mês da visibilidade trans

VÍDEO: ainda como exceção, pessoas trans buscam espaço no mercado de trabalho em Santa Maria

Na Câmara de Vereadores, é a primeira vez que há quatro mulheres trans como assessoras de parlamentares

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Fotos: Renan Mattos (Diário)
Cileni Rossi (da esquerda para a direita), Stéfany Rodrigues, Luiza Barros e Alle Paz são assessoras na Câmara de Vereadores de Santa Maria

Quantas pessoas transexuais e travestis você convive no mercado de trabalho? De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), estima-se que 1,9% da população brasileira seja trans, mas 90% da comunidade, marginalizada e inviabilizada, precisa recorrer à prostituição. Em Santa Maria, apesar de não haver estimativas locais, a comunidade trans tem conseguido, aos poucos, ocupar lugares de destaque na sociedade e também nos postos formais de emprego.


Um exemplo é na política. Neste ano, pela primeira vez na história da Câmara de Vereadores, o Legislativo conta com quatro mulheres trans como assessoras de vereadores: Luiza Barros, 38 anos, assessora da vereadora Professora Luci Tia da Moto (PDT), Cilene Rossi, 50 anos, assessora da vereadora Marina Callegaro (PT), Alle Paz, 28 anos, e Stéfany Rodrigues, 22 anos, assessoras do vereador Rudys Rodrigues (MDB). 

A pioneira a chegar até a "Casa do Povo" foi a Luiza, que completou um ano como assessora em janeiro de 2021. Apesar de ter sido bem recebida no emprego, a trajetória até aqui foi atravessada por preconceitos. Nascida em Santa Maria, as marcas da intolerância começaram ainda na época da escola, e só terminou porque contou com o incentivo da família. Na adolescência, o primeiro emprego que conseguiu foi em uma loja de roupas como repositora de estoque porque, segundo ela, era onde "a podiam deixar escondida". Em uma oportunidade ao acaso, mostrou que poderia ser uma boa vendedora e foi promovida. Desde então, fez de tudo um pouco: seguiu trabalhando com vendas, foi embora da cidade, empreendeu em um salão de beleza e no comércio e, por necessidade, recorreu à prostituição. Há seis anos, retornou para o Coração do Rio Grande para cuidar do pai, e então começou a se engajar em projetos sociais para poder cuidar de mais pessoas. 

- A recepção na Câmara foi muito tranquila, até porque quando cheguei eu era a Luiza, e não a Luiza Trans. Eu nunca quis nem deixei a vereadora levantar esse tipo de bandeira, porque a minha intenção era de que as pessoas me respeitassem por aquilo que eu sei e pela minha competência. Hoje me sinto honrada e feliz de ter mais três colegas de trabalho, porque na época eu queria construir um caminho para que hoje elas chegassem e fossem respeitadas pela sua orientação e pela identidade, pela qualificação que cada uma tem - conta.

Já para Cilene, estar no cargo é novidade. Natural de Santa Maria, apesar de ter uma história única, o preconceito também marcado na alma acaba por ser o fio que alinhava a trajetória dela e de tantas outras mulheres trans. Por 15 anos, trabalhar como profissional do sexo foi a única saída para sobreviver. Depois, ela conseguiu a oportunidade de fazer parte da equipe que confeccionava os enfeites do Natal da cidade, há mais de 10 anos. A contrapartida para isso era de que aqueles que se destacassem ganhariam empregos, e foi o que deu a ela a primeira carteira assinada como serviços gerais na rodoviária. 

- Eu fiquei seis anos na parte da limpeza e fui a primeira mulher trans a ser inserida no mercado de trabalho no Brasil, com crachá com nome feminino, embora minha carteira de trabalho ainda era com meu nome de batismo - lembra. 

Ela só saiu do emprego porque precisou cuidar da mãe, que estava com problemas de saúde. Mesmo como dona de casa, se manteve ativista em festas e eventos LGBTQI+. 

- Estar aqui hoje para mim é questão de muito orgulho enquanto mulher trans, negra e periférica. Saber que aqui a gente pode ter a voz dos menos favorecidos, das classes que são deixadas lá nas vilas, que eu sei bem como funciona. Eu estou aqui não só por mim, mas estou por todas - completa Cilene. 

