5 semanas de bandeira preta

Santa Maria tem redução de casos de Covid-19, mas internações continuam altas

Em 5 semanas, média diária caiu 41%. Especialistas apontam eficiência e limitações do modelo, que ainda não fez média de mortes diárias caírem em Santa Maria

Leonardo Catto
Foto: Foto: Anselmo Cunha (Diário)

Foto: Renan Mattos (Diário)
Hospital de Caridade Alcides Brum tem 81 leitos de UTI Covid

O governo estadual divulga o mapa preliminar do Distanciamento Controlado, que dita as normas de prevenção ao coronavírus, às 18h de sextas-feiras. Na última semana de fevereiro, contudo, a rotina mudou. Era quinta-feira quando foi anunciado que todo o Estado estaria em bandeira preta devido ao iminente colapso do sistema de saúde. Inicialmente, a classificação de risco altíssimo iria até 7 de março. Estendidas pelo menos até 9 de abril, as restrições enfrentam a pandemia, mas a análise é que somente a classificação é insuficiente.

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A média móvel de casos é um dos indicadores que mostram melhora. Conforme o Observatório de Informações em Saúde da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), eram 191 diagnósticos por dia no município. Depois de cinco semanas de bandeira preta, em 2 de abril, o mesmo dado era de 112. A queda é de 41,36%.

Quanto aos óbitos, ainda não há resultado positivo. Quando a bandeira preta foi determinada, a cidade tinha média de três mortes diárias. Ao final da quinta semana, o número era seis - só em março, foram 168 mortes por Covid em Santa Maria. Entretanto, há de ser considerado que as medidas de restrições podem fazer efeito com mais tempo, principalmente no caso das mortes.

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É o que o governo estadual fala na avaliação das primeiras cinco semanas. Em nota ao Diário, o Piratini afirmou que o Rio Grande do Sul registrou pico da média móvel de casos confirmados após a suspensão da cogestão. A partir deste dia, entretanto, houve desaceleração: o pico de 8,3 mil casos diários diminuiu para a 3 mil.

O governo entende que a "bandeira preta em todas as regiões do Estado somada à suspensão da cogestão repercutiu, efetivamente, sobre a redução da mobilidade no RS". Isso, segundo o Estado, permite "inferir que é o resultado das medidas tomadas".

Foto: Anselmo Cunha (Diário)
UPA é a porta de entrada para casos de Covid na cidade

INSUFICIENTE
As restrições foram necessárias, mas, sozinhas, não seriam suficientes. O professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alexandre Zavascki acredita que a manutenção da bandeira foi uma decisão acertada, mas pela via errada. O médico defende que a fórmula do Distanciamento Controlado funciona para evitar a falência do sistema, mas não cobre um cenário em que o colapso já se instaurou.

- O modelo sempre vê atrasado e trabalha com hospitalizações, nunca iria prevenir um avanço da pandemia. Só iria detectar quando estava muito avançado a ponto de saturar. E, desta vez, falhou até para evitar o colapso - afirma.

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Zavascki defende que, atualmente, para frear a pandemia, é necessária uma análise de um conjunto de indicadores que não se paute em hospitalizações:

- Principalmente que não seja variações de uma semana para outra. Tem que se ter análise completa para saber se as vagas estão caindo porque as pessoas estão indo embora para casa ou morrendo.

O presidente da Associação Riograndense de Infectologia, Alexandre Schwarzbold, credita a queda da média de casos à redução de pessoas na rua, graças às restrições, em concordância com o que diz o governo estadual. Segundo o médico, diagnósticos e ocupação de leito clínicos são indicadores que "reagem" antes.

- Leitos de UTI e mortalidade não são vistos no primeiro momento. Quando se chega a 100% de ocupação, muita gente espera leito, e são pessoas com maior tendência a morrer - explica.

