Decisão pela Medicina e início da preparação
A decisão de cursar Medicina acompanha João Vítor desde a infância. Ainda criança, ele brincava de médico e simulava aplicar vacinas nos familiares. No início do Ensino Médio, o desejo se fortaleceu quando passou a pesquisar sobre o curso e o alto grau de exigência do processo seletivo. Mesmo diante da percepção de que a aprovação estaria condicionada à realização de cursinhos preparatórios, optou por seguir um caminho próprio.
A escolha profissional também está diretamente ligada à vivência familiar. O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) da irmã, Ana Luíza Escobar da Silva, 6 anos, despertou em João o interesse pela área da saúde e evidenciou a dificuldade enfrentada por muitas famílias para acessar atendimento especializado, especialmente na neuropediatria. A partir dessa experiência, ele passou a projetar uma atuação futura voltada ao cuidado de famílias atípicas, com foco na ampliação do acesso a diagnóstico e acompanhamento.
Sem cursinho, ele organizou a preparação com livros usados e doações, além de videoaulas e conteúdos gratuitos disponíveis na internet, que considera suficientes para cobrir os conteúdos exigidos nas provas.
Rotina intensa entre trabalho, escola e estudos
Durante o período de preparação, João conciliava o trabalho como jovem aprendiz em uma empresa de transporte rodoviário de passageiros no turno da manhã, as aulas à tarde e os estudos à noite e na madrugada. A rotina, marcada por poucas horas de descanso, exigia esforços físico e mental constantes.
Além da carga de trabalho e estudo, o estudante também dividia o tempo com a família. A irmã mais nova, diagnosticada TEA, demanda atenção e acompanhamento contínuos, o que tornava a organização do dia a dia ainda mais desafiadora.
Estratégias de estudo e dificuldades
Entre as principais estratégias adotadas, o estudante destaca a resolução sistemática de provas anteriores do Enem e a revisão ativa dos conteúdos estudados. Ele organizava o estudo por temas, resolvia exercícios e, posteriormente, registrava de memória os principais pontos para reforçar o aprendizado.
A área de Ciências da Natureza foi apontada como a de maior dificuldade inicial, especialmente em Química e Física. Com o tempo, a familiaridade com o modelo da prova e a prática constante permitiram superar parte das limitações.
Descoberta da aprovação e expectativas
A confirmação da aprovação veio de forma inesperada. Quem acompanhava atentamente a divulgação do resultado era a mãe de João, Dilaine de Freitas Escobar da Silva, 40 anos, que trabalha com venda de salgadinhos para festas. Ao perceber que a nota já estava disponível, ela acordou o filho para que vissem juntos o resultado.
– O João estava dormindo. Quando acordei ele e vimos juntos foi muito emocionante. Choramos por mais de meia hora e logo começaram as ligações – relembra.
Nos primeiros momentos, João relata que teve dificuldade em dimensionar a conquista, com a ficha caindo apenas alguns dias depois:
– Parece um sonho sendo realizado. Acho que só vai cair de vez quando eu pisar na faculdade.
Agora, a expectativa se volta para o início das aulas e para a vivência da rotina universitária. O estudante demonstra entusiasmo em relação ao ambiente da UFSM, especialmente pela estrutura do campus e pela proximidade com a área da saúde, espaço que sempre despertou seu interesse.
Para a mãe, a aprovação é resultado de dedicação e persistência. Segundo ela, mesmo nos momentos de insegurança do filho, a orientação sempre foi para confiar no processo e seguir tentando.
Ao deixar um recado para outros jovens que sonham com uma vaga na universidade pública, João reforça a importância de manter o propósito mesmo diante das dificuldades.
– Quando tudo fica pesado, é importante lembrar do porquê se está fazendo isso. Pensar no sonho ajuda a seguir em frente – afirma.
Escola destaca orgulho
Ao retornar ao colégio após a aprovação, João Vítor encontrou um ambiente marcado por emoção e celebração, sendo recebido por funcionários e antigos professores com abraços e palavras de carinho.
O diretor do Colégio Estadual Tancredo Neves, Anderson Hartmann, afirma que a aprovação é motivo de grande satisfação para a comunidade escolar:
– João Vítor é um ponto de motivação. Um aluno que trabalhava, virava noites estudando e nunca deixou de se esforçar.
Segundo ele, embora o mérito seja do estudante, a trajetória reflete o trabalho desenvolvido pela equipe pedagógica ao longo de mais de uma década. A instituição atende atualmente cerca de 1,1 mil alunos, do 1º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, incluindo a Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Manifestação da 8ª Coordenadoria Regional de Educação
A 8ª Coordenadoria Regional de Educação (8ª CRE), com sede em Santa Maria, também se manifestou sobre a aprovação. Em posicionamento institucional publicado nas redes sociais, a 8ª CRE afirmou que a conquista do estudante evidencia o potencial da rede estadual de ensino e reforça o papel da educação pública na transformação de trajetórias pessoais e profissionais.