com a palavra

'Criei-me em meio a salas de espera lotadas' lembra a médica Stela Maria Mota

Gastroenterologista trabalha no Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo e tem uma trajetória de credibilidade na saúde da Região Central

Rafael Favero
Foto: Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Nascida em Santa Maria, Stela Maria Mota, 47 anos, tem uma trajetória de credibilidade na medicina da cidade natal. Ela se formou pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1995. Atualmente, além de atender em um consultório particular, ela trabalha no Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo. Especialista em gastroenterologia, ciência que cuida das doenças do fígado e intestinos, a mãe de Davi, 10 anos, é companheira do corretor de agronegócios Anderson Messerschmidt, 41. 

Diário - A senhora sempre demonstrou interesse pela medicina?

Stela - Sou filha de uma enfermeira com um médico. Meu pai se formou em Medicina pela UFSM e, logo após, foi convidado a trabalhar em Carazinho, quando eu tinha quase 3 anos. Lá, inaugurou uma policlínica anexa a um pronto socorro junto a três grandes amigos e colegas de profissão. Criei-me em meio a salas de espera lotadas, medicamentos, gases para esterilizar. Com os filhos dos sócios do meu pai, brincava de ser médica nos consultórios vazios, após o expediente. Gostava de fingir ser pediatra. Outra diversão era chegar ao colégio de ambulância. Deitava na maca de pacientes, na parte de traz, e pedia para o pai tocar de leve a sirene em frente ao portão principal. Então, eu descia toda "pimpona", orgulhosa, de merendeira no braço (risos).

Diário - Quais as principais lembranças que tem do período em que estudou na UFSM?

Stela - Tive a sorte de ter professores maravilhosos. Ainda no curso básico, conheci o professor Carlos Renato Mello e sua esposa, a professora Ivanir Mello, que eram responsáveis pelo laboratório de patologia. O ambiente era impressionante! Lá, havia réplicas de quadros de pintores famosos, música, objetos afetivos trazidos de viagens e congressos. Um ambiente cultural extraordinário, falava-se de patologia, mas também arte, política, gêneros e ideias alternativas. Além dos alunos, frequentavam o local alguns gatos, adotados pela professora Ivanir. Na pediatria, participei de um projeto social lindíssimo, capitaneado pelo doutor Nadir Cipriani, no antigo Postão da Cohab Santa Marta, onde crianças em situação de vulnerabilidade social ou mantidas nas Aldeias SOS eram cuidadas e tratadas.

Foto: arquivo pessoal
Em um momento de descanso e diversão, com o filho Davi

Diário - Quando a senhora passou a se dedicar pela gastroenterologia?

Stela - Em um período mais avançado do curso de Medicina, conheci o doutor Paulo Souto, que foi o primeiro endoscopista do interior do Estado. Ele ouvia com atenção e respeito os sintomas psicossomáticos dos pacientes, quase sempre poli queixosos. Apaixonei-me pela mistura entre a doença do físico e da mente. Foi quando decidi ser gastroenterologista. O amor pelas doenças psíquicas ganhou força com as aulas da doutora Maria Alice Pilau Arzeno, que me influenciou muito. Ela nos ensinava as Fases de Desenvolvimento da Personalidade de Ana Froid. A doutora Jane Costa foi e é sempre uma inspiração. O que falar desta criatura maravilhosa?

Diário - Quais momento da trajetória pessoal e profissional mais lhe marcaram ao longo da vida?

Stela - A formatura é, sem dúvida, o momento mais marcante, de realização pessoal e sensação de dever cumprido, mas também de reflexão e medo. Medo da incerteza do futuro, do sucesso profissional. A elogiosa defesa do mestrado diante de professores reconhecidos mundialmente, com o apoio do meu orientador, Mário Reis Álvares da Silva, chefe do serviço de gastroenterologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Além disso, pelo lado negativo, perdi um amigo querido, em um acidente aéreo, em 1997. Na ocasião, ele fazia parte de um grupo de médicos que se dirigiam de Porto Alegre para Chapecó para captar órgãos para transplante. Os médicos morreram. Foi um momento trágico, onde a doação exigida pela nossa profissão foi levada ao extremo.

Foto: arquivo pessoal
Em passeio, com Anderson, em Buenos Aires, na Argentina

Diário - Quais os principais pontos positivos da profissão de médica? E quais são as principais dificuldades?

Stela - Esta pergunta é complexa. Desde criança, observando a trajetória do meu pai e a minha, vejo a desconstrução progressiva do valor dado a esta profissão. Honorários vis, sobrecarga de trabalho, condições adversas, falta de estrutura e equipamentos, colegas corruptos se envolvendo em esquemas de próteses e órteses e outros até piores. Lamento muito todos esses fatos, que prejudicam a imagem de profissionais. Na outra ponta, se encontram nossos pacientes, doentes, desamparados, falsamente assistidos por um sistema falido e desgastado. Mas a sensação de saber que pude aliviar o sofrimento de alguém ou fiz diferença entre a vida e a morte não tem preço.

Diário - E o futuro?

Stela - Não penso em projetos grandiosos. Gostaria muito de poder estender minha pós-graduação na área da "microbiota", novidade revolucionária que reforça o conceito do "intestino: o segundo cérebro".


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