pós-pandemia

VÍDEO: quais as heranças que o chamado 'novo normal' deixa para a sociedade

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Foto: Foto: Renan Mattos (Diário)

Foto: Renan Mattos (Diário)

São mais de quatro meses desde que Tedros Adhanom, diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou que a contaminação geográfica causada pelo Sars-Cov-2 havia tomado proporções que classificavam a doença como pandemia. Desde então, o mundo vive de incertezas a respeito do futuro. Especialistas estudam os fenômenos gerados nos mais variados campos científicos e tentam prever um cenário que permita o mínimo de planejamento para os próximos anos. A resposta que todos tentam elaborar é para a mesma pergunta: como será o mundo pós-pandemia?  

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A repercussão da pandemia vai do comportamento social aos valores, passando pela economia, educação e padrões de higiene. Para o sociólogo e pesquisador do IPEA Lizandro Lui, é possível antever alguns impactos. Um deles é o aperfeiçoamento do trabalho das equipes de vigilância sanitária:  

- O que se viu é que a China, durante todo o mês de dezembro, havia surtos aqui e ali, mas o país só vai notificar a OMS de um surto epidêmico no final de 2019, e a OMS só decreta pandemia em março. Esse aprendizado de vigilância epidemiológica vai passar a ser mais acurado. Talvez todos os municípios, estados, departamentos de Estado vão passar a ter equipes para uma fiscalização maior de surtos epidêmicos.  

Outro prognóstico do sociólogo é que os cenários urbanos brasileiros se pareçam mais com os do Japão antes da pandemia. É que a máscara tende a se tornar um item comum para evitar a contaminação por outros vírus.  

- No oriente, as pessoas já usavam máscara no metrô de Tóquio. Talvez a máscara passe a ser um utensilio do brasileiro, quando as pessoas estiverem gripadas. O álcool gel também vai ter em todo lugar, acredito - aposta Lui.  

Entre as piores consequências e com reflexos mais imediatos, o sociólogo e pesquisador elenca o incremento nos índices de pobreza, desemprego, fechamento de empresas, e de pessoas na informalidade:  

- Esses reflexos vão durar alguns anos e gerar uma realidade de aumento de desigualdade social. Talvez em cidades como Santa Maria, assim como Brasília, onde moro, não se note isso de forma tão aprofunda, por concentrar muitos servidores públicos, que vão seguir consumindo. Mas, no país, os impactos serão grandes.  

Foto: Renan Mattos (Diário)
Romeu perdeu o emprego com carteira assinada e entrou para uma das estatísticas que tende a permanecer depois da pandemia

DESEMPREGO 
O presidente da União das Associações Comunitárias de Santa Maria (UAC), Rodrigo de Lima dos Santos, certifica o prognóstico do especialista ao afirmar os gráficos de pesquisas e estatísticas são vistos na realidade dos bairros. Uma das preocupações é a economia do comércio periférico, cuja clientela é local e perdeu renda. Segundo ele, os trabalhadores da cidade moram nas comunidades, onde já é possível perceber um nível de desemprego acentuado.   

- Sabemos de empresas que demitiram 50 funcionários e isso atinge em cheio a classe comunitária e trabalhadora na periferia. Uma das consequências é que as empresas nos bairros vão sentir esse reflexo, porque ninguém sai do centro para comprar no mercadinho da vila - avalia.  

Romeu Sikacz (foto acima), 57 anos, é parte dos gráficos crescentes de desemprego. Ele trabalhava no setor de pós-venda de uma empresa de tecnologia com funcionários em todo Estado. Nas reuniões de equipe, os gestores já vinham informando os colaboradores sobre o risco de demissões por conta da queda de arrecadação. Em maio, quando estava completando um ano de empresa, Romeu recebeu a notícia da demissão.   

- Eles diziam que estavam se empenhando, mas que não tinham alternativas, pois havia reduzido clientes e tinham de cumprir compromissos com fornecedores. Eu sabia que sempre estoura no trabalhador. Numa empresa que tem 700 funcionários, as pessoas são um número. Eles não querem saber se a gente está com problemas em casa. Eles eliminam um número e a solução dos problemas é essa - lamenta Romeu.  

Em meio à crise mundial, sem emprego, Romeu ainda teve que lidar com a perda da filha de 30 anos, que não resistiu à luta contra a leucemia. Há quatro anos já havia perdido a esposa, que também enfrentou um câncer. Hoje mora com o cachorro e tenta, por meio da sua rede de contatos, por agências de empregos e empresas, a recolocação no mercado de trabalho. Para segurar o orçamento do mês, sobrevive de economias e do seguro-desemprego.  

- Quando minha esposa era viva eu tinha medo de perder o emprego. Depois pensava que se acontecesse, tudo bem. Mas o momento hoje é diferente. Escuto pelo noticiário o grande número de demissões. É um período de incertezas - constata. 

