“Aos 40 anos, me conheci”: atleta será a única a representar Santa Maria no TCB 2026, campeonato nacional de CrossFit

“Aos 40 anos, me conheci”: atleta será a única a representar Santa Maria no TCB 2026, campeonato nacional de CrossFit

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Aos 43 anos, a empresária e atleta Carla Cassel vive um momento que, até pouco tempo atrás, parecia distante. Moradora de Santa Maria, ela conquistou uma vaga na segunda etapa do Torneio CrossFit Brasil (TCB) 2026, uma das principais competições da modalidade no país, e será a única representante do município nesta edição. A classificação, no entanto, é apenas um dos resultados de uma mudança de vida construída depois dos 40, quando decidiu transformar o esporte em propósito, rotina e profissão.

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A vaga veio após uma preparação intensa e em curto prazo. Carla decidiu participar das seletivas faltando cerca de dois meses para a competição e mergulhou em uma rotina de treinos diários, acompanhamento profissional e dedicação integral. A classificação veio após uma sequência de quatro provas online exigentes, que ela repetiu diversas vezes em busca de melhora.

– Era treino, treino, treino. Teve choro durante os treinos, também, porque a gente chega no limite. Foi uma semana muito exaustiva. Quando acabou, a sensação que eu tinha era de que eu passei um ano da minha vida fazendo uma prova por dia – comenta Carla.

Da corrida ao CrossFit

Antes do CrossFit, Carla tinha na corrida sua principal atividade esportiva. O cenário mudou após uma lesão no fêmur, enquanto se preparava para uma meia maratona. A frustração e o bloqueio mental a afastaram das pistas e abriram espaço para um novo começo. O CrossFit surgiu nesse contexto, a partir do convite de uma amiga. O primeiro contato foi suficiente para indicar que ali havia algo diferente, não apenas na dinâmica dos treinos, mas no ambiente.

– Se tornou muito difícil voltar a correr como antes. Era mais mental mesmo, e isso me perturbava. A corrida também é muito solitária. As pessoas seguiam (na corrida) e eu não conseguia acompanhar. Na primeira aula (de CrossFit), eu já me apaixonei. Eu disse: "é, foi para isso que eu nasci". É um esporte que a gente prima pela comunidade, todo mundo se ajudando – conta.

Foto: Bruna Mallmann (Divulgação)

Esse senso de comunidade é um dos pilares do CrossFit e aparece como um diferencial em relação a outras modalidades mais individuais. Dentro dos boxes, o treino costuma ser coletivo, com incentivo constante entre os participantes, independentemente do nível de cada um. Para ela, esse ambiente de apoio e pertencimento foi determinante não só para a permanência no esporte, mas para a forma como passou a enxergar o próprio treino.

A ideia de comunidade presente na modalidade, inclusive, foi um dos motivos que levaram Carla a, mais tarde, a estruturar o próprio negócio: o Vértice CT, localizado em Camobi. O box nasceu com um propósito claro, que extrapola o treinamento físico e se conecta com a experiência que ela própria encontrou no esporte. 

​Na prática, isso se traduz em um ambiente que valoriza a convivência e o apoio mútuo. Segundo Carla, não é raro que alunos frequentem o espaço mesmo fora dos horários de treino, simplesmente para estar ali. A proposta, construída ao longo do tempo, consolidou um senso de pertencimento que ela considera essencial.

– Já aconteceu de alunos virem ao box só para tomar um café, conversar, porque se sentem bem aqui dentro. A energia é boa. Eu quero que as pessoas se sintam acolhidas, à vontade, como se estivessem em casa. Aqui todo mundo se ajuda, todo mundo se conhece, a gente cria uma comunidade de verdade.

"Aos 40 anos, eu me conheci"

A mudança não foi apenas física. Carla relata uma transformação completa de hábitos, rotina e perspectiva de vida, em um período de descoberta e realização, em que passou a ter mais clareza sobre os próprios objetivos. Com acompanhamento nutricional, treinos estruturados e disciplina, deu espaço para uma nova vida: a de atleta, com impactos além do desempenho esportivo. Mais do que evolução pessoal, ela destaca o significado desse processo na fase atual da vida.

– A mudança começou no corpo, depois no sono, depois no meu dia a dia. Hoje, ser atleta é encaixar a vida dentro dos teus propósitos. Não é só treinar, é tudo que envolve. Aos 40 eu me conheci. Descobri o que eu queria fazer. Eu sou realizada profissionalmente, pessoalmente. Não tem felicidade maior do que dizer que eu faço o que eu amo.

