existe tratamento?

Como os pacientes com Covid-19 são tratados em Santa Maria

Não existe um protocolo de medicamentos para receitar a quem procura assistência médica, seja na rede pública ou privada, com sintomas do coronavírus

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Foto: Foto: Pedro Piegas (Diário)


Foto: Pedro Piegas (Diário)

Ainda não há um medicamento que, comprovadamente, combata o coronavírus, aos moldes do que foi o Tamiflu, na pandemia do H1N1, em 2009. A situação em 2020 é mais grave, o que gera pressa na busca por tratamentos eficazes ou uma vacina capaz de imunizar a população. Em Santa Maria, aos buscar atendimento na rede pública ou privada de saúde, pessoas com suspeita da doença ou confirmadas por testes seguem tratamentos diferenciados, conforme os sintomas e a avaliação do médico. 

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- Os estudos estão saindo a toque de caixa, em grande quantidade, e muitos deles com alguns defeitos, o que deixa a gente em uma situação delicada - diz o pneumologista Julio Sarturi, que coordena os trabalhos na ala Covid do Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo, onde é tratada boa parte dos pacientes infectados em Santa Maria. 

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No Brasil, a discussão sobre o tratamento para a Covid-19 saiu do campo médico e entrou na esfera política. Desde as primeiras semanas de pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) incentiva o uso da hidroxicloroquina, mesmo sem comprovação científica da eficácia do remédio, que é usado para lúpus, artrite reumatoide e malária. A discussão política chegou a Santa Maria. Em meio a definições das chapas para a eleição municipal, a bancada de vereadores do Progressistas ingressou, no fim de julho, com pedido para que a prefeitura adquira medicamentos para o tratamento precoce da Covid-19. O documento também foi assinado pelo vice-prefeito e pré-candidato à prefeitura, Sergio Cechin (PP). 

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O pedido era para a compra de hidroxicloroquina, azitromicina, zinco e ivermectina para serem disponibilizados à população por meio de prescrição médica. Em resposta, a prefeitura informou que não comprou nenhum remédio específico. 

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- A discussão levou muito para o lado político e se distanciou do lado médico. Este é um grande equívoco de condução. Não vi estudos favoráveis pró alguns medicamentos, mas também não há estudos contra. Existe um vasto uso de coisas profiláticas que também não tem fundamento qualquer. Para se comprovar a eficiência de alguns medicamentos seriam necessários estudos com pelo menos 10 mil, 20 mil pessoas, e esses estudos não existem - diz o médico infectologista Fábio Lopes Pedro. 

Conforme o Ministério da Saúde, o uso da hidroxicloroquina permanece a critério de cada médico, sendo também necessária a vontade declarada do paciente. Também estabelece que, para tratamento com medicamentos com registro no Brasil para outras condições ou indicações clínicas, prescritos pelo médico, deverá haver um termo de consentimento assinado pelo paciente. Por fim, o governo afirma que, sem evidências científicas, não adotará nenhum protocolo para tratamento de Covid. Portanto, a decisão de uso de medicamentos cabe ao médico e ao paciente. 

Sindicato defende autonomia e liberdade dos médicos

No dia 27 de julho, o diretor de interior do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Fernando Uberti Machado, encontrou-se com o prefeito de Santa Maria, Jorge Pozzobom (PSDB), em uma reunião em que defendeu a autonomia do profissional no tratamento aos pacientes com Covid-19.

- Nós não temos um posicionamento definitivo a respeito de um tratamento ou medicação, até porque nós não temos evidências conclusivas sobre isso. Nós temos pouco tempo desde o início dessa pandemia, e para a gente atingir um nível de evidência mais consistente são necessários protocolos que demoram, no mínimo, mais de um ano. Mas nós somos a favor da autonomia do médico. Nós defendemos e queremos a garantia da liberdade do médico em prescrever o que ele julga que é melhor para seu paciente, e o poder público tem que disponibilizar esses medicamentos - defende o diretor.