Crenças, valores e relacionamentos podem ganhar novos contornos  
O novo coronavírus tocou todos os aspectos da sociedade, mesmo os mais subjetivos. Os efeitos da covid-19 e suas consequências na saúde mental vêm sendo estudados ao redor do mundo. A partir da experiência clínica, a psicóloga Suane Faraj observa que o distanciamento social tem exigido adaptações, provocado privações e instituído novas maneiras de estabelecer relações sociais. Para Suane, para que os laços se mantenham com o distanciamento, as relações precisam de investimento.    

Conforme a psicóloga, situações de crise, como a pandemia, provocam reflexões capazes de impactar relações sociais, crenças e valores. Se antes do isolamento social, o retrato das reuniões físicas imprimia a imagem de interações mediadas pela tela do celular, o mundo pós-pandemia promete um resgate das trocas olho no olho.  

- O cenário antes da pandemia estava sendo marcado pelo uso da tecnologia. As relações afetivas estavam cada vez menos presentes, em especial na vida de muitos jovens. Muitas pessoas estavam se sentindo solitárias. Acredito que este é um momento para repensar estas situações, estas vivências e também evoluir como pessoa e como sociedade - declara a psicóloga.  

A profissional também acredita numa tendência em fortalecer os valores como empatia e solidariedade e em questionar as relações e o consumo:  

- A partir da minha experiência profissional, acredito que momentos significativos como o que estamos vivendo têm um potencial de questionar os nossos valores e as novas crenças, pois nada está garantido e tudo depende da gente e isso tem uma potência transformadora.  

Outro efeito dos períodos de crise, segundo a psicóloga Suane Faraj, é a revisão dos padrões de consumo. Ela salienta que a pandemia é um "estressor comum" a todos que vivem o momento, mas a maneira como as pessoas são impactadas difere conforme a vulnerabilidade social, a rede de apoio, a fase de desenvolvimento, os recursos psíquicos, a cultura, entre outros. Por isso, o significado da pandemia varia para cada um.  

COMEMORAÇÃO RESSIGNIFICADA
Nicoly Jacobsen de Freitas (foto), 15 anos, faria uma grande festa para comemorar a data emblemática em 18 de abril. Com a pandemia, os planos chegaram a ser adiados para setembro, mas a corrida das autoridades de saúde para frear a escalada das mortes manteve o isolamento no país, e a festa foi remarcada para abril de 2021, quando Nicoly completará 16.   

Foto: Divulgação (Hendril Freitas)
Com festa de 15 anos adiada em 2020, Nicoly quer simplificar cerimônia e reduzir convidados para celebração no ano que vem

Pouco mais de quatro meses de isolamento social foram suficientes para que a adolescente se desse conta de que a pompa da festa dos sonhos, se distanciava do que realmente importava: estar com quem se ama.  

- Antes, queria a festa com tudo certinho, horários marcados para entrada, dança, etc. Hoje penso que não quero passar tanto tempo com a cerimônia, quero mais tempo dançando, me divertindo, comendo com minha família e meus amigos - diz.  

Outro ponto que mexeu com a percepção da jovem tem a ver com as relações sociais. Sem a convivência diária com amigos, colegas e parentes, alguns se afastaram. Assim, a lista de convidados, que seria de 120 pessoas, tende a encolher, segundo Nicoly:  

- Muitas pessoas que eu sentia que eram importantes, que sempre estiveram comigo, e que estariam comigo mesmo com a distância física, nessa quarentena não falaram muito comigo, não perguntavam como eu estava. Já pessoas que não eram próximas começaram a se mostrar mais presentes nesse período. Aí me dei conta que muitos eram só "conhecidos", não eram amigos de fato.  

CONSUMO CONSCIENTE
Carmen Loureiro (foto acima), 42 anos, é técnica em Radiologia e técnica em Administração. Durante a pandemia, ela perdeu o emprego com carteira assinada em uma revendedora de veículos, por conta da crise, e teve de repensar o orçamento da casa, onde vive com a mãe Marfiza, 71 anos.   

- Reduzi tudo o que podia, consumo de energia e de água, compras desnecessárias, como calçado, roupa, alguma alimentação. Como a gente não pode passear, viajar, isso também acabou sendo reduzido - conta.   

Foto: Pedro Piegas (Diário)
Carmen reduziu despesas em casa e pretende manter cortes mesmo quando a economia se restabelecer

Além de reorganizar os gastos, como parte de um bom planejamento, pensou em uma forma de obter receita. Carmen abriu um pequeno centro de estética em casa:   

- A pandemia veio num momento que ninguém esperava, e está fazendo revoluções nas famílias. Acabei perdendo emprego com carteira assinada e desenvolvi centrinho de estética aqui em casa. Faço escova, tratamento de pele, etc. Estou aprendendo a me reinventar e driblando essas dificuldades financeiras.  

Para ela, as lições da crise serão aproveitadas no futuro. Envolvida em causas solidárias, Carmen passou a valorizar mais o amor e o afeto e percebeu que é possível viver com menos.  

- Acho que vou manter todas as práticas mesmo depois que a pandemia passar. Adotar o consumo consciente em pequenos gestos como gastar todo produto para ir comprar outro, é um estilo de vida mais saudável e que faz bem para a gente e para o meio ambiente. 


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