coronavírus

Após manifesto, tratamento precoce à Covid-19 volta ao debate

Entre medicamentos específicos ou coquetéis, linha mais acertada é que o tratamento deve ser discutido entre médico e paciente

Foto: Foto: Anselmo Cunha

Foto: Anselmo Cunha

Três dias depois de positivar para coronavírus e sentir os sintomas piorarem, uma jovem de 18 anos procurou um ambulatório na rede particular da cidade. No local, a paciente passou por triagem, e o médico plantonista receitou cloroquina, azitromicina, ivermectina, dipirona e um anti-inflamatório.

Com febre, diarreia, tosse há três dias e falta de ar, um outro homem também residente em Santa Maria, informou ter procurado o Pronto-Atendimento (PA) na rede pública. Lá, foi prescrito o uso de dipirona, remédio para flora intestinal e um xarope para tosse. Ele também passou por uma averiguação com oxímetro em que foi imediatamente constatado a baixa oxigenação sanguínea e o comprometimento no pulmão. O homem foi orientado a fazer o teste de coronavírus e liberado. A febre persistiu e os sintomas respiratórios agravaram. Ainda não há informações se ele confirmou ou não a doença.

"Viram que de acordo com os batimento dele o pulmão já estava ruim, mas nem fizeram raio-x", diz a esposa que acompanhava o paciente.

Casos acima (atualmente os dois se recuperam em casa) ilustram um cenário que instiga discussões mesmo quase um ano depois de a pandemia se instalar em Santa Maria: os diferentes tratamentos e orientações para quem tem sintomas ou é infectado por coronavírus.

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Segundo a infectologista Jane Costa, não há um padrão para o tratamento. Mas a médica defende que o uso de medicações comece o quanto antes.

- Hoje, não se tem um protocolo institucional e fica na mão do médico. A terapia precoce precisa ser utilizada nos primeiros cinco dias. Na dúvida, é preferível dar o remédio do que não dar nada. Não é para as pessoas ficarem tomando remédio enlouquecidamente. Tem que procurar o médico, seguir o protocolo e a orientação. Cada paciente é único, não podemos ter uma receita de bolo, vamos adequar o tratamento.

Na esteira dessa discussão, um manifesto de 279 médicos do município passou a "viralizar" em grupos de mensagens e ganhou as redes sociais.  Eles pedem a adoção de um tratamento precoce contra a pandemia. A combinação, segundo a orientação médica, observa a prescrição dos seguintes medicamentos: hidroxicloroquina, ivermectina, bromexina, azitromicina, nitazoxanida, zinco, vitamina D e anti-coagulantes, além de corticóides. Os médicos afirmam pautar tal decisão "em estudos científicos atualizados (...) e em medicamentos com os quais temos experiência de longa data (...)". 

Veja o manifesta completo e a lista dos médicos que o assinaram clicando aqui.

Um dos médicos idealizadores do manifesto, o infectologista Fábio Lopes Pedro, reitera que não há um tratamento único para a Covid-19 e que tudo depende da relação médico-paciente e do histórico clínico da pessoa. Segundo ele, todas as assinaturas foram coletadas em cerca de 12h.

- Se a pessoa for idosa, se for criança, se tiver problema renal, se tiver problema cardíaco, vai variar o medicamento a ser usado. Isso deve ser analisado por cada médico, que é especialista no assunto. Não queremos criar pânico, pelo contrário, queremos tranquilizar a comunidade de que há medicamentos que dão resultado se usados no início do tratamento. Mas, não existe tratamento preventivo. Não deve ser feita a automedicação desses remédios. Tudo deve ser analisado e prescrito por um médico. O papel da população é procurar atendimento assim que surgirem os primeiros sintomas, ainda que leves - explica Fábio Lopes Pedro.

Instituições e órgãos de saúde seguem sustentando a liberdade profissional e avaliação para cada caso "entre médico e paciente". A reportagem do Diário também ouviu, quatro médicos da cidade, que relatam que o mais prudente era não se manifestar sobre tipos de tratamento publicamente. Dois entre os quatro, não concordaram com os termos do manifesto, mas não quiseram compartilhar as justificativas.