A construção dessa trajetória está diretamente ligada ao apoio de amigos e da família. Casada com Juliano e mãe de Beatriz, de 22 anos, e Yasmin, 10, ela encontrou dentro de casa a base para sustentar uma rotina exigente e, ao mesmo tempo, compartilhar o processo. O envolvimento com o CrossFit acabou aproximando todos ainda mais, criando um ambiente em que o esporte passou a fazer parte da dinâmica familiar.

O exemplo também ganhou peso na relação com as filhas, especialmente com a mais nova, que cresceu acompanhando a rotina da mãe e incorporando hábitos ligados à prática esportiva.

– A Yasmin, desde os 5 anos (acompanhando a mãe), começou brincando e hoje treina com os adultos. E eu ouvi das minhas filhas que elas se inspiram em mim, que querem ser igual a mim em relação ao esporte. A Yasmin cuida sozinha da própria alimentação, ela sabe o que tem que comer, sabe da saladinha, sabe da fruta, sabe quando pode comer doce. Então, essas coisas me deixam muito orgulhosa.

Além do impacto dentro de casa, a relação com o esporte também passou a se refletir no ambiente do Vértice. Carla passou a perceber que a própria trajetória se tornou referência para outras pessoas. O processo de transformação, que começou como um desafio pessoal, passou a ter efeito coletivo dentro do Vértice. A criação do box, inclusive, nasce diretamente dessa vontade de impactar outras vidas. A decisão foi compartilhada com o marido ainda no início do processo, quando a ideia ainda parecia distante da realidade que ela vivia até então.

– Quando surgiu a ideia de criar o Vértice, o Juliano perguntou: "mas por que tu quer isso? Tu nunca fez isso na tua vida". E eu respondi sem pensar: "eu quero um lugar onde as pessoas sejam felizes, que se sintam em casa e em família". E ele disse: "então vamos embarcar nessa". Hoje, ver as pessoas chegando aqui, às vezes mal, e saindo leves, felizes, para mim não tem preço. O que mais me move hoje é ver que eu estou inspirando pessoas,são as histórias que eu escuto aqui dentro. 

Carla ao lado do marido e das filhas, Yasmin, 10 anos, e Beatriz, 22. Foto: Filipe de Rosso (Reprodução)


Desafio nacional e novos horizontes

A participação no TCB marca a primeira experiência de Carla em uma competição nacional. Até então, a atleta havia participado apenas de torneios regionais, em menor escala. A decisão de se inscrever, mesmo com pouco tempo de preparação, foi motivada tanto por um objetivo pessoal quanto pelo desejo de levar para a prática o que defende diariamente dentro do Vértice. A classificação veio após uma semana de provas online e um período de expectativa marcado pela oscilação na tabela de resultados. O anúncio oficial, feito por e-mail, foi recebido em casa, ao lado da filha mais nova, em um momento que mistura surpresa e realização.

–  Eu sempre dizia que não era para mim, que eu não ia conseguir. Mas esse ano eu resolvi me desafiar, muito pensando no box, em mostrar pros alunos que a gente sempre consegue, que a gente nunca pode desistir. Quando eu vi o e-mail (de aprovação), eu fiquei paralisada. A Yasmin pulava, gritava ‘tu conseguiu’. Depois, quando eu liguei para a Beatriz, que caiu a ficha, ai eu comecei a chorar. São sonhos.

Agora, a preparação segue em ritmo intenso para a próxima etapa, que ocorre nos dias 30 e 31 de maio, em São José, Santa Catarina. A rotina inclui até três treinos por dia, além da conciliação com a gestão do box. Mesmo diante da exigência, Carla prefere não criar expectativas em relação ao resultado. Única representante de Santa Maria nesta edição do torneio, ela reconhece o peso de levar o nome da cidade para a competição, mas trata a conquista como parte de um processo maior, construído ao longo dos últimos anos.

– Eu vou lá fazer o meu melhor. Não tô criando expectativa nenhuma. Mas eu quero incomodar. Para quem só queria um lugar para as pessoas serem felizes, a gente já vai estar lá representando numa seletiva nacional. O que vier depois disso é lucro.

Vinicius Becker


O que é o TCB

Criado em 2010, o TCB é a principal competição da modalidade no país. A disputa reúne atletas de diferentes categorias, incluindo Elite e Master, e ocorre em etapas, com seletivas online e presenciais até a fase final.

O torneio não oferece vaga direta para o CrossFit Games, competição mundial organizada pela própria marca CrossFit e considerada o principal evento da modalidade. Ainda assim, o TCB funciona como uma das principais vitrines do cenário nacional, reunindo atletas de alto nível e servindo como espaço de projeção dentro do esporte.

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