reflexos

Como a pandemia tem impactado no processo de doação de órgãos

Mesmo com protocolos mais rígidos, dois hospitais de Santa Maria realizaram os primeiros procedimentos do ano nos últimos 30 dias

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Foto: Foto: Divulgação (Assessoria de imprensa da Sefas)
Equipe que participou da captação de órgãos no Hospital São Francisco de Assis: enfermeira Carine Gomes, Cleton Salbego, Rossana Walter, Andressa Bock, psicóloga Natália Ruviaro, e médicos e enfermeiros da Opos6, de Lajeado

A pandemia de Covid-19 modificou a rotina das pessoas e de diferentes setores, principalmente os da área da saúde. O surgimento do novo coronavírus trouxe mudanças em protocolos para atendimentos e procedimentos. Neste período de crise sanitária, o processo de captação e transplante de órgãos também sofreu algumas alterações e pode sentir os reflexos da epidemia.

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Em abril, o Ministério da Saúde emitiu uma norma técnica que estabelece critérios técnicos para triagem clínica do coronavírus nos candidatos à doação de órgãos e tecidos, e para manejo do paciente em lista de espera e do transplantado. Uma das exigências é a realização do teste molecular (RT-PCR) para detecção do vírus nos potenciais doadores antes da captação dos órgãos. O receptor também deve fazer o exame diagnóstico durante a avaliação pré-transplante. O documento também considera a busca clínica e epidemiológica de fatores relacionados à Covid-19 no doador. 

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Mesmo assim, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), a Central Estadual de Transplantes do Rio Grande do Sul manteve o seu principal indicador no processo de órgãos transplantados desde o início da pandemia. O Estado registrou 63 transplantes, de março a junho de 2020. Um a menos do que os 64 transplantes realizados no mesmo período em 2019 (veja abaixo). 

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Ainda de acordo com a SES, em relação ao número de contraindicação médica por Covid-19, 14 pacientes apresentaram suspeitas e, desses, dois tiveram a confirmação durante o processo de doação e transplante, no primeiro semestre do ano. 

Os cuidados redobrados pelas equipes envolvidas fizeram com que dois hospitais de Santa Maria pudessem viabilizar os primeiros procedimentos de captação de órgãos de 2020 em plena pandemia. 

EM SANTA MARIA 
O Hospital São Francisco de Assis realizou o procedimento no início de julho, fato que não ocorria há três anos (confira ao lado). Dias antes, o Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), que desde 2000 possui uma Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT), também havia realizado a segunda captação do ano: um paciente que faleceu devido a um Acidente Vascular cerebral (AVC) foi o doador de rins e fígado, captados pela equipe de transplantes que veio de Porto Alegre. 

Em comparação ao primeiro semestre de 2019, o número de procedimentos realizados pelo Husm apresentou queda. De janeiro a junho do ano passado, o hospital teve 11 notificações de morte encefálica, sendo que seis concluíram o processo de doação de órgãos. Neste ano, também foram 11 notificações no mesmo período, porém, apenas duas captações foram feitas. 

- Comparando, o número de notificações foi o mesmo no primeiro semestre de 2019 e 2020, mas as doações caíram de seis para duas. Analisando de forma simples, pensaria que sim, a pandemia teve impacto, porém, o processo de doação inclui muitos aspectos e fatores que podem influenciar, então é difícil afirmar os motivos analisando assim, a curto prazo. Houveram anos em que tivemos menos doações também, mesmo sem estarmos em momento de pandemia - explica a fisioterapeuta Janice Cristina Soares, chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Husm e membro da CIHDOTT. 

E é por todos os aspectos envolvidos nesse processo, que o gesto é considerado nobre. Ainda mais em temos de pandemia. 

- A doação de órgãos é um ato de extrema empatia com o próximo, num momento de dor pela perda de seu ente querido. As listas de espera por um órgão continuam muito grandes e muitas pessoas esperam diariamente por um telefonema dizendo que chegou a sua hora de poder recebê-lo. E uma forma simples de ajudar é dizendo a seu familiar sua vontade de ser doador. São os familiares que vão poder decidir pela doação - comenta Janice.

São Francisco de Assis está capacitado para realizar captações

No dia 2 de julho, o Hospital São Francisco de Assis realizou a primeira captação de órgãos dos últimos três anos na instituição. Em novembro do ano passado, a equipe multidisciplinar da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Transplante de Tecidos (CIHDOTT) do hospital passou por uma capacitação para auxiliar desde a manutenção do potencial doador, até que a captação dos órgãos seja concluída.