PRIMEIRA CANDIDATA TRANS
É também a primeira vez de Stéfany a ocupar o cargo de assessora, mas antes mesmo do ano começar ela já fazia história na cidade. Durante as eleições municipais de 2020, ela concorreu à vereadora pelo PT e, apesar de não ter se elegido, foi a primeira vez que uma mulher trans tentou o cargo na cidade. Em todo o país, foram pelo menos 30 pessoas trans eleitas como vereadoras e três no Rio Grande do Sul: Lins Roballo (PT), em São Borja, Yasmin Prestes (MDB), em Entre-Ijuis, e Maria Regina (PT), em Rio Grande. 

- Eu fiz 459 votos e fiquei como suplente pelo meu partido. Depois, o vereador Rudys me procurou e me fez o convite para trabalhar com ele. Me sinto muito feliz e honrada em fazer parte dessa construção e representatividade - comenta a assessora. 

Nascida em Santa Maria, Stéfany desde adolescente começou a trabalhar como diarista e cuidadora de idosos, o que a ajudou a terminar os estudos e formar-se em Marketing, Empreendedorismo, Gestão Empresarial e Mídias Digitais. Além disso, sempre atuou em projetos sociais, principalmente na Região Norte da cidade, onde cresceu. 

'MINHA HISTÓRIA É EXCEÇÃO'
Alle, junto com as outras três mulheres, integra o quadro histórico de assessoras do Legislativo. Mesmo feliz com o cargo, ela não deixa de ressaltar que a posição ocupada hoje é uma exceção na vida de uma trans. Ela é natural de São Borja e vive em Santa Maria há cerca de três anos. Sempre apoiada pela família, ela teve acesso ao Ensino Superior, que ainda está em andamento, e é atuante em movimentos sociais voltados à garantir direitos de pessoas LGBTQI+.

- Eu e as outras três meninas que estamos aqui ocupando esse cargo somos exceções. A nossa história e a oportunidade que estamos tendo hoje nunca pode ser usada como referência de uma vida trans, porque a gente sabe que muitas meninas vivem em vulnerabilidade, são marginalizadas, vivem na prostituição. Eu tive acesso à educação, ao apoio familiar, conheci pessoas que me abriram portas. As pessoas podem nos ouvir e pensar 'ah, se conseguimos, todas conseguem', mas não é essa a realidade. Somos o país que mais mata trans, não tem espaço no mercado de trabalho, no setor público. Vivemos em um país transfóbico - aponta. 

De acordo com o levantamento mais recente sobre assassinatos e violência contra pessoas trans brasileiras, da Antra, no ano passado foram mapeados 175 assassinatos contra travestis e mulheres trans. As vítimas tinham entre 15 e 29 anos e 65% dos casos foram direcionados àquelas que atuavam como profissionais do sexo. Em Santa Maria, em 2019 dois assassinatos aconteceram em menos de três meses em locais conhecidos como pontos de prostituição, vitimando a ativista Veronica Oliveira, 40 anos, e Carolline Dias, 27 anos.

Para o advogado e professor universitário Alberto Barreto Goerch, que também é doutorando em Diversidade Cultural e Inclusão Social pela Universidade FEEVALE, a realidade das ruas para tantas trans pode ser explicada pela falta de apoio, qualificação e oportunidades:

- Na maioria das vezes, o momento da transformação do corpo, que é a puberdade, acontece na fase escolar, onde quase sempre elas são expulsas de seus lares ou não têm apoio da família, e acabam abandonando o estudo. Com a evasão escolar, a qualificação baixa e sem a estrutura familiar, o único ambiente que acaba sendo propício para elas se manterem é com a prostituição, porque elas conseguem fazer isso sendo quem elas são com o corpo que elas têm - afirma.  

Goerch ressalta que para diminuir esse abismo entre oportunidades e pessoas trans, é preciso criar ambientes mais inclusivos com informação e educação: 

- É preciso gerar mecanismos de acesso à informação, levando educação sobre diversidade sexual e gênero na escola e para as famílias, porque dessa forma consecutivamente a gente vai ter menos práticas discriminatórias, o que vai reduzir a exclusão social. Isso vai possibilitar ambientes inclusivos, que é um direito de todo ser humano de ter a sua dignidade garantida - completa. 