"Não vamos sustentar o tratamento precoce sem a prescrição do médica", diz prefeito

Em resposta ao "Manifesto pelo Tratamento Precoce", a prefeitura de Santa Maria informou, por meio de nota, que "reforça que desde o começo da pandemia, os medicamentos listados no documento estão disponíveis na Assistência Farmacêutica do município gratuitamente para a população mediante prescrição médica. São eles: cloroquina, ivermectina, azitromicina, anticoagulante e corticóides. Os medicamentos em questão podem ser solicitados nas farmácias municipais Central, Kennedy, São Francisco, Floriano Rocha ou Distrital Leste, além de nas farmácias do Pronto-Atendimento do Patronato e da Policlínica Ruben Noal. Os demais medicamentos listados no manifesto devem ser adquiridos de forma particular, conforme orientação médica. Para ter acesso aos medicamentos, o usuário precisa ser residente em Santa Maria e ser atendido no SUS do município. Ainda, o paciente deve apresentar a receita contendo a Denominação Comum Brasileira/nome genérico do medicamento. A listagem está disponível no site da prefeitura."

- O manifesto trata em dois assuntos: primeiro, o tratamento precoce e, depois, a relação médico-paciente. Portanto, todo e qualquer tratamento precoce sustentado pela relação médico-paciente, a prefeitura concorda. Tem, inclusive, os remédios disponíveis. Mas, não vamos sustentar o tratamento precoce sem a prescrição do médico. O código de ética dos médicos é bem claro quando diz que é infração grave deixar de disponibilizar todos os meios para atender a saúde dos seus pacientes. A prefeitura de Santa Maria também é muito clara: respeito absoluto pela relação médico-paciente, que é o que o manifesto diz - pontua o prefeito Jorge Pozzobom (PSDB).

Estudos e recomendações

Na última segunda-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou, em um painel, um estudo publicado pela revista científica The BJM que mostrou que a hidroxicloroquina teve pouco ou nenhum resultado em tratamentos de pacientes com Covid-19, além de poder causar efeitos colaterais. Os resultados do estudo foram esclarecidos por um grupo de 32 pesquisadores que afirmaram "que esta droga não é mais uma prioridade de pesquisa e que os recursos deveriam ser direcionados para avaliar outras drogas mais promissoras para prevenir Covid-19".

Um informativo publicado no site da Sociedade Brasileira de Infectologia sustenta que "as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no tratamento precoce para a Covid-19 até o momento. Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde".

Em janeiro, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) encaminhou ofício ao Ministério da Saúde pedindo a revogação de qualquer instrumento que incentive o uso de medicamentos para Covid-19, sem eficácia e segurança comprovadas pela Anvisa.

EM SANTA MARIA

Secretaria Municipal de Saúde - Questões são baseadas em avaliação médica. Os profissionais seguem a Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remume)

Husm - A análise específica dos casos também é o protocolo do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) para uso de medicações contra a Covid-19. Conforme informou a assessoria, o hospital não se pronuncia acerca de tratamentos "por se tratar de uma questão médica, discutida individualmente entre a equipe, paciente e família"

Hospital Regional - Por meio da Secretaria Estadual da Saúde (SES), foi informado que é seguido o Plano de Contingência do Estado contra o coronavírus. Nele, estão incluídas recomendações e ações que devem ser tomadas pelas entidades de saúde, mas não há uma lista concreta de quais remédios devem ser utilizados. O único destaque do plano, porém, para medicamentos, encontra-se em um trecho que ressalta o uso da cloroquina. O trecho diz que "a cloroquina será utilizada como terapia no tratamento de formas graves, em pacientes hospitalizados, sem que outras medidas de suporte sejam preteridas em seu favor". Apesar disso, o plano considera que "não existe outro tratamento específico eficaz disponível até o momento". Conforme a coordenadora da 4ª CRS, Fabricia Ennes, o que define quais e quantos medicamentos virão para a região é a demanda dos hospitais e unidades de saúde

UPA - "Segue orientações da Anvisa e do Ministério da Sáude. A conduta é médica, não é exigido o que tem ou não que prescrever"

Hospital de Caridade, Unimed e Cremers - Até as 19h desta quarta-feira, não houve retorno à reportagem. O contato foi feito por meio do WhatsApp e ligações telefônicas


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