Foto: Renan Mattos (Diário)/
Avião que veio de Porto Alegre com equipe para realizar a captação de órgãos no Hospital São Francisco de Assis

Ao todo, cerca de 20 profissionais, da área administrativa e técnica, participaram do processo, que é longo e demorado, em função de uma série de exigências que precisam ser cumpridas. A doação só ocorre após a constatação da morte encefálica do paciente internado, quando não há mais função neurológica. Para isso, um protocolo é iniciado e testes são realizados até o diagnóstico final. Após, a equipe médica é responsável por comunicar aos familiares sobre o óbito. 

- No mínimo, leva-se 48 horas só para abrir o protocolo por morte encefálica, pois há uma bateria de exames que precisam ser feitos para atestar esse diagnóstico. Só a partir daí é que se começa a trabalhar na possibilidade de captação dos órgãos - explica a responsável técnica do hospital. Carine Gomes, que é gerente de enfermagem do São Francisco. 

A equipe realiza o acolhimento dos familiares para consultar o desejo do paciente em ser doador, além da opinião e consentimento da família. É necessário que todos estejam de acordo e assinem um termo de autorização. 

- Nós temos que esperar o luto da família. Quando o paciente começa a apresentar alguns indícios de morte encefálica, os familiares precisam ser acompanhados, justamente para que eles entendam que eles não vão conseguir enterrar a pessoa horas depois. É um processo sistemático, delicado e que envolve sentimentos. E a gente tem que ter todo um cuidado para não ocorrer uma desistência da doação no meio do processo. Nesse caso recente, nós entrávamos em contato com a família diariamente para mantê-los cientes do que estava acontecendo - relata o enfermeiro Cléton Salbergo, coordenador da UTI do hospital, que também participou do procedimento de captação. 

Para iniciar a captação de órgãos, um protocolo é aberto nas Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) para mostrar que existe um potencial doador. No Rio Grande do Sul, existem sete hospitais responsáveis: três em Porto Alegre, um em Rio Grande, um em Passo Fundo, um em Lajeado e um em Caxias do Sul. Em Santa Maria a referência é a OPO 6, com sede no Hospital Bruno Born, de Lajeado. 

Foto: Divulgação (Assessoria de imprensa da Sefas)/
Equipe que participou da captação de órgãos no Hospital São Francisco de Assis: enfermeira Carine Gomes, Cleton Salbego, Rossana Walter, Andressa Bock, psicóloga Natália Ruviaro, e médicos e enfermeiros da Opos6, de Lajeado

No caso específico dessa doação, o hospital realizou o exame molecular (RT-PCR) duas vezes no paciente doador: no momento da abertura de protocolo e na véspera da captação. O tempo que se leva, no mínimo, para fazer todos os procedimentos, testes e verificar os órgãos compatíveis para doação, é de 72 horas. Após cumprir com todas exigências, a equipe do hospital hospedeiro comunica quais órgãos serão compatíveis. As OPOs enviam equipes especializadas em cada órgão para fazer a cirurgia de captação e, posteriormente, transportá-los até alguém que necessite de transplante. Aviões da Força Aérea Brasileira são empregados para agilizar e auxiliar no processo. 

- Foi uma experiência bem inusitada, de grande aprendizado. Na prática vimos o quanto exige esforço dos profissionais envolvidos. Nós ficamos uns quatro dias nesse processo. Isso nos instigou a procurar fazer ainda mais captação de órgãos aqui dentro da instituição. Foi de grande satisfação ver que o esforço valeu a pena, que nós conseguimos. Isso é gratificante - conta Carine.

* Com informações da assessoria de imprensa da Sefas

DOAÇÕES COM ÓRGÃOS TRANSPLANTADOS NO ESTADO

  • Em relação ao número de contraindicação médica pela Covid-19, o CET registrou 14 casos suspeitos, com duas confirmações, no primeiro semestre de 2020 
  • A Central Estadual de Transplantes (CET) do Rio Grande do Sul manteve o seu principal indicador no processo de órgãos transplantados desde o início da pandemia da Covid-19 
  • O Estado registrou 63 transplantes, de março a junho de 2020. Um a menos do que os 64 transplantes realizados no mesmo período em 2019: 

MARÇOABRILMAIOJUNHO
201918131221
202019161414

Fonte: Secretaria Estadual de Saúde (SES)


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