A prefeitura informou que o município não comprou medicamentos específicos, pois segue as recomendações do COE. No entanto, quando é solicitado algum medicamento para tratamentos indicados por médicos, o envio é feito por meio da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ª CRS).

Muitos estudos em busca de um tratamento

O pneumologista Julio Sarturi não descarta a possibilidade de que o tratamento contra a Covid-19 seja aos moldes do usado para combater o vírus HIV, da Aids, formado por um coquetel de medicamentos:

- Não duvido que, daqui a pouco, o tratamento da Covid-19, do Sars-CoV-2, seja uma combinação de medicamentos. Claro que só vamos usar isso com segurança quando as sociedades internacionais e a OMS disserem que tal tratamento é o melhor. Mas isso só a história vai dizer, a custa de muitas vidas que estão ficando para trás. É uma tragédia. Estou com 30 anos de formação e nunca vivenciei algo nesse sentido, ainda mais com politização e polêmica do tratamento. Está muito difícil para a gente trabalhar hoje.

Atualmente, o Hospital de Caridade não tem um protocolo específico de orientações para o tratamento da doença.

- Há uma recomendação. O médico tem a prerrogativa de decisão com o paciente. Qualquer sinal de que o paciente possa não se beneficiar, o médico não vai nem oferecer - explica. 


Foto: Gabriel Haesbaert (Diário)/

Médico infectologista no ambulatório da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) de Santa Maria e do Controle de Infecções da unidade, Guilherme Weber, defende que a adequação das medicações para Covid-19 também dependem de cada caso. 

- Para pacientes que internam (casos clínicos atendidos na unidade) geralmente temos um protocolo. Usamos a dexametasona (corticóide) e a enoxaparina, que é um anticoagulante profilático, pois a Covid aumenta o risco de trombose. E acredito que todos os hospitais estão usando. Para pacientes ambulatoriais, realmente não existe um protocolo, exceto questões como isolamento, medicação sintomática e, às vezes, algum antibiótico. Não há algo específico. Saíram e seguem saindo estudos, inclusive, do uso hidroxicloroquina. Logo no início talvez, alguns colegas prescrevessem mais. Eu receitei uma vez, aqui, para paciente em fase inicial, sem comorbidade. Também há outros medicamentos perguntam, como a ivermectina. Acho que, independentemente do que for usado, que a pessoa use em comum acordo com o seu médico e ciente que não existe eficácia comprovada - afirma Weber. 

Enfermeiro e coordenador de enfermagem da UPA, Vagner Costa Pereira acrescenta que assim como há um fluxo realizado de maneira técnica respeitando a gravidade de cada pessoa, o mesmo acontece na relação entre médico e paciente quanto à prescrição das medicações.

- A maior expectativa está nos casos de menor complexidade que poderiam ser atendidos nas plataformas como Alô Doutor, da Unimed e Disque Covid ou na atenção básica - diz. 

A assessoria de comunicação da Associação Franciscana de Assistência à Saúde (Sefas), responsável pela Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24h em Santa Maria - que é referência para casos suspeitos de coronavírus ou de síndrome gripal na rede pública da cidade - informou que seguem as orientações do COE e protocolos do Estado. E que, em casos clínicos (já que a UPA faz o primeiro atendimento e, depois, encaminha o paciente para internação em rede hospitalar referenciada, como Husm e Hospital Regional) o que se tem usado, de maneira geral, para estabilizar o paciente, são anticoagulantes e corticoide.

Ainda em julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu uma nota em que recomenda que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da Covid-19, e que os agentes públicos, incluindo municípios, Estados e Ministério da Saúde reavaliem suas orientações de tratamento. Mesmo assim, sabe-se que muitos médicos adotam o remédio, associado a azitromicina e ivermectina, para tratar seus pacientes na fase inicial da doença. 

Uso de remédio é discutido com os pacientes 

Conforme o médico pneumologista Julio Sarturi, o tratamento de contaminados no Hospital de Caridade busca seguir evidências científicas, apesar de não existirem estudos conclusivos. 

