coronavírus

Após quase 90 dias, foram aplicadas três multas por não uso de máscara em Santa Maria

Reportagem constatou que uso não é unânime nas ruas. Especialistas tentam explicar por que uso do item ainda é obstáculo

Maurício Araujo


Foto: Pedro Piegas (Diário)/
No Centro, maioria das pessoas utiliza máscara de proteção

A pandemia impôs novas regras para encarar o dia a dia. Uma das principais medidas para frear o contágio do vírus é utilizar a máscara de proteção individual. Para os especialistas, o equipamento se faz ainda mais necessário neste mês, período em que o coronavírus ganhou força em Santa Maria. Somente em dezembro, quatro índices bateram recordes negativos: o número de mortes chegou a 35; a taxa de ocupação de leitos registrou 92,3%; os casos confirmados neste único mês chegaram a 2.502; e os casos ativos da doença atingiram 1.649. Porém, mesmo no pior momento da pandemia, há quem insista em não utilizar a máscara, especialmente nos bairros, mesmo quando autoridades de saúde recomendam a prática. Em outubro, lei municipal entrou em vigor. Com apenas três multas aplicadas, prefeitura garante que o objetivo principal é orientar a população (veja mais abaixo).

Na tarde de ontem, a equipe do Diário percorreu vias de três regiões da cidade - Oeste, Norte e Centro. O que se percebe é que, na área central de Santa Maria, a maioria das pessoas utiliza o acessório, que é obrigatório em via pública e para ingressar em lojas, mercados e transporte coletivo. Entretanto, basta se dirigir aos bairros para perceber que o contexto muda. Mas, por que, após nove meses da pandemia, o uso das máscaras ainda gera polêmica? Nesta reportagem, especialistas explicam os porquês de a utilização desse equipamento ainda ser controversa.

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FISCALIZAÇÃO

Para assegurar a obrigatoriedade e garantir proteção à população, foi publicada a Lei Municipal 6.485/2020, que orienta os cidadãos e até prevê multas em caso de negativa (confira no quadro). A legislação entrou em vigor no dia 1º de outubro, e, após quase três meses de validade, três multas foram aplicadas, todas no Centro. A prefeitura de Santa Maria explica que a lei não tem o objetivo de acumular multas nem arrecadar valores, mas, sim, conscientizar as pessoas sobre a necessidade de utilizar a proteção. 

- A lei é eficaz porque prevê sanção em caso de a pessoa se negar a utilizar o acessório. Mas, acima de tudo, a finalidade da lei é que a pessoa utilize a máscara e tenha consciência dos porquês deve colocá-la. Neste momento, estamos enfrentando problemas relacionados às aglomerações devido às festas de fim de ano, e essa é uma grande preocupação, pois precisamos ter consciência coletiva - explica a controladora geral do município, Carolina Lisowski.

A equipe que verifica se a lei das máscaras é cumprida é a mesma que fiscaliza todas as leis e decretos relacionados à pandemia, como as regras sanitárias impostas aos estabelecimentos comerciais. Para sensibilizar a população e não impor as penalidades da lei, a prefeitura lançou, em junho, a Patrulha da Máscara. O grupo atua nas áreas mais movimentadas da cidade, orienta a população e distribui o item para quem não tem condições.

Iniciativas tentam auxiliar na orientação da comunidade. No início deste mês, mil máscaras de proteção facial confeccionadas pelos apenados da Penitenciária Estadual de Santa Maria (Pesm) foram entregues para a prefeitura. Os itens foram repassados às equipes que atuam na Fiscalização Integrada do Município, na Patrulha da Máscara e nas secretarias de Saúde e Desenvolvimento Social.  

SENSO COLETIVO DEVE SE SOBREPOR A INDIVIDUALIDADE
Seguir os protocolos recomendados pelas autoridades de saúde, como o uso de máscaras, requer uma noção de responsabilidade coletiva. Conforme o filósofo e professor Dejalma Cremonese, é necessário ter espírito ético e consciência, e isso é uma questão referente à dimensão cultural do povo brasileiro.

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- É preciso ter em mente que, negligenciar os protocolos, é atentar contra a integridade do outro, é um ato contra a ética - diz o professor.

Dessa forma, as obrigações não devem ficar restritas apenas ao poder público. Antes da individualidade é preciso pensar no coletivo. É isso que entende a doméstica Francine dos Santos Mesquita, 42 anos, que não sai de casa sem máscara por questões de segurança:

- Estamos assistindo a milhares de pessoas morrendo, mesmo utilizando todas as medidas de proteção. Então, imagina se não usar? Depois, não adianta dinheiro, porque estamos, ricos e pobres, na mesma condição quando nos referimos ao coronavírus - destaca Francine.

Se no centro da cidade a maioria das pessoas utiliza a proteção, principalmente porque trabalha ou acessa as lojas e transporte coletivo, o mesmo não se pode dizer quando se observa outras regiões de Santa Maria. No Bairro Salgado Filho, Região Norte, o trânsito de pessoas nas ruas era majoritariamente sem o equipamento de proteção. Já no Bairro Tancredo Neves, na Região Oeste, devido ao centro comercial do bairro, a utilização de máscara era maior. No entanto, basta se afastar das ruas principais, e a falta do equipamento era ainda mais perceptível.

