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'Talvez, o maior desafio ainda esteja por vir', diz secretária de Educação de Cruz Alta

Elizabeth Fontoura Dorneles fala sobre os desafios do ensino frente à pandemia

Foto: Foto: Prefeitura de Cruz Alta


Foto: Prefeitura de Cruz Alta (Divulgação)

Quando assumiu a Secretaria de Educação de Cruz Alta, há três anos e cinco meses, a professora Elizabeth Fontoura Dorneles não imaginava que teria de enfrentar o desafio pelo qual passa agora, durante a pandemia do novo coronavírus. Assim como no país inteiro, as aulas estão suspensas no município, que tem cerca de 60 mil habitantes. Doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela lança mão da experiência em gestão educacional, como reitora de Universidade de Cruz Alta (Unicruz) de 2008 a 2013, para pensar maneiras de solucionar o drama da suspensão das atividades escolares. 

Diário - A partir de que dia, exatamente, a educação municipal interrompeu as aulas presenciais em Cruz Alta? 

Elizabeth Fontoura Dorneles - Em 16 de março, deliberamos que iríamos paralisar as aulas em 19 de março. Comunicamos a decisão às famílias, e, a partir daquela data, as crianças receberam as primeiras atividades domiciliares.

Diário - Que formato de ensino tem sido usado pela Secretaria durante a pandemia? 

Elizabeth - Todas as crianças estão recebendo tarefas para fazer em casa. A denominação não é exatamente de "Ensino a Distância", tendo em vista que essa modalidade está autorizada somente para o Ensino Médio e Superior. A rede municipal de educação de Cruz Alta atende Educação Infantil e Ensino Fundamental. Da pré-escola ao 9º ano, todos os alunos recebem atividades domiciliares.

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Diário - As atividades realizadas em casa contam como dias letivos? 

Elizabeth - Nossa preocupação, desde o primeiro dia de paralisação, foi manter o contato das crianças tanto com o conhecimento quanto com os professores, nesse caso visando, também, o vínculo afetivo.

Por conta disso, eles recebem atividades domiciliares desde o início da pandemia. Porém, o prolongamento do período de paralisação e o posicionamento do próprio Conselho Nacional Educação, que emitiu parecer favorável ao aproveitamento dessas atividades, nos faz entender que essa poderá ser uma solução para não perder o ano letivo. Então, de modo objetivo, podemos dizer que pretendemos aproveitar essas tarefas para perfazer as 800 horas do ano letivo, já que há a Medida Provisória flexibiliza o número de dias letivos, mas mantém a obrigatoriedade das 800 horas. Já são quase 50 dias letivos perdidos. Se somarmos o período de recesso, alguns sábados que não estão, ainda, no calendário e alguns dias de dezembro, já não temos mais como recuperar no ano civil de 2020. Poderemos, dependendo do quanto será necessário nos mantermos em quarentena, recuperar entrando no ano de 2021.

Diário - Quais seriam os principais prejuízos aos alunos, caso esse tempo sem escola se prolongue?

Elizabeth - Tenho olhado para esse tempo de permanência das crianças em casa como um período riquíssimo de aprendizagem e de valorização da escola. Nós, professores, temos sido desafiados a reinventar a educação e os pais a reinventarem a relação com os filhos na era da individualidade e do distanciamento afetivo. Então, prejuízos ocorrerão, em especial para os adolescentes que estão muito socializados a partir do grupo de colegas, que estão finalizando seus estudos de Ensino Médio, e para as crianças de famílias em situação de vulnerabilidade. O ganho maior está em nos mantermos vivos e aprendermos que o mais importante é cuidarmos uns dos outros. Temos que criar redes de solidariedade para além do professor, que conhece, que ampara, que denuncia, que ensina.

Diário - Existe a possibilidade de o ano letivo ser cancelado? 

Elizabeth - Nesse momento, não há previsão. Não podemos esquecer que vivemos uma situação totalmente inusitada para as gerações que vieram após a Segunda Guerra. Estamos à mercê da contingência da história, da imprevisibilidade de duração da quarentena.

Foto: Prefeitura de Cruz Alta (Divulgação)

Diário - Diante de uma realidade tão diferente, que desafios tem enfrentado? 

Elizabeth - São muitos. Entre as grandes dificuldades está o fato de sermos professores, a maioria, formados para escola de quadro e giz, adaptados a uma realidade urgente de plataformas digitais, a salas sem alunos. No âmbito da gestão, temos que tomar decisões que, se não forem fundamentadas em princípios "humanizadores", podem trazer prejuízos sociais, caso se prolongue a quarentena. Temos o desafio de tomar decisões quando ainda tudo é novo e sem regulamentação mais específica, entre elas, manter controlada a ansiedade dos grupos de trabalho frente a questões para as quais não temos resposta. Talvez, o maior desafio ainda esteja por vir, que é a retomada das aulas presenciais após quarentena.

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Diário - Como fazem os alunos que não têm acesso à internet ou a um dispositivo compatível às atividades?

