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Transporte público tem queda de 80% no número de passageiros em Santa Maria

Representante da ATU afirma que não houve demissões, mas redução de carga horária dos funcionários

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Foto: Foto: Gabriel Haesbaert

Foto: Gabriel Haesbaert/Na Avenida Rio Branco, um dos principais pontos da cidade, trabalhadores aguardam ônibus, agora com horários mais espaçados

Desde o registro do primeiro caso de Covid-19 e da adoção de medidas de isolamento no município, em meados de março, a queda no número de passageiros que usam o transporte público urbano em Santa Maria levou a diminuição dos ônibus que circulam, e o aumento no intervalo entre um veículo e outro. Neste cenário, passageiros reclamam da demora, motoristas e cobradores temem por seus empregos e gestores das empresas de ônibus dizem operar no negativo e já trabalham com a possibilidade de paralisação do serviço. A queda mais significativa no número de passageiros foi em abril, quando a redução foi de 82% em comparação ao mesmo mês de 2019. Os dados são da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana.

A redução no uso do transporte já era visível em anos anteriores. Ao longo de 2018, por exemplo, a queda fora de 3,6%. Mas a pandemia do novo coronavírus agravou a situação. Nos primeiros quatro meses de 2019, as catracas giraram 9.157.050. No mesmo período deste ano, esse número foi de 5.776.498. Ou seja, mesmo se somados ou meses de janeiro e fevereiro, antes do distanciamento social, a redução no ano até agora é de mais de 3 milhões de embarques, ou quase 37%. 

Contudo, diferente do que acontecia nos anos anteriores quando o número total de passageiros caia, mas o de usuários com gratuidade total ou que pagam meia aumentava, nestes primeiros quatro meses, a queda é geral. Com a suspensão das aulas em escolas e universidades, o índice de usuários que pagam apenas metade do valor da passagem caiu cerca de 54% no mês de março. Em abril, quando nenhuma instituição de ensino da cidade teve atividades presenciais, a redução foi de pouco mais de 96% em relação ao mesmo mês de 2019. Na prática, explica o diretor da Associação dos Transportadores Urbanos de Passageiros de Santa Maria (ATU),  Edmilson Gabbardo, dos cerca de 50 ônibus que atendiam ao campus Camobi da UFSM, apenas oito seguem em circulação. 



FORNECEDORES EM ATRASO E PARCELAMENTO DE SALÁRIOS
Gabbardo, representante da ATU, diz que a redução no fluxo causa prejuízo às empresas e impacta no pagamento de fornecedores e funcionários. Dos cerca de 1.200 funcionários empregados no consórcio, segundo Gabbardo, aproximadamente 500 tiveram contratos suspensos ou com carga horário reduzida. Nenhum funcionário foi demitido, mas o cenário preocupa:

- Nós procuramos, no primeiro momento, não dispensar ninguém, mas a consequência lógica é reduzir. As empresas não conseguiram acesso ao crédito prometido pelo governo federal para pagamento dos salários de abril e provavelmente não vai ter recurso para pagar o salário de maio, que entra em 5 de junho. A situação está caótica - explica. 

Ele diz que as empresas estão "pagando para trabalhar" e retoma um pedido antigo do setor: que a tarifa não seja a única fonte de recursos e que o poder público municipal se responsabilize por parte dos custos do serviço. 

- Para continuar tendo esse serviço, os municípios vão ter de tomar medidas no sentido de subsidiar, de isentar de impostos, fazer alguma coisa. Porque se seguir assim por mais um tempo, vai parar. As empresas não vão ter condições de pagar os seus custos, de comprar combustível, de pagar seus funcionários, de comprar pneus. Essa é a realidade - afirma. 

A secretaria de Mobilidade Urbana, por meio do secretário, José Orion Ponsi da Silveira, disse que mantém reuniões com os representantes das empresas e que está ciente do déficit existente. 

- Estou montando uma avaliação financeira desse passivo, que será entregue aos níveis financeiro e jurídico do Executivo, para verificar o que nós podemos aportar. Todos os nossos esforços são para que esse colapso, ou o parcelamento e atraso do pagamentos dos funcionários, não aconteçam. E vamos fazer isso o mais rápido possível - afirma, sem estabelecer prazo. 