Em nove meses de total isolamento, a aposentada Solange Paz, 45 anos, sai de casa só para fazer o essencial. Ontem, ela foi ao dentista, mas fez questão de cumprir todos os protocolos.

- Tenho imunidade baixa e uma grande preocupação com a minha saúde e a de todos familiares e amigos com quem convivo. Então, não existe a menor possibilidade de sair sem máscara - explica a aposentada.

POPULAÇÃO DEVE MANTER OS PROTOCOLOS DE SEGURANÇA
Para o filósofo Dejalma Cremonese, a questão comportamental é influenciada pelo tempo que as pessoas estão convivendo com normas e restrições. Além disso, o negacionismo por parte de lideranças e de parcela da população influencia, em alguns casos, no não seguimento dos protocolos.

- Há um cansaço, porque as pessoas não estavam acostumadas a restringir a locomoção, por exemplo. E há, também, o negacionismo vindo de figuras representativas. Dessa forma, as pessoas passam a acreditar que situação não é grave - conclui Cremonese.

Na mesma linha, a também professora e socióloga Suelen Aires Gonçalves acredita que a falta de um plano de ação por parte do governo e a não conscientização geram a sensação de normalidade na sociedade, como se não houvesse pandemia. Segundo a socióloga, a negação da ciência também é um fator determinante no comportamento social.

- Em um país onde a negação da ciência prevalece, inclusive por parte de autoridades nacionais, há uma banalização das relações de cuidado, afeto e respeito com a dignidade humana - diz Suelen.

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O epidemiologista Marcos Lobato, dentre outros fatores, acrescenta o fato de outros locais do Estado e do país se encontrarem com dados ainda mais alarmantes que Santa Maria, o que deixa para algumas pessoas a falsa impressão quanto à gravidade da pandemia no município. O médico faz um alerta: é preciso cultivar os cuidados, tanto individual quanto com familiares, amigos e colegas de trabalho.

- É uma falsa sensação, pois não reflete a realidade. Infelizmente, isso provoca um relaxamento em medidas como o uso de máscaras - afirma Lobato.

Principalmente em função dos índices ligados à Covid-19 estarem em alta na cidade, como o número de casos ativos e a taxa de ocupação de leitos de UTI, destaca, ainda, que a atenção com as medidas deve ser redobrada.

LEI DAS MÁSCARAS
Fica determinado Lei Municipal 6.485/2020 o uso obrigatório de máscara de proteção facial, mantendo boca e nariz cobertos, nos espaços e vias públicas, de uso coletivo, privado ou público, em táxi, serviço de transporte motorizado privado individual por aplicativo, transporte público, coletivo, bem como no interior de estabelecimentos que executem atividades, quando autorizado o seu funcionamento, por consumidores, fornecedores, clientes, empregados e colaboradores, excetuando-se os veículos particulares:

  • Fiscalização - O primeiro passo é orientar a pessoa a utilizar a máscara 
  • Autuação - Caso a pessoa se negue a utilizar a máscara, é aplicada uma multa
  • Multas - Os indivíduos que se recusarem a utilizar ou a corrigir o uso do item poderão receber multa de R$ 106 a R$ 568, no registro da primeira até a terceira reincidência.
  • Dívida - O não pagamento da multa resulta na inclusão em dívida ativa

COMO USAR
Confira, abaixo, algumas orientações sobre o uso de máscaras:

  • As mais comuns, feitas de pano, devem ser trocadas em até 2h, ou antes, caso esteja úmida 
  • O contato com a máscara deve ser só pelas alças, não se deve tocar na frente ou na parte interna
  • Nas refeições em locais públicos, como lancherias ou restaurantes, o mais adequado é enrolar a máscara em um lenço ou guardanapo de papel e deixá-la em superfície higienizada. Depois da refeição, use a máscara novamente
  • É importante utilizar uma máscara que fique bem colocada no rosto, as muito folgadas exigem contato a todo momento para readequar
  • Ao praticar exercícios, mesmo ao ar livre, se houver proximidade com outras pessoas é necessário utilizar máscara para evitar a transmissão do vírus. Ela deve ser trocada com maior frequência, porque conforme vai ficando úmida, perde capacidade de filtragem

Fonte: Marcos Lobato, epidemiologista

RECORDES NEGATIVOS
Usar a máscara é fundamental, ainda mais quando o mês de dezembro, em Santa Maria, bateu recordes negativos da pandemia de coronavírus

  • Somente em dezembro, a cidade registrou 35 mortes (até 28 de dezembro) 
  • No último sábado, a taxa de ocupação de leitos registrou 92,3% da capacidade, o máximo até agora
  • Dezembro marcou 2.502 casos confirmados da doença (até 28 de dezembro)
  • No último domingo, os casos ativos da doença chegaram a 1.649

*Colaborou Wederlei Pires  



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