Foto: Vinicius Becker (Diário)
Ações integradas e baseadas em análise criminal têm contribuído para a redução dos principais indicadores de violência no município, diz comandante.
A integração entre os órgãos de segurança pública, aliada ao uso sistemático da análise criminal e de dados de inteligência, está na base da redução de 45,4% nos homicídios em Santa Maria na comparação entre 2024 e 2025. A avaliação é do comandante do 1º Regimento de Polícia Montada (1º RPMon), tenente coronel Marcus Giovani, que atribui o resultado a uma junção de esforços entre instituições municipais, estaduais e federais, com atuação focada nos pontos mais vulneráveis da cidade.
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Segundo ele, em entrevista ao Bom Dia, Cidade nesta segunda-feira (12), o aumento dos homicídios registrado em 2024 exigiu uma resposta estruturada, baseada no diagnóstico preciso do problema. A partir desse mapeamento, as forças de segurança passaram a empregar os recursos de forma mais racional e direcionada.
— Nós tivemos uma conjugação de esforços bastante considerável. Temos uma integração muito forte em Santa Maria com os órgãos de segurança pública, dentre eles órgãos municipais, estaduais e até federais. Hoje nós fazemos uma análise criminal em cima dos dados de inteligência, que acabam facilitando todas as ações que vão ser desencadeadas — explica.
Mapeamento de áreas vulneráveis e atuação direcionada
O comandante destaca que o trabalho parte da identificação dos locais mais vulneráveis, das dinâmicas criminosas e dos perfis envolvidos nas ocorrências. Esse processo envolve reuniões sistemáticas e levantamento contínuo de dados.
— Fizemos uma análise e reuniões periódicas, sistemáticas, de forma que a gente possa dar uma resposta mais qualificada. Mapeamos os locais mais vulneráveis, quem são as vítimas, quem são os autores e o que está se buscando reduzir — afirma.
Entre as regiões que mais impactaram os índices de homicídio nos últimos anos estão as zonas norte e oeste da cidade. Conforme o comandante, são áreas que cresceram de forma desordenada, concentram grande densidade populacional e carecem de políticas públicas, o que acaba facilitando a atuação do crime organizado, especialmente o tráfico de drogas.
— São regiões mais vulneráveis, onde o crime tem mais acesso. Infelizmente, acabam sendo campos férteis para o tráfico de drogas — resume.
Perfil das vítimas revela relação direta com o tráfico
A análise dos dados também evidencia um padrão entre as vítimas de homicídio. De acordo com Giovani, cerca de 70% das vítimas tinham envolvimento com o tráfico de drogas, e entre 90% e 100% possuíam antecedentes policiais.
— São pessoas que vêm de comunidades vulneráveis e acabam sendo cooptadas pelo tráfico, principalmente jovens. Infelizmente, também acabam sendo vítimas desse tipo de ocorrência — afirma.
Essas informações, segundo ele, são fundamentais para orientar tanto o policiamento ostensivo quanto o trabalho investigativo da Polícia Civil e as ações do sistema prisional.
RS Seguro e reuniões periódicas fortalecem estratégia
O comandante ressalta que Santa Maria integra o programa RS Seguro, o que garante acompanhamento permanente dos indicadores de criminalidade. No âmbito estadual, as reuniões ocorrem mensalmente e envolvem o governador, o secretário da Segurança Pública e as chefias das forças vinculadas à pasta. No plano local, também há encontros mensais e reuniões por Regiões Integradas de Segurança Pública (Risp), organizadas por quadrantes da cidade.
Além disso, a Brigada Militar realiza avaliações semanais internas para ajustar o planejamento.
— Toda semana a Brigada Militar faz uma avaliação da semana anterior, identificando pontos de atenção e o que pode ser feito de forma integrada com os outros órgãos — explica.
Essas ações resultam em operações conjuntas frequentes, especialmente para coibir delitos como perturbação do sossego público e furto de fios e cabos, que contam com apoio de secretarias municipais, fiscalização de trânsito, Corpo de Bombeiros e monitoramento por câmeras do Centro Integrado de Segurança Pública (Ciosp).
Queda também em roubos e crimes patrimoniais
Além da redução expressiva nos homicídios, outros indicadores criminais também apresentaram queda significativa. Entre os principais dados, estão:
- Roubo a pedestres: redução de 28%
- Roubo de veículos: queda de 17%
- Roubo a estabelecimentos comerciais, financeiros e de ensino: redução de 45%
— São dados importantíssimos que trazem um panorama da segurança pública em Santa Maria, especialmente em crimes que impactam diretamente a comunidade — destaca o comandante.
Furto de fios segue como desafio permanente
Apesar dos avanços, o furto de fios e cabos permanece como um problema recorrente. Segundo Marcus Giovani, esse tipo de crime está diretamente ligado ao consumo de drogas e à receptação em recicladoras, formais ou clandestinas.
— É uma ocorrência que está ligada ao consumo de entorpecente. Muitas vezes, o material furtado é trocado por droga. Por isso, damos atenção especial às recicladoras, inclusive com apoio de outros órgãos e do Batalhão Ambiental — explica.
Ele reconhece que o combate é contínuo e complexo.
— É como enxugar gelo. Quando se combate de um lado, aparece outro ponto da cidade. Mas essas recicladoras estão no radar da polícia — afirma.
Questionado sobre episódios de violência que chegaram a impactar a rotina escolar no Bairro Diácono João Luiz Pozzobon, o comandante afirmou que a situação foi controlada após uma série de prisões e apreensões.
— Foi uma disputa por ponto de tráfico de drogas. Conseguimos debelar a ação com várias prisões, apreensões de armamento e entorpecentes, e isso permitiu que a Polícia Civil avançasse na investigação — relata.
Ele reforça a importância das denúncias da comunidade, mesmo de forma anônima, para que as forças de segurança consigam agir com rapidez e eficiência.
Por fim, Marcus Giovani reconhece que o efetivo da Brigada Militar em Santa Maria está abaixo do previsto, com um déficit em torno de 40%, uma realidade que se repete em todo o Estado. Ainda assim, ele afirma que o uso de tecnologia, inteligência policial e análise de dados permite otimizar o emprego dos policiais.
— Nós utilizamos a ciência, a tecnologia e a inteligência policial para colocar o policial de forma pontual onde o delito está acontecendo — afirma.
Nesse contexto, o comandante reforça a importância do registro de ocorrências por parte da população.
— A polícia carece da informação da população. Mesmo ocorrências de menor valor precisam ser registradas, porque é a partir desses dados que conseguimos dar uma resposta qualificada e retirar infratores de circulação — conclui.
Acompanhe a entrevista completa