violência

'Quando uma de nós sai de casa, não sabe se vai voltar' diz amiga de trans assassinada

Veronica Oliveira foi morta nesta madrugada. Este foi o terceiro assassinado de transexual em 2019 em Santa Maria

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Foto: Foto: Germano Rorato (Arquivo Diário)


Foto: Germano Rorato (Arquivo Diário)
Verônica administrava um alojamento para transexuais

Moradores do Bairro Urlândia, na região sul de Santa Maria, e a comunidade LGBTQ+ estão revoltados com a morte de Veronica Oliveira, 40 anos, assassinada na madrugada desta quinta-feira na Avenida Borges de Medeiros, no Bairro de Nossa Senhora de Fátima. Nas redes sociais, quem conheceu Verônica ou o trabalho dela, se manifestou lamentando o crime e lembrando da trajetória dela. 

Veronica é fundadora de um alojamento para mulheres transexuais no bairro. O Veronica Alojamento foi criado há 13 anos e é considerado uma referência em Santa Maria e no Estado, sendo o único da cidade. No local, ela acolhe mulheres transexuais que muitas vezes são expulsas de casa pela família e vêm de vários locais do país. Hoje cerca de 20 meninas vivem no alojamento.

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Marquita Quevedo, fundadora da ONG Igualdade e amiga de Veronica, diz que amigos e familiares da vítima estão indignados com a morte violenta:

- Foi mais uma grande perda para o movimento trans. Uma perda lastimável. Hoje, vivemos com medo de sair de casa. Toda vez que uma de nós sai de casa, não sabe se vai voltar. O clima é de insegurança há muito tempo na cidade, ainda mais para quem trabalha na noite. As pessoas se acham no direito de matar uma mulher da noite só porque não aceita fazer programa. Isso é muito revoltante - afirma a amiga.

Marquita lembra que Verônica era conhecida pelo apelido carinhoso de Mãe Loira, já que acolhia e cuidava das meninas transexuais do alojamento. 

Amiga de Veronica há mais de 20 anos, a militante Cilene Rossi também lamenta o assassinato. Para ela, o falecimento representa a perda de um ícone para Santa Maria.

- Ontem mesmo ela relembrou uma postagem em que ela agradecia pela nossa amizade. Agora, vamos esperar pela justiça, não pode ficar impune. Ela, que foi militante, lutava tanto pela causa, sofreu da violência, da transfobia - lastima.

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Cilene lembra também da amizade de Veronica com Nei D'Ogum, ativista religioso e social, que morreu em 2017. O apelido pelo qual era conhecida, "Mãe Loira", foi criado por Nei.

- Ela queria levantar a bandeira do Nei D'Ogum, que também já se foi. Ele apoiou muito a nossa classe. Ela levantava a bandeira. E continua essa luta - fala Cilene.

A professora da UFN Martha Souza realiza trabalhos com a comunidade trans há muitos anos. Amiga de Verônica, a professora comenta que ela era referência em todo o Brasil, pois as pessoas ficavam sabendo que, em Santa Maria, havia uma mulher e uma casa que abrigava as mulheres trans.

- Não dá para acreditar, e ainda no mesmo lugar em que a Carol morreu. E por um motivo banal. Esse discurso de ódio infeliz que tomou conta do país. É como se elas não merecessem existir - lamenta Martha.

O velório de Verônica será na capela 2 do Hospital de Caridade às 19h.

Este é o terceiro caso de homicídio de transexual no ano em Santa Maria e o 44º assassinato na cidade em 2019. De acordo com o delegado Gabriel Zanella, o suspeito do crime ainda não foi identificado.

O CASO
De acordo com a Brigada Militar, o caso aconteceu às 3h30min desta quinta na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Avenida Presidente Vargas. Quando os policiais militares chegaram no local, a vítima estava inconsciente e com um ferimento causado por faca no abdômen. Ela foi socorrida pelo Samu e encaminhada ao Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) em estado grave. 

De acordo com o delegado Gabriel Zanella, o suspeito do crime ainda não foi identificado. O delegado afirma que a vítima estava acompanhada de mais duas mulheres. Um homem teria chegado de carro no local e solicitado um programa sexual. As três mulheres não aceitaram o valor que ele teria oferecido e, neste momento, uma discussão começou.

- Em um dado momento, o homem foi até o interior do automóvel, sentou no banco do motorista e tentou esconder uma arma branca (faca ou estoque). Nesta ocasião, mudou repentinamente de comportamento, tendo parado de proferir xingamentos. Quando iniciou a saída do local com o automóvel, desferiu um golpe de arma branca no abdômen da vítima, que estava parada na rua - afirma o delegado. 

A polícia está buscando imagens de câmeras de segurança nas imediações.

TERCEIRA VÍTIMA TRANS 
Verônica Oliveira é a terceira transexual assassinada neste ano na cidade. No dia 7 de setembro, Carolline Dias, 27 anos, foi morta com um tiro nas costas. O assassinato de Carolline também ocorreu na esquina das avenidas Presidente Vargas e Borges de Medeiros. Uma pessoa foi indiciada pelo crime e está na Penitenciária Estadual de Santa MAria (Pesm).

No dia 13 de setembro, Mana, 37 anos, foi morta a facadas por dois homens. O crime aconteceu na Zona Oeste e a dupla autora também está na Pesm. Depois dos dois assassinatos, um protesto foi organizado no Centro pedindo Justiça pelas duas mortes e defendendo o fim da homofobia. Verônica Oliveira participou do ato. 

*Colaboraram Janaína Wille e Leonardo Catto


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