Entre novelas, futebol e reuniões de família: a história da santa-mariense que chegou aos 107 anos com lucidez e bom humor

Entre novelas, futebol e reuniões de família: a história da santa-mariense que chegou aos 107 anos com lucidez e bom humor

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A voz já não tem a mesma força de antes. A audição também ficou mais limitada com o passar do tempo. Ainda assim, basta alguns minutos ao lado da aposentada Rosa Joana da Silva Gracioli para perceber que a lucidez, a personalidade forte e o bom humor seguem intactos aos 107 anos. Sentada na sala da casa onde vive há mais de cinco décadas, no Bairro Medianeira, em Santa Maria, ela acompanha a movimentação da família, comenta sobre futebol, fala das novelas e faz questão de estar sempre bem arrumada.

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Nascida em 26 de abril de 1919, no distrito de Três barras, interior de Santa Maria, Rosa atravessou mais de um século de transformações. Vivenciou guerras, mudanças políticas, evoluções tecnológicas e viu a cidade crescer. Casada duas vezes e viúva há 33 anos, construiu uma grande família: teve quatro filhos — três vivos atualmente, além de 10 netos, 18 bisnetos e dois trinetos que estão a caminho.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Quem hoje acompanha de perto a rotina dela é o filho mais novo, Admar da Silva, 66 anos. Ex-garçom aposentado, ele decidiu voltar a morar com a mãe há cerca de 10 anos, após uma separação. O que começou como uma tentativa de ajudá-la acabou se transformando em uma convivência diária marcada por cuidado, parceria e carinho.

– Eu nunca imaginei que ia cuidar dela nessa idade. Mas aconteceu naturalmente. Voltei para morar com ela e fiquei. Hoje eu faço tudo: comida, limpeza, banho e organizo a casa. Ela não dá trabalho. Conversa bem, entende tudo, tem uma cabeça muito boa ainda – conta.

A rotina da casa é tranquila e organizada. Rosa acorda mais tarde, toma café, almoça, acompanha programas de televisão e tira cochilos durante a tarde. À noite, a novela é compromisso quase obrigatório.

– Depois do almoço, ela gosta de descansar. Aí chega a hora da novela e ela já quer ficar ligada na televisão. E no inverno ainda pergunta por que eu não levantei cedo. Ela acorda e me chama: “Nenê, não vai levantar hoje?” – diverte-se o filho, chamado pelo apelido de infância até hoje.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Paixões

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Mas existe um assunto capaz de mexer ainda mais com Rosa: futebol. Gremista apaixonada, ela acompanha os jogos do time sempre que consegue e não abre mão de torcer. Entre os jogadores preferidos, está o uruguaio Luis Suárez e o ex-zagueiro Geromel.

– Se o Grêmio joga e eu não aviso, ela reclama. Ela torce mesmo. Antes discutia muito por futebol. Hoje está mais calma, mas continua fanática – conta Admar.

O amor pelo clube atravessa décadas e está estampado nas paredes da casa onde vive. Até a colcha estampa o brasão do Tricolor. Segundo a família, Rosa chegou a ir ao antigo Estádio Olímpico, em Porto Alegre, muitos anos atrás. Agora, o filho sonha em conseguir levá-la até a Arena.

– Eu queria muito levar ela lá. O problema é a viagem longa, porque ela já sente um pouco por ficar muito tempo sentada. Mas seria um sonho.

Vaidosa desde sempre, Rosa também mantém outro hábito que não abandonou com a idade: o cuidado com a aparência. Mesmo com dificuldades de visão, gosta de saber se o cabelo está bonito, se a roupa combina e mantém as unhas sempre pintadas.

– Ela gosta de estar bem arrumada. Tem sobrinha que vem fazer unha e cortar cabelo. Ela pergunta toda hora se está bonita. Sempre foi muito vaidosa – diz o filho.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


A alimentação simples também chama atenção. Frutas, sopa, arroz com galinha e pouca comida industrializada fazem parte do cardápio. Aos domingos, o churrasco em família costuma ser acompanhado de um pequeno copo de cerveja para “abrir o apetite”, como explica Admar.

– Ela gosta de uma cervejinha de vez em quando. Bem pouquinho. Sempre gostou de reunir a família. Domingo é dia de churrasco.

Família

Fotos da festa de 100 anos de RosaFoto: Vinicius Becker (Diário)

O filho acredita que parte da longevidade da mãe esteja justamente nos hábitos simples e na forma leve como ela levou a vida. Rosa fumou durante anos, mas abandonou o cigarro por volta dos 50 anos. Hoje, toma apenas remédios para pressão.

– Ela sempre foi forte. O primeiro período mais longo no hospital foi quando quebrou o fêmur depois de uma queda. E mesmo assim todo mundo adorava ela lá.

A internação acabou marcando ainda mais a relação da família com a idosa. Admar passou 11 dias ao lado da mãe no hospital, incluindo o Natal e o Ano-Novo.

– Os enfermeiros chamavam ela de “vovó Rosa”. Todo mundo conhecia ela. Foi um período difícil, mas ela enfrentou muito bem.

No último aniversário, celebrado em abril, mais de 100 pessoas passaram pela comemoração organizada pela família. A festa teve música ao vivo, telemensagem, churrasco e reencontros. Entre tantas histórias acumuladas em mais de um século de vida, Rosa segue cercada por cuidado e afeto. Em meio às conversas na sala, aos jogos do Grêmio e às novelas do fim da tarde, ela mantém viva uma rotina simples — e profundamente significativa para quem convive com ela.

– É muita história para contar – resume Admar.

Quando questionada sobre o segredo da idade, ela diz:

– Quer o meu segredo para contar para o povo? O que posso dizer? Comer pouco, beber pouco e não fumar. Isso é o principal para uma pessoa ter saúde. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)



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