Elizabeth - Em relação à condução das atividades domiciliares e o acesso dos alunos, temos usado todos recursos que as tecnologias da comunicação e da informação dispõem, mesmo que seja por WhatsApp, para manter a troca de informação entre famílias, professores e gestores. Mas temos, também, reproduzido aulas impressas, as quais podem ser entregues pela escola, caso a criança não possa buscar na escola. Com o apoio da Secretaria Municipal de Educação (SME), levamos o material ao aluno. Iniciaremos, ainda, programas radiofônicos com a participação dos professores que poderão veicular diferentes conteúdos ou informações.

Diário - Como tem sido a preparação dos professores municipais neste período?

Elizabeth - Para acompanhar os professores e equipes diretivas, temos usado reuniões virtuais. A formação continuada para professores sempre foi uma prioridade para a Secretaria Municipal de Educação. Agora, estamos iniciando, através do Polo da Universidade Aberta do Brasil (UAB) de Cruz Alta, que faz parte da estrutura da Secretaria de Educação, a formação continuada específica para o uso das tecnologias. Dessa forma, poderemos oferecer capacitações através dos meios digitais, além de propor que seja um método pedagógico a ser utilizado também com os alunos.

Diário - Cruz Alta tem previsão de retomar as aulas? 

Elizabeth - Para tomarmos qualquer decisão em relação à abertura das escolas, será necessário que o avanço da Covid-19 esteja sob controle no município. Junto à União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação, União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Famurs, Conselho Municipal de Educação, com a Vigilância Sanitária e demais autoridades que compõem o comitê municipal da doença, iremos deliberar a respeito dos protocolos de segurança a serem adotados. Mesmo que o decreto permita que cada município adote as próprias medidas, os conselhos são fundamentais para tomarmos decisões. Tudo pensando a educação como uma rede.

Diário - Como tem sido a resposta das famílias quanto às atividades enviadas pelos professores? 

Elizabeth - As famílias têm sido receptivas e se mostram interessadas do que está sendo desenvolvido, embora já estejam demonstrando cansaço, tendo em vista que muitas estão de volta ao trabalho. Para aliviar isso e também dar uma repensada no processo, iremos antecipar o recesso de julho para os últimos dias de maio. De modo geral, temos percebido a valorização do trabalho que era desenvolvido na sala de aula.

Foto: Prefeitura de Cruz Alta (Divulgação)

Diário - O acompanhamento à distância aumenta a demanda dos professores? 

Elizabeth - Os professores estão trabalhando muito. Precisaram criar novas formas de interagir com os alunos, o que exige muita reflexão, criatividade. São desafios ótimos, mas, para alguns, complicado demais. De qualquer forma, tem havido um esforço fantástico da maioria para atender as exigências desse tempo educacional inusitado. Juntamente à equipe pedagógica, estamos trabalhando para dar suporte na hora de pensar e organizar todas essas tarefas que se fazem necessárias.

Diário - E quanto ao acompanhamento psicológico dos envolvidos em todo esse processo? É outra exigência? 

Elizabeth - Em 2018, criou-se, a pedido da Secretaria de Educação, um serviço, ligado à Coordenadoria de Recursos Humanos da prefeitura, que cuida da saúde psicológica de todos os nossos profissionais. Assim, passaram a ser atendidos em consultas individuais e em grupos fixos. Tendo em vista a situação atual, o atendimento se mantém à distância, por meio de videoconferências. Sabemos que um dos efeitos da pandemia tem sido o impacto na saúde mental dos trabalhadores. O trabalho à distância traz novos desafios, entre eles, a organização dos horários e a pressão das redes sociais. Estamos oferecendo todo o suporte necessário e, ainda, cuidando na nossa saúde. O trabalho, com certeza, deverá continuar depois da quarentena. Então, seguimos atentos as necessidades dos trabalhadores frente aos novos desafios que se apresentam.

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Diário - O município enviou alimentos da merenda escolar às famílias dos alunos no mês passado. Em maio, a iniciativa foi realizada já pela terceira vez. 

Elizabeth - Sim. Essa foi uma das nossas prioridades. E, com orientação conjunta dos Ministérios Públicos Federal e Estadual e sob o amparo de lei federal, entregamos um número maior de kits em maio. Contemplando todas crianças do Programa Bolsa Família, bem como famílias inscritas no CadÚnico e que ainda não receberam o auxílio emergencial do governo federal. Direcionamos os alimentos, ainda, aos alunos que a direção da escola constatar que necessitam. O que nos leva a desenvolver essa ação é a garantia da segurança alimentar dos discentes. Quase 40% da merenda oferecida nas escolas municipais de Cruz Alta é produzida pela Agricultura Familiar, tanto por ser uma regulamentação quanto por conhecermos a qualidade desses alimentos, sem deixar de considerar a importância dessa renda para as famílias do campo. Levando em conta a pandemia e a estiagem que prejudica ainda mais o setor, pensamos também na renda dessas famílias, acrescentando a produção no terceiro kit a ser distribuído.

Diário - Que mensagem a senhora deixa para as famílias, professores e alunos de Cruz Alta? 

Elizabeth - Vivemos um tempo em que nada é mais importante do que cuidar da vida. Isso é uma responsabilidade nossa, professores, pais, gestores, trabalhadores em qualquer área. As crianças são os que mais precisam de nós. Zelemos por elas, em todas as áreas. O que virá depois está sendo redesenhado. Solidariedade é o grande norte para nos mantermos vivos e ativos.


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