400 vidas perdidas

Em dois meses, Santa Maria dobra o número de mortes por Covid-19

A cidade levou nove meses para alcançar 200 mortes, e apenas dois para chegar a 400

Maurício Araujo e Dandara Aranguiz

Foto: Renan Mattos (Diário) 

O primeiro trimestre do ano em Santa Maria está marcado pelo pior momento da pandemia de coronavírus. O avanço da Covid-19 lotou hospitais, e dezenas de pessoas esperam em filas por uma vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que nada mais é que o aguardo para lutar com todos os recursos pela própria vida. A consequência da progressão da pandemia é devastadora. Em 10 meses, a cidade chegou a triste marca de 400 mortes. Em atos desesperados para salvar vidas, a regulação de leitos envia pacientes para as chamadas "vaga zero", dificultando ainda mais o trabalho das equipes de hospitais, que também têm listas internas para dar conta da demanda.

No dia 14 de maio de 2020, Santa Maria registrou o primeiro óbito relacionado à Covid-19. Pouco mais de 10 meses depois, já são quatro centenas de mortes. A rapidez que a cidade amargou esse triste recorde de mortes é o que mais impressiona. A cidade demorou seis meses para registrar as 100 primeiras mortes. Para as 200, o tempo já caiu pela metade, demorando apenas três meses. Mesma situação para alcançar as 300 mortes: apenas um mês e meio. Agora, em 17 dias, o município chegou aos 400 óbitos, sendo que 146 foram somente no mês de março (um terço do todas as mortes registradas). O número impressiona, já que em todo o ano passado, foram registradas 151 mortes associadas à doença. Em 2021, portanto, já são 249. 

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Nos oito primeiros meses desde a primeira a morte, a cidade perdeu 200 vidas para a Covid-19. Agora, esse mesmo número foi alcançado em apenas dois meses, o que torna evidente o avanço do coronavírus no município.

Conforme a coordenadora do Laboratório de Epidemiologia do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a médica epidemiologista Marinel Dall'Agnol, o aumento e a velocidade no número de mortes são consequências da alta taxa de transmissão do vírus. Há meses os especialistas lembram que quanto mais as pessoas circulam, mais chance de contrair o vírus. No feriado de Páscoa, alerta Marinel, a sociedade não pode cometer os mesmos erros dos anteriores, pois a capacidade dos hospitais está no limite:

- Não podemos errar em mais um feriado, não temos condições estruturais para isso. A velocidade das mortes se dá porque temos mais pessoas se contaminando, variantes mais contagiosas e, consequentemente, aumenta o número de mortes. Temos que parar a circulação de pessoas.

Para o médico epidemiologista da Vigilância Municipal em Saúde, Marcos Lobato, ainda não há perspectiva de que as mortes possam diminuir nos próximos dias, pois ainda há a circulação intensa de pessoas nas ruas. E mesmo com a vacinação em andamento desde janeiro, ainda não é possível sentir o impacto da imunização nos números, que continuam elevados, até mesmo na faixa etária de 60 anos ou mais, que é a população que está sendo vacinada. 

- Nada até agora está mostrando uma mudança nesse perfil. A gente continua tendo um número importante de óbitos. Parece que teve uma pequena desaceleração, mas tudo mostra que seja pontual. Não temos nada que explique que vá diminuir. A expectativa é que nós tenhamos o resultado da vacinação, mas ainda é muito cedo. Temos muitos idosos na cidade que ainda estão morrendo. Em 2020, a média de idade dos óbitos era de 60 anos ou mais. Quase 75% dos óbitos ano passado tem esse perfil. Agora, em 2021, parece que está caindo um pouco, mas é cedo para dizer. Em uma semana tivemos 50 óbitos. Pode ser que tenhamos uma pequena redução, porque foram muitos óbitos nos últimos 15 dias, mas nós não temos menos de dois óbitos diariamente, e isso continua sendo alto - avalia o especialista, que também é coordenador do Centro de Referência Municipal de Covid-19.

NOVA VARIANTE
Segundo Lobato, outro fenômeno pode estar contribuindo para o aumento dos óbitos: o início da predominância de uma nova variante, como a P1, que está atingindo a maior parte da população na Região Metropolitana.

- A gente tem uma vantagem, que é a vacina. A gente ainda tem chance de diminuir os óbitos na população vacinada. Porque quando essa variante estiver circulando em maior proporção por aqui, temos a possibilidade de ter a população com maior risco de morrer imunizada nesse período, o que não deu tempo de acontecer em Porto Alegre, por exemplo. Aqui, estamos apostando que dê tempo de a gente ter as pessoas completamente imunizadas antes da nova variante se tornar predominante - comenta. 

Mesmo que haja uma redução de óbitos em abril de 25%, o médico chama a atenção para o não relaxamento nos cuidados essenciais para evitar a contaminação, já que Santa Maria apresentou, pelo menos, quatro picos de casos confirmados desde o começo da pandemia: em julho, final de outubro, dezembro e, agora em março, o maior até então. 

Conforme o professor Luis Felipe Dias Lopes, doutor em Engenharia de Produção e estatístico do Observatório de Informações em Saúde da UFSM, o alto número é reflexo direto das aglomerações ocorridas em janeiro e fevereiro, meses de férias e que muitas pessoas viajaram para o litoral. Ele acredita que o efeito desse comportamento ainda vá ser sentido pelas próximas duas semanas: 

- A vacinação ainda não surtiu efeito no público de idosos. As pessoas desse público recém estão tomando a segunda dose. Só no primeiro trimestre deste ano, atingimos 62% dos casos de óbitos. Em fevereiro e março, começamos a ter um salto astronômico nos casos. E casos chamam óbitos, e o número de óbitos também está relacionado às internações, porque está morrendo gente que não consegue ser internada. Acho que vamos ter que esperar esse efeito das férias até o início das aulas, mais ou menos, lá em 12 de abril. Até lá, temos que ter uma conscientização e esperar a vacina. Nós temos que baixar essa curva, está muito alta.


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