- Os estudos que estão saindo mais recentemente, de uso em fase precoce, tem evidências fracas, mas elas existem. A medicina baseada em evidência não é feita somente com evidência de nível A, robusta. Muitas medicações que a gente utiliza na medicina são evidências fracas, mas é o que se tem - argumenta. 

O uso do medicamento é discutido com os pacientes, como definido pelo Ministério da Saúde, mas apenas nos casos em que há indicação, geralmente na fase inicial da doença. Com mais de cinco a sete dias de evolução do quadro, a cloroquina, por exemplo, não é cogitada pelo profissional, apesar de o medicamento ser utilizado por alguns médicos. 

A Covid-19 é dividida em estágios conforme a evolução dentro do corpo humano. Vai da fase inicial, enquanto o vírus ainda está se replicando, até a fase tardia, da resposta imunológica - onde geralmente ocorrem as mortes. Conforme Sarturi, a Covid-19 é uma doença arrastada, que pode permanecer entre 14 e 21 dias, e deixa estragos principalmente no sistema respiratório. A fase inicial tem sintomas leves ou quadro assintomático. A maioria dos pacientes, em torno de 80%, de acordo com Sarturi, evoluem para um quadro leve. 

- Aqui existe a polêmica do tratamento precoce, em que a gente poderia utilizar, com algum benefício de estudos com evidências fracas, a hidroxicloroquina, a azitromicina, a ivermectina, e outros suplementos, como a vitamina D, que tem menos evidências ainda - conta. 

A fase seguinte tem sintomas mais moderados, e 80% dos pacientes são internados. Aqui, a pessoa sente sintomas como febre, dor no corpo, tosse e cansaço. Esta fase pode evoluir, caso o paciente apresente baixa de oxigenação (hipoxemia). De acordo com Sarturi, já há benefícios com tratamentos anticoagulantes, pois se sabe que o vírus provoca risco elevado de eventos trombóticos, tanto arteriais - como AVC isquêmico e infarto - quanto venoso - como a trombose venosa profunda e embolia pulmonar. Também são utilizados corticoides, como a dexometazona. 

Mesmo sem recomendar, Estado repassa hidroxicloroquina a hospitais

Na UPA, segundo o coordenador de Enfermagem, Vagner Costa Pereira, não há desabastecimento de medicações. Os insumos, inclusive a hidroxicloroquina, são viabilizados pelo Ministério da Saúde à 4ª Coordenadoria, que repassa à unidade. No caso da hidroxicloroquina, quando prescrita, o paciente assina um termo de consentimento: 

- Todos os fluxos que seguimos de atendimento é embasado nos protocolos do Ministério da Saúde e atualizados periodicamente. Atuamos em parceria com Secretaria de Saúde do município.

Mesmo não recomendando o tratamento com a cloroquina, a Secretaria Estadual da Saúde (SES) fez a distribuição do medicamento para o tratamento da Covid-19 aos hospitais e ambulatórios gaúchos. O Ministério da Saúde enviou para o Estado um quantitativo de 25 mil comprimidos de cloroquina. De acordo com um ofício do COE, ainda em abril, 27 hospitais do Estado foram abastecidos com a cloroquina enviada pelo governo federal. O Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) é uma das instituições que foram contempladas com a remessa.

O Husm informou que é referência apenas para casos graves de Covid-19, e que segue "um protocolo de tratamento criado e constantemente atualizado pelos especialistas do hospital, com individualização da terapia conforme o quadro clínico do paciente. O protocolo serve como base, demonstrando as doses, indicações e contraindicações, bem como cuidados ao utilizar cada medicamento. Porém, a decisão de uso é realizada à beira leito de acordo com a melhor evidência científica até o momento."

Outro ponto, o da automedicação e da profilaxia, que seriam medicações preventivas, não são recomendadas.

- Toda medicação deve ser feita com orientação médica - resume o pneumologista Sarturi.


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