o legado da toxo

3 anos depois, o que aprendemos com o maior surto de toxoplasmose do mundo?

Vigilância acredita que a cidade ainda pode ter subnotificação de casos

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Foto: Foto: Pedro Piegas (Diário)
Na quinta-feira, agentes da Vigiágua municipal coletaram amostras de água de 11 pontos da área central


Foto: Pedro Piegas (Diário)/
Na quinta-feira, agentes da Vigiágua municipal coletaram amostras de água de 11 pontos da área central

Na última segunda-feira, completaram-se três anos da confirmação oficial do surto de toxoplasmose em Santa Maria pelas autoridades em saúde, o maior em números absolutos de confirmações identificado no mundo até agora, com 902 casos confirmados - entre eles, com registros de 10 abortos, três mortes fetais e uma morte por toxoplasmose congênita (bebê infectado durante a gestação e que nasceu com a doença).

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Segundo a Vigilância Epidemiológica, no ano passado foram 110 notificações da enfermidade na cidade. De janeiro a março deste ano, apenas 30. Números bem abaixo do que os registrados em 2018, quando 1.947 notificações foram feitas (veja mais abaixo). Apesar da queda expressiva, o baixo índice pode estar sendo subdimensionado. O superintendente da Vigilância Municipal em Saúde, Alexandre Streb, acredita que, mesmo com a sensibilização de três anos atrás, ainda há uma grande subnotificação da doença no município.

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- A gente acredita que os números em Santa Maria são bem altos, ainda que subnotificados. Aos poucos, esses números foram caindo e, agora com a pandemia, isso é mais evidente. Mas nós acreditamos que esses números baixos de notificações são resultado de uma negligência de diagnóstico do que propriamente a realidade - alerta.

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A suspeita pode ser evidenciada pela frequência de notificações à prefeitura - das 110 realizadas em 2020, apenas 11 foram de toxoplasmose adquirida, sendo 35 de toxoplasmose congênita e 64 em mulheres grávidas.

- Nos casos mais leves, às vezes a doença passa despercebida, e isso faz com que não se dê a real dimensão do potencial de transmissão. A doença pode estar silenciosamente sendo transmitida, o que reflete nesse número grande de gestantes com a toxoplasmose, por isso fica óbvio que está sendo subnotificada - explica Streb.

A toxoplasmose é uma zoonose, de circulação endêmica, causada por um protozoário - o Toxoplasma gondii. A toxoplasmose aguda não é uma doença de notificação compulsória, mas desde 2016 uma portaria nacional tornou obrigatória a notificação da toxoplasmose gestacional e congênita.

Apesar disso, o superintendente municipal acredita ser muito difícil vivenciar um próximo surto do mesmo nível do que o de 2018.

- É algo muito difícil, em função do estado de tensão que ainda vivemos, mas não é impossível. Estamos alertas para um surto de qualquer dimensão. Nós chamamos a atenção do país para uma doença até então negligenciada, fomos a Brasília, no Senado, e ficou aquela promessa de que algumas coisas seriam consolidadas, como a notificação compulsória em todo o país e o teste do pezinho, que foi um ganho, mas só ficou no plano, e isso é um pouco frustrante - conclui Streb.

MELHORIAS
Apesar de o Brasil não ter tido as melhorias esperadas pelos órgãos de saúde como lição do surto de toxoplasmose, na cidade fica o saldo positivo. A própria Vigilância em Saúde passou a ser mais valorizada, com o acréscimo de servidores, principalmente na área de epidemiologia, e ganhou até um prédio novo. Um dos ganhos foi a implementação de um Plano de Amostragem da Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua) no município, que antes não existia.

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São 98 pontos de monitoramento de água, na zona urbana e rural de Santa Maria (veja abaixo). As amostras coletadas são enviadas ao Laboratório Central do Estado (Lacen-RS), que possui uma filial regional na sede da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde só para fazer a análise do material coletado. Os parâmetros verificados são: cloro residual livre (in loco), turbidez, coliformes totais e fecais.

- Esse plano tem por função mais básica o monitoramento mais criterioso do que se tinha, não só com relação à toxoplasmose, mas a qualquer alteração química ou bioquímica da água. Hoje, não sai nenhum caminhão-pipa sem antes ter uma análise da água antes de ela ser distribuída. A qualidade da água hoje é mais monitorada do que ela era anteriormente ao surto - diz Alexandre Streb, superintendente da Vigilância em Saúde.

Na quinta-feira, agentes da Vigiágua coletaram 11 amostras em 10 pontos do Centro. Streb diz que essas amostras não são testadas para a presença do protozoário, mas que, havendo qualquer indício de alteração na qualidade da água, o exame é feito.

- Não temos mais o envio mensal com teste para toxoplasmose da Corsan, que foi feito por um ano e meio, mas analisamos outros indicadores, e qualquer alteração bioquímica que indique essa necessidade, qualquer suspeita que a água não esteja sendo tratada devidamente, nós fazemos. Os pontos foram estabelecidos de acordo com as regiões mais frágeis, com probabilidade de acidente com água.

Streb avalia que a população precisa manter o cuidado constante, principalmente se for gestante. Além disso, é recomendado fazer a limpeza das caixas d'água anualmente e evitar a circulação de animais em ambientes propícios à contaminação.

PONTOS DE COLETA DE ÁGUA

As amostras coletadas mensalmente são oriundas de 98 pontos de monitoramento de água para consumo humano, alocados na zona urbana e na zona rural da cidade. Conforme o Plano de Amostragem da Vigiágua de Santa Maria, as coletas são realizadas em pontos de água direta da tubulação de distribuição de água. A alocação dos pontos de coleta de amostras priorizou os locais que apresentam grau elevado de fragilidade, como hospitais, unidades básicas de saúde, escolas, creches e locais de aglomeração - shoppings, rodoviária, aeroporto e clubes - que possuem fluxo intenso de pessoas. São eles:

  • Rota Norte - 10 pontos
  • Rota Nordeste - 12 pontos
  • Arroio do Só - 5 pontos
  • Rota Leste - 14 pontos
  • Rota Oeste - 11 pontos
  • Rota Sul e Santa Flora - 14 pontos
  • Boca do Monte - 8 pontos
  • Palma e Arroio Grande - 8 pontos
  • Rota Centro - 11 pontos
  • Pains - 5 pontos

NOTIFICAÇÕES POR TOXOPLASMOSE EM SANTA MARIA

Agravo201620172018201920202021*
Toxoplasmose congênita187331183512
Toxoplasmose em gestantes2414135886417
Toxoplasmose adquirida331.779**35**111
Total45241.94724111030

* De janeiro a março de 2021
** Dos casos de toxoplasmose adquirida, foram notificados 1.714 casos no surto em 2018 e 23 casos em 2019

Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) Municipal, em 15 de abril de 2021


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