Foto: Renan Mattos (Diário)
Maria Eva criou um ateliê em casa e hoje vende peças até mesmo para fora do Estado

EMPREENDEDORISMO
Depois de 10 anos sem estudar, Maria Eva Rizatti, 37 anos, prestou vestibular para o curso superior de Design em Moda na Universidade Franciscana de Santa Maria (UFN) e, em 2018, foi diplomada. Sem conseguir nenhuma oportunidade de emprego, ela se tornou empreendedora e criou o ateliê Fio O Fó, especializada em moda praia e lingerie. Mas o percurso não foi fácil. 

- Travesti não tem oportunidade de trabalho, é um preconceito muito grande, como se a gente só servisse para fazer programa ou ser vista como um órgão sexual. Eu nunca consegui emprego em lugar nenhum. No primeiro dia da faculdade, eu já sofri transfobia. Eu não desisti dos meus estudos por causa da minha família - conta. 

Não foram poucas as vezes em que ela pensou em largar a faculdade. Maria Eva relata que sofreu diversas agressões verbais e até mesmo a recusa de professores em a chamarem pelo feminino. Mesmo assim, fez parte de todas as disciplinas e eventos acadêmicos até o último semestre. Logo depois, começou a fabricar calcinhas para amigas com sobras de tecido que ganhava de uma fábrica. Hoje, sua marca vai até mesmo para fora do Estado e, quando ela tem alta demanda, contrata funcionários, além de ofertar cursos e estágios. 

- Eu lutei, nada foi fácil. Hoje eu ainda sofro preconceito em loja de tecido, em loja de maquiagem, até mesmo indo no mercado. A gente precisa falar sobre a visibilidade trans não só na data, mas todos os dias e nos questionar. Quantas travestis estão trabalhando no mercado? Na loja? Quantas oportunidades dão para travestis? - ressalta.

Foto: Arquivo pessoal
Alef em uma das aulas do curso Cozinha & Voz com a chef Paola Carosella

CAPACITAÇÃO
Desde 2017, é realizado o projeto Cozinha & Voz, em São Paulo, apoiado pela chef de cozinha conhecida por ser jurada do MasterChef Brasil, Paola Carosella. O principal objetivo é acolher e capacitar pessoas trans para o mercado de trabalho. No ano passado, por conta da pandemia, a turma foi on-line, o que oportunizou a participação do santa-mariense Alef Vieira Mustafá, 27 anos. Formado em Design pela UFN, ele trabalha como freelancer e viu no curso uma oportunidade de se qualificar como auxiliar de cozinha.

A turma começou em novembro e a formatura acontece nesta segunda-feira. As aulas eram de segunda a sexta, e os participantes tinham direito a uma bolsa-auxílio de R$ 500. Além da culinária, também era ensinado poesia, música e haviam palestras, que ajudam desde a montar um currículo até como se portar em uma entrevista de emprego. 

- A pessoa trans começa tendo dificuldades já na infância. Eu nasci em uma família com uma condição financeira ok, mas eu sabia que enfrentaria muito problema no futuro, porque eu tenho descendência árabe, e muita coisa é enraizada. Eu sabia que enfrentaria preconceito quando me assumisse. No curso, além de aprender, também foi muito enriquecedor conhecer outras pessoas. Essa capacitação vai dar a oportunidade à muita gente de tentar um emprego mais digno - comenta o jovem. 

Outro local que também oferta capacitações é a plataforma Transempregos - um portal nacional com vagas e currículos para pessoas trans - que tem curso on-line e gratuito para o mercado de trabalho. O TRANS-formAção! é dividido em quatro módulos, dá direito a certificado e oportuniza o compartilhamento de currículos com empresas interessadas em contratar profissionais trans qualificados. No site também é possível encontrar vagas para todo o país. 

No Rio Grande do Sul, o governo lançou nesta semana o Qualifica Trans, que oferta 127 vagas distribuídas nos cursos de Design de Sobrancelhas, Informática Fundamental Office e Mobile, Preparando-se para o primeiro emprego e Preparo de Bolos e Tortas. Para a Região Central, há, no total, 15 vagas, entre Santa Maria e Santiago. A previsão é que o processo seletivo para as vagas, que terá critérios estipulados como condições socioeconômicas, tenha início no mês de março pelo site da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH).


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