MENOS ÔNIBUS NAS RUAS
Ponsi disse que chega a analisar os números de ocupação da frota até três vezes ao dia, para ajustar os horários à demanda das linhas. Segundo ele, dos 260 ônibus que compõem a frota e que eram utilizados em um período normal, agora apenas cerca de 95 à 100 veículos saem da garagem todos os dias.  

Além da queda geral no uso do transporte, influi sobre a situação a restrição no número de passageiros. Conforme a última normativa municipal sobre o tema, além dos passageiros sentados, não podem circular mais de 10 usuários em pé. Isto implica que, dos 80 passageiros carregados antes, em média, apenas 50 podem embarcar no mesmo veículo agora. Para garantir o cumprimento do decreto, a secretaria trabalha na fiscalização dos veículos, presencial e remotamente, neste último caso através do monitoramento dos dados.

Contudo, reclamações de superlotação e demora seguem sendo registradas. Passageiros, como o estudante de medicina Victorio Del Fabro, 26 anos, que atua junto à Unidade de Saúde Rubem Noal, no Bairro Tancredo Neves, diz que ele e os colegas enfrentam problemas na locomoção:

- Por exemplo, no retorno da Tancredo Neves, antes os ônibus passavam de 15 em 15 minutos, agora está passando de uma em uma hora. Ficou bem ruim para o usuário. 

Victório diz que a comunicação sobre os novos horários está prejudicada. Lembra ainda que, na volta do trabalho, é comum encontrar ônibus com mais passageiros que o permitido e até mesmo pessoas sem máscaras. 

Sobre a superlotação, o secretário explicou que antes da pandemia havia uma média de uso que servia como base para o cálculo dos horários ofertados a cada dia. A frota era calculada para atender a até 100 mil passageiros diários e era mais simples estimar quais seriam os picos de uso do sistema. Com a pandemia, a variação diária é grande e o número de usuários bem menor: houve dias úteis em que circularam de 8 à 10 mil passageiros apenas. A adaptação da frota, para a atender a esse número de pessoas sem provocar custos desnecessários, levou a um cenário de horários mais espaçados. 

- Esse equilíbrio na quantidade de veículos, de horários e quantidade de usuários é o que faz com que a gente não tenha tido colapso no sistema. Que o sistema não tenha sido descontinuado. 

TRABALHADORES EM ESPERA
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Condutores de Veículos Rodoviários de Santa Maria e Região (Sitracover), Rogério Santos da Costa, confirma que cerca de 500 trabalhadores do transporte coletivo tiveram alteração no regime de trabalho. Segundo Rogério, os acordos foram negociados individualmente com os trabalhadores, sem mediação do Sindicato. Com isso, no caso das suspensões, o salário de um motorista de ônibus, por exemplo, que recebe normalmente R$2.850,00 pode cair para até R$2.124,00. O cálculo é feito com base nas determinações de duas Medidas Provisórias do governo federal, a MP927 e a MP935.

Pesa também a incerteza sobre o futuro. Neste ano, a convenção trabalhista que normalmente ocorre em fevereiro foi adiada por conta da possibilidade de licitação do transporte público. Por isso, não houve negociação salarial entre a categoria e o sindicato patronal. Além da dúvida sobre o recebimento do próximo salário e a diminuição dos vencimentos por conta da suspensão ou da redução da carga horária trabalhada, os empregados do setor também tiveram alterações no vale-alimentação. Ainda conforme Rogério, o benefício - que não é de pagamento obrigatório, nem está previsto na CLT - era pago no 5º dia útil do mês mas, agora, tem caído na conta apenas por volta do dia 20. 

Até agora, informou o Sindicato, nenhum trabalhador do transporte coletivo foi afastado por contágio pelo novo coronavírus. O secretário de mobilidade, Orion Ponsi, explica que a pasta disponibilizou álcool em gel e máscaras para os profissionais, bem como, fez a sanitização dos veículos. O diretor do sindicato lembra a importância dessa ação e conta que, internamente, a instituição também se organizou com ajuda voluntária para fornecer máscaras aos transportadores. 


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