Schwarzbold, porém, acredita que uma maior redução desses indicadores ainda será observada como reflexo da bandeira preta. Isso já é visto a nível estadual: houve redução de 51% na média diária de mortos. As hospitalizações ainda estão em um patamar elevado. De acordo com o Palácio Piratini, a demora na queda da ocupação "já era projetada pelo Gabinete de Crise levando em conta a trajetória da infecção e do tratamento da Covid".

Foto: Anselmo Cunha (Diário)
Atendimentos na UPA ainda são numerosos, diz diretora

A Unidade de Pronto-Atendimento (UPA 24h) é a principal porta de entrada para casos de coronavírus em Santa Maria pelo SUS. Com três semanas de bandeira preta, o cenário ainda era de agravamento, e foram registradas, na UPA, mortes de pacientes que não aguentaram a espera por leitos de UTI. Após cinco semanas da classificação mais rígida, o local, que tem 11 leitos clínicos para Covid-19, viu a taxa de ocupação cair.

A diretora da unidade, a irmã Liliane Pereira, porém, não avalia que isso já seja suficiente para chamar de "melhora".

- Eu penso que a gente vai sentir o resultado a partir de agora. Por isso, é necessário que a bandeira não fique em um tempo cronológico curto de uma semana, duas ou três. É inteligente a decisão do governo, porque, este tempo prolongado nos dá um respiro até que ela faça efeito - avalia.

Liliane também pondera que o momento da pandemia é diferente não somente pelo número de casos. Ela reitera que tempo de internação e perfil de infectados graves não são os mesmos do começo da pandemia.

- Tem que se dar conta da gravidade. No começo da pandemia, os pacientes ficavam de sete a 14 dias. Alguns, hoje, ficam mais tempo - afirma.

MAIS INTERNAÇÕES
O período de cinco semanas teve, assim como em outros momentos da pandemia, aumento nos leitos de UTI Covid em Santa Maria. Entretanto, ao passo que os leitos aumentaram, as internações também.

Em 26 de fevereiro, a ocupação das UTIs santa-marienses era de 86,6%, conforme o Estado. Quando a cogestão foi retomada, em 22 de março, a taxa de internações em UTI da cidade era de 89,4%. Ao final das cinco semanas, em 2 de abril, a ocupação fechou em 100% no município.

O prefeito Jorge Pozzobom (PSDB) destaca que, apesar da redução em média de casos, o número de pessoas capazes de infectar terceiros segue crescente. Isso acompanha o aumento nos testes feitos. Atualmente, a cidade tem 20 locais para testagem.

- Nós tínhamos (no final de fevereiro) 18 mil casos ativos. Hoje, são 25 mil. Aumentamos o número de testes. Passamos de 54 mil para 62 mil. Em cinco semanas, fizemos testes em quase 10 mil pessoas - diz.

Além das restrições, Pozzobom encara que os diagnósticos e a abertura de leitos foram necessárias para enfrentar o quadro da pandemia.

- Estamos falando em quantos leitos abertos? Eu tenho preocupação. A gente sabe, no mundo inteiro, que as restrições ajudam muito. É difícil dizer que melhoramos ou pioramos. Eu digo que, como poder público, nós avançamos no enfrentamento. Mas nós precisamos também da cooperação das pessoas - diz.

O Palácio Piratini, apesar de apresentar dados positivos, entende que ainda há alta taxa de propagação do vírus e de ocupação hospitalar. Neste cenário, a redução nas restrições é "gradativa e cautelosa".

BANDEIRA PRETA EM TODO RS

  • 25 de fevereiro _ Governador Eduardo Leite (PSDB) suspende a cogestão regiões do Estado teriam que seguri os protocolos estaduais de bandeira preta
  • 1º de março _ RS atinge pico na média móvel de casos (8,3 mil por dia)
  • 19 de março _ Govenro anuncia retomada da cogestão
  • 20 de março _ RS atinge pico de 2,8 mil internados em UTI
  • 20 de março _ Ação no TJRS pede que cogestão siga suspensa
  • 21 de março _ Após recurso da PGE, cogestão é retomada e permite abertura de lojas não-essenciais e restaurantes


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