missão humanitária

'Vidas que precisam de Santa Maria', diz enfermeiro santa-mariense que viajou com manauaras

Tiago Vargas Teixeira e a também enfermeira Ivany Vinhote Teixeira, que é de Manaus, fizeram parte da equipe que participou da missão humanitária da última terça-feira

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Foto: Anselmo Cunha (Especial)

Tiago Vargas Teixeira e Ivany Vinhote Teixeira, 35 e 32 anos, são casados desde 2016. Eles se conheceram ao entrar na mesma turma de Enfermagem na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Ela é manauara. Ele, santa-mariense, mas se mudou para o Norte quando seu pai, que é militar, foi transferido há 16 anos. Os dois prestaram concurso para ingressar no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Manaus. Ela foi chamada em 2012. Ele, em 2014. Além disso, cada um trabalha em um hospital pediátrico diferente. Ambos viajaram, na última terça-feira, para a cidade onde se casaram há cinco anos. Desta vez, a vinda a Santa Maria foi uma missão humanitária que trouxe 15 pacientes manauaras diagnosticados com Covid-19.


Tiago visitou a cidade natal depois de quase dois anos sem pisar em solo santa-mariense. Os pais dele voltaram para o Rio Grande do Sul quando ele ainda estava na faculdade. A mãe viu, da sacada do apartamento, o avião em que filho e nora levavam pessoas para uma oportunidade de sobreviver.

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ANTES DO VOO
O casal já tinha feito uma viagem de transferência para João Pessoa, na Paraíba. A primeira missão foi quando a falta de oxigênio era mais crítica no Amazonas. No domingo anterior à vinda para o Rio Grande do Sul, eles ainda não sabiam que o destino seria Santa Maria. A própria equipe do Samu pensava iria apenas à Capital.

- Eu soube da informação pelo Diário no domingo. Encaminhei a notícia para meus pais, e minha mãe falou assim: "Agora eu arrepiei". Foi muito gratificante voltar onde eu passei minha infância - lembra o enfermeiro.

Foto: arquivo pessoal

A VIAGEM
Como dizem em Manaus, a ida e a volta foi "na mesma pisada". Ivany conta que o itinerário começa na Base Aérea, onde ocorre a checagem do avião, dos equipamentos, e os pacientes começam a ser recebidos e instalados nas poltronas e no oxigênio.

O voo de Santa Maria fez uma parada em Cuiabá, no Mato Grosso, para abastecimento. Uma ambulância aguardava na parada para caso um paciente precisasse de atendimento.

- Depois, desparamenta, vai ao banheiro, bebe água e volta "na mesma pisada", como diz aqui. No outro dia, descansamos, e o Tiago foi para o plantão à noite - relata Ivany.

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PROXIMIDADE
A distância entre a cidade e a enfermeira são os físicos 4.394 quilômetros. Emocionalmente, a manauara é próxima do Coração do Rio Grande.

- Pelo fato de ser Santa Maria, é até difícil de explicar. Quando chegamos e vimos as luzes das ambulâncias, dá aquele nó na garganta, com esperança -emociona-se.

Foto: arquivo pessoal

"ORQUESTRA"
A equipe de saúde que acompanhou os manauaras comparou com uma orquestra o alinhamento das ambulâncias e harmonia entre trabalhadores que nem se conheciam.

- Parecia que a gente tinha ensaiado. Foi um atendimento que nos deixou feliz. A gente nunca teve contato com o pessoal e falou a mesma língua - celebra Ivany.

A sensação de dever cumprido dá o alívio por poder ter ações diante da pandemia. O conforto, ainda antes da conclusão da missão, é voltado para os pacientes.

- Não dá para conversar muito, porque eles cansam. A gente tenta dar uma tranquilidade no olhar. Não tem dinheiro que pague isso. Tanto "Deus te abençoe" que recebi, que já estou quase imortal - brinca o enfermeiro santa-mariense.

Foto: arquivo pessoal

VIDAS
Para ele, não faz sentido a reclamação das redes sociais sobre transferência de pacientes. Ao contrário, o santa-mariense enaltece o quanto a o município pode contribuir:

- Nós levamos 15 oportunidades de vida para Santa Maria. A cidade deu mais uma chance para essas pessoas. Tem vidas ali que precisam de Santa Maria. Se Deus quiser, essas pessoas voltam graças à cidade.

"A gente viveu uma boate Kiss por dia aqui", diz sobre o colapso em Manaus
A comparação é feita pelo santa-mariense Tiago Vargas Teixeira, que estava na cidade em janeiro de 2013:

- No exemplo da Kiss, foram solidários com Santa Maria. Se transferiu pacientes. Aqui (em Manaus) é todo dia precisar de transferência, UTI, pessoas morrendo.

O colapso do sistema de saúde não está mais na situação mais crítica no Amazonas. Porém, para o casal, a falta de leitos e de oxigênio foi apenas um sintoma de um sistema que já não dava conta.

- A saúde pública aqui se concentra em Manaus. Para trazer um paciente do interior, de avião, é quase duas horas. Acaba superlotando. A pandemia foi o estopim - explica Teixeira.

Ivany relata que as internações cresceram e levaram mais tempo até a alta, além de os quadros se tornarem mais graves. A enfermeira cobra empatia de quem não tem conhecimento sobre o que a capital amazonense enfrentou:

- O que iríamos fazer com os pacientes? Tem que transferir para algum lugar. É muito fácil falar que tem que resolver aqui (em Manaus). Se fosse sua cidade? Um familiar seu?

A análise de Teixeira é que não seria possível resolver a situação sem auxílio do restante do país. A falta de leitos e oxigênio se junta, ainda, com a falta de pessoas.

O casal viu outros profissionais passarem por internações, UTI, alta e voltar ao trabalho. Alguns não voltaram. Para os dois, nunca fez tanto sentido dizer que "enfermeiros" eram suas ocupações.

- A gente vê muitas notas de pesar nos grupos de WhatsApp, no Instagram. E acaba encontrando conforto no próprio trabalho. Dá uma angústia, mas fortalece por poder fazer algo. Passamos por situação que não tinha nem conforto para dar. Quando temos a oportunidade de fazer alguma coisa, é impossível ficar de braços cruzados - diz Ivany.

SAUDADE
Ao cruzar o Brasil, trabalhadores da saúde lembram aquilo que deve ser dito todos dias enquanto perdurar a pandemia. Por trás das roupas brancas de isolamento, existem pessoas e histórias. Elas também sentem saudade da família e querem voltar para casa.

*Colaborou Leonardo Catto


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