Foto: São Braz (Divulgação)
Depois de apreendida, parte da carne é destinada aos animais do Zoológico São Braz
As operações realizadas pela Polícia Civil e pela Coordenadoria de Fiscalização de Alimentos (Cofali), da prefeitura de Santa Maria, resultaram na apreensão de 2.168 quilos de carne imprópria para consumo humano entre janeiro e julho deste ano no município. Na região, Itaara e Restinga Sêca também registraram ações semelhantes nos últimos meses.
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As fiscalizações ocorrem em açougues, supermercados, distribuidoras, frigoríficos e outros estabelecimentos que comercializam produtos de origem animal, seja por meio de operações de rotina ou a partir de denúncias encaminhadas aos órgãos responsáveis.
Segundo a Superintendência de Vigilância em Saúde, são considerados impróprios para consumo alimentos com prazo de validade vencido, armazenados de forma inadequada, sem inspeção sanitária, sem identificação de origem, com sinais de deterioração ou provenientes de abate clandestino.
A apreensão mais recente ocorreu em 15 de julho, quando uma operação da Vigilância Sanitária Municipal resultou na prisão da proprietária de um açougue localizado no Bairro Passo D'Areia. No estabelecimento, foram apreendidos mais de 100 quilos de produtos impróprios para consumo.
“As pessoas acreditam que não tem consequências”
Ao Diário, o delegado regional da Polícia Civil em Santa Maria, Sandro Luis Meinerz, explicou que as irregularidades mais recorrentes envolvem comerciantes que compram carne de origem clandestina por um valor muito abaixo do mercado para revendê-la com lucro e pessoas que realizam abates sem inspeção sanitária, muitas vezes em propriedades particulares ou estruturas irregulares, evitando os custos exigidos para cumprir as normas legais.
Segundo o delegado, a principal motivação para esse tipo de crime é a busca pelo lucro, aliada à falsa percepção de impunidade.
– As pessoas acreditam que não tem consequências. Acreditam que tudo passa e esse é o problema. A cultura das pessoas de fazerem as coisas erradas e também algumas que não querem gastar e fazem de forma ilícita, colocando em risco a saúde dos consumidores.
Como funcionam as operações
As ações são realizadas de forma integrada entre a Coordenadoria de Fiscalização de Alimentos (Cofali) e a Polícia Civil. Cabe à Cofali realizar a avaliação técnica e sanitária dos estabelecimentos, verificando condições de armazenamento, conservação, procedência, validade dos produtos e cumprimento da legislação sanitária.
Já a Polícia Civil atua na investigação de possíveis crimes, presta apoio durante as fiscalizações e conduz os procedimentos policiais quando são constatadas irregularidades.
Além das carnes, as equipes também fiscalizam embutidos e outros alimentos de origem animal. Nas inspeções, são verificadas, por exemplo, as temperaturas dos equipamentos de refrigeração, o prazo de validade dos produtos e as condições de armazenamento, já que qualquer irregularidade pode comprometer a segurança dos alimentos.
Segundo a Vigilância Sanitária, o objetivo das operações é proteger a saúde da população, prevenir doenças transmitidas por alimentos e combater o comércio irregular.
Consequências judiciais
Quando são constatadas irregularidades, os estabelecimentos podem ser alvo de diferentes medidas administrativas, conforme a gravidade da situação. Entre elas, estão notificação, auto de infração, apreensão dos produtos e, nos casos em que há risco à saúde pública, interdição parcial ou total do local.
Além das sanções administrativas, os responsáveis podem responder criminalmente. Em caso de condenação, também ficam sujeitos às penalidades previstas na legislação. Paralelamente, a Vigilância Sanitária aplica multas administrativas e os inquéritos policiais podem ser encaminhados ao Ministério Público, que poderá ajuizar ações civis públicas para responsabilizar os envolvidos e buscar a reparação dos danos causados à coletividade.
O que acontece com a carne apreendida?
Depois de apreendida, parte da carne ganha um novo destino: alimentar os animais do Zoológico São Braz, localizado na zona rural de Santa Maria. Antes de chegar aos recintos, todo o material passa por uma triagem. Carnes temperadas ou produtos que não podem ser utilizados na alimentação animal são descartados. Já os cortes adequados são separados, pesados e armazenados em freezers específicos para cada grupo de animais.

Segundo a gerente do São Braz, Silvia Machado, a carne apreendida representa um importante complemento para a alimentação dos animais.
– Toda apreensão de carne que é destinada é importante para conseguirmos completar na nutrição dos onívoros e dos carnívoros, que atualmente temos um gasto mensal em média de 30 quilos diários.
O zoológico também recebe mensalmente mais de cinco toneladas de frutas e verduras doadas por uma rede de atacarejo, além de frutas fornecidas por uma distribuidora.
Conforme a direção do espaço, a principal limitação atualmente é a falta de uma câmara fria, o que impede o armazenamento de grandes volumes de carne quando ocorrem apreensões maiores. Em situações em que a quantidade apreendida ultrapassa a capacidade de armazenamento do zoológico, o restante é destinado para uma fábrica de rações da cidade.
Quais os riscos para a saúde?
Para o nutricionista Nícholas Doviggi Meyer, mestre e doutorando em Saúde Materno Infantil pela Universidade Franciscana (UFN), carne imprópria é aquela que perdeu as condições sanitárias necessárias para o consumo.
Segundo o especialista, nem sempre é possível identificar a contaminação apenas observando o alimento:
– Percebemos que a carne não está própria para consumo por alguns sinais, como alteração na cor, cheiro forte e desagradável, textura viscosa ou pegajosa e, nos casos mais graves, presença de bolor. No entanto, nem toda carne contaminada apresenta mudanças visíveis e ainda assim pode conter microrganismos capazes de causar doenças.
Os principais riscos são intoxicações e infecções alimentares.
– O consumo de carne imprópria pode causar náuseas, dor abdominal, febre, vômitos e diarreia, podendo levar à desidratação. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com imunidade baixa apresentam maior risco de desenvolver complicações graves – afirma Meyer.
Em casos mais severos, a infecção pode exigir internação hospitalar.
Como o consumidor pode se proteger
A orientação da Vigilância Sanitária é que o consumidor observe:
- condições de higiene do estabelecimento;
- refrigeração dos produtos
- data de validade;
- procedência da carne;
- presença do selo de inspeção sanitária.
Como denunciar
Em caso de suspeita de irregularidades, denúncias podem ser registradas na área de Serviços do site da prefeitura de Santa Maria, na opção Denúncia – Vigilância em Saúde.
Contato da Polícia Civil: 197 ou (55) 98454-1004 (WhatsApp/